Com medo de Trump e vaga de protestos, líder supremo do Irão já prepara plano de fuga para Moscovo

O líder supremo do Irão, ayatollah Ali Khamenei, enfrenta o mais sério desafio interno dos últimos anos, num contexto de protestos generalizados em várias regiões do país, agravados por uma crise económica profunda, tensões geopolíticas crescentes e uma resposta repressiva das autoridades.

Pedro Gonçalves
Janeiro 6, 2026
19:02

O líder supremo do Irão, ayatollah Ali Khamenei, enfrenta o mais sério desafio interno dos últimos anos, num contexto de protestos generalizados em várias regiões do país, agravados por uma crise económica profunda, tensões geopolíticas crescentes e uma resposta repressiva das autoridades. Segundo informações recolhidas por serviços de inteligência norte-americanos e britânicos, Khamenei terá já preparado um plano de contingência para abandonar Teerão e refugiar-se em Moscovo caso a situação saia do controlo do regime.

De acordo com uma reportagem do jornal britânico The Times, baseada em informações de inteligência, o plano prevê a saída do país do líder supremo, atualmente com 86 anos, acompanhado por cerca de 20 pessoas do seu círculo mais próximo, incluindo familiares diretos e o seu filho Mojtaba Khamenei, apontado como herdeiro político.

A vaga de protestos teve início no bazar de Teerão e rapidamente se alastrou a outras cidades, colocando em causa a estabilidade do regime islâmico. Durante os primeiros nove dias de manifestações, pelo menos 25 pessoas morreram, segundo dados divulgados pela Reuters, enquanto as autoridades procederam à detenção de cerca de 1.200 pessoas.

No sábado, Ali Khamenei adotou um tom particularmente duro, sinalizando luz verde para uma repressão mais musculada. Em declarações reproduzidas pelos meios de comunicação iranianos, o líder supremo afirmou que “um número de pessoas agitadas, mercenários do inimigo, posicionaram-se por detrás de comerciantes do bazar e entoaram slogans contra o Islão, contra o Irão e contra a República Islâmica”.

Khamenei distinguiu entre contestação e violência, mas deixou claro o rumo a seguir: “O protesto é legítimo, mas protesto é diferente de tumulto. As autoridades devem falar com os manifestantes. Falar com um tumultuoso é inútil. Os tumultuosos têm de ser colocados no seu lugar”.

Plano de fuga ativado em caso de deserções nas forças de segurança
Segundo o The Times, o plano de fuga será ativado caso se verifiquem deserções ou recusas de cumprimento de ordens por parte de unidades do Exército ou das forças de segurança encarregadas de reprimir os protestos. Uma fonte de inteligência citada pelo jornal revelou que “foi traçada uma rota de saída de Teerão caso sintam necessidade de escapar”, acrescentando que o círculo de Khamenei tem vindo a “reunir ativos, propriedades no estrangeiro e dinheiro líquido para facilitar uma passagem segura”.

A existência de uma rede de ativos financeiros fora do país é apontada como um elemento-chave para viabilizar uma eventual retirada rápida. O cenário recorda a fuga do antigo presidente sírio Bashar al-Assad para a Rússia, em 2024, quando o seu regime colapsou após 13 anos de guerra civil.

Crise económica, inflação e escassez de água alimentam contestação
O agravamento da contestação social ocorre num momento de grande fragilidade económica. As sanções internacionais e as tensões prolongadas com os Estados Unidos e Israel comprimiram severamente a economia iraniana, provocando a queda da moeda nacional para mínimos históricos e uma perda acentuada do poder de compra.

A inflação atingiu os 40%, de acordo com a Associated Press, empurrando milhões de iranianos para dificuldades acrescidas. Apesar da introdução de algumas medidas de alívio económico, incluindo a nomeação de um novo governador do banco central, analistas consideram que estas iniciativas são insuficientes para travar o descontentamento popular.

A situação é ainda agravada por uma crise hídrica severa, que afeta reservatórios e o abastecimento urbano, aumentando a frustração da população e reforçando os apelos a mudanças políticas mais profundas.

O contexto interno é acompanhado por uma escalada de pressão internacional. O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, deixou um aviso claro a Teerão, afirmando que o país seria “atingido com muita força” caso mais manifestantes fossem mortos à medida que os protestos entraram na segunda semana.

Numa publicação na rede Truth Social, Trump escreveu: “Se o Irão disparar e matar violentamente manifestantes pacíficos, como é seu costume, os Estados Unidos da América virão em seu socorro. Estamos armados até aos dentes e prontos a avançar”.

O presidente norte-americano voltou também a ameaçar o Irão com ataques relacionados com os seus programas nuclear e de mísseis, reiterando o apoio a Israel no contexto das tensões de segurança regionais. Tanto Washington como Telavive têm promovido abertamente a ideia de uma mudança de regime em Teerão.

Conflitos recentes e isolamento diplomático
O regime iraniano continua igualmente a lidar com as consequências de ataques israelitas e norte-americanos ocorridos durante um conflito de 12 dias em junho, que agravou ainda mais o isolamento do país. Paralelamente, Teerão manifestou forte oposição à recente captura do presidente venezuelano Nicolás Maduro pelos Estados Unidos, vendo nessa ação um precedente inquietante.

Observadores internacionais consideram que o Irão poderá agora enfrentar um nível acrescido de escrutínio ou até ações diretas por parte de Washington, num momento em que a liderança do regime aparenta estar a preparar-se para cenários extremos.

Entretanto, o secretário-geral das Nações Unidas, António Guterres, manifestou-se “profundamente entristecido com as notícias de perdas de vidas humanas e feridos”, apelando à contenção num país onde a tensão social, económica e política parece longe de abrandar.

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