O comandante nacional da Autoridade Nacional de Emergência e Proteção Civil, Mário Silvestre, apresentou ao final da manhã desta quinta-feira um retrato detalhado do impacto do mau tempo em Portugal continental, descrevendo um cenário marcado por cheias, derrocadas, estradas submersas, populações deslocadas e milhares de meios no terreno.
No balanço operacional, o responsável confirmou 5.793 ocorrências registadas, apoiadas por mais de 20.300 operacionais, 8.007 meios terrestres e vigilância aérea permanente com helicópteros.
Entre os episódios mais graves contam-se deslizamentos de terras, inundações extensas nas principais bacias hidrográficas e interrupções rodoviárias e ferroviárias em vários distritos.
Estradas cortadas, derrocadas e vias ferroviárias afetadas
De acordo com Mário Silvestre, há registo de uma derrocada na EN4, em Sesimbra, enquanto a inundação do rio Tejo entre Lisboa e Vila Franca de Xira provocou constrangimentos tanto na Estrada Nacional 10 como na Linha do Norte, afetando a circulação ferroviária.
Na Lezíria do Tejo, várias estradas encontram-se cortadas e campos agrícolas submersos, com inundações significativas na Azambuja. A situação estende-se também à margem esquerda do Sorraia, onde o rio já galgou a margem direita, causando inundações em Coruche.
O Médio Tejo e Constância apresentam igualmente diversas zonas submersas. No distrito de Portalegre, foi registada uma derrocada na Serra de São Mamede, esta manhã, que danificou vários veículos.
Mais a sul, em Alcoutim, a subida do Guadiana, motivada por descargas provenientes de Espanha, obrigou à retirada de moradores das suas habitações.
Planos de emergência ativados em dezenas de municípios
Perante o agravamento da situação, a Proteção Civil ativou planos distritais de emergência e proteção civil nas zonas mais afetadas, bem como 84 planos municipais de emergência, numa resposta coordenada para mitigar riscos e apoiar populações.
Inundações já quase superam quedas de árvores
O comandante destacou que o tipo de ocorrências tem vindo a alterar-se. Se inicialmente predominavam quedas de árvores, agora as inundações assumem um peso semelhante, com 1.503 situações registadas.
Há ainda localidades isoladas nos distritos de Santarém e Coimbra, e várias pessoas foram retiradas preventivamente:
- Santarém: 53 deslocados
- Coruche: 132
- Leiria: 145
- Castelo Branco: 153
- Setúbal: 15
No plano energético, 86 mil clientes continuam sem eletricidade, sendo Leiria o distrito mais afetado.
Risco mantém-se elevado nas próximas horas
Mário Silvestre alertou para os efeitos expectáveis nas próximas horas, nomeadamente:
- inundações em áreas urbanas;
- cheias rápidas;
- deslizamentos de terras;
- estradas submersas;
- galgamentos de rios;
- forte ondulação marítima;
- arrastamento e queda de objetos para as vias rodoviárias.
O responsável reforçou que o comportamento individual pode ser determinante para evitar vítimas. “O comportamento seguro é crítico para não termos vítimas a lamentar”, sublinhou.
Recomendações à população
A Proteção Civil reiterou um conjunto de medidas preventivas, apelando a que a população:
- não atravesse estradas inundadas;
- evite túneis, ribeiras e vales;
- estacione apenas em locais seguros;
- feche portas e janelas e permaneça nos pisos superiores;
- desligue e afaste equipamentos elétricos da água;
- transporte apenas o essencial caso tenha de sair (medicação e identificação);
- não caminhe em zonas alagadas, recordando que 30 centímetros de água podem arrastar uma pessoa ou imobilizar veículos;
- mantenha crianças e animais afastados de linhas de água;
- evite zonas próximas de descargas de barragens.
Vigilância apertada aos grandes rios
A situação hidrológica mantém-se sob observação contínua. Segundo a Proteção Civil, descargas de barragens espanholas poderão criar problemas no rio Douro, cenário ainda em avaliação.
No Tejo, é esperado que o pico de caudal ocorra por volta da meia-noite, sobretudo no Médio Tejo e no distrito de Lisboa. Já no Guadiana, os caudais elevados mantêm-se desde ontem.
Com milhares de operacionais mobilizados e múltiplos planos de emergência ativos, as autoridades mantêm o apelo à prudência, numa fase em que a evolução do tempo e dos caudais poderá continuar a agravar os impactos em várias regiões do país.





