“Chegam com ferimentos de bala na cabeça e no coração”: repressão das autoridades no Irão deixa hospitais sobrelotados

Apesar do bloqueio informativo, organizações de defesa dos direitos humanos continuam a recolher testemunhos sobre a situação no terreno

Francisco Laranjeira
Janeiro 12, 2026
13:10

O Irão permanece isolado do exterior, com a internet e as telecomunicações bloqueadas, enquanto os protestos contra o regime entram na terceira semana e continuam a alastrar, apesar do agravamento da repressão. Segundo o observatório de direitos humanos Hrana, pelo menos 538 pessoas morreram desde o início das manifestações, incluindo 38 membros das forças de segurança, e mais de 10 mil foram detidas.

O apagão das comunicações, relatou o jornal espanhol ‘El Mundo’, prolonga-se há quatro dias consecutivos, impedindo contactos com o estrangeiro e entre diferentes regiões do país. A ausência de internet está também a afetar o sistema bancário, os aeroportos e milhares de empresas, aprofundando o impacto económico da crise.

Apesar do bloqueio informativo, organizações de defesa dos direitos humanos continuam a recolher testemunhos sobre a situação no terreno. Hospitais de Teerão e de outras cidades estão sobrelotados com feridos e mortos resultantes das operações policiais. A ‘BBC Persian’ confirmou que 70 corpos deram entrada, numa única noite, no Hospital Poursina, em Rasht, no noroeste do país, tendo a equipa médica relatado que a morgue se encontrava lotada e que forças de segurança retiraram vários cadáveres.

Fontes hospitalares indicam ainda que as autoridades exigem pagamentos elevados às famílias para libertarem os corpos dos falecidos. Um médico de um hospital da capital descreveu à ‘BBC Persian’ a gravidade dos ferimentos: muitos manifestantes morreram “assim que chegaram aos leitos da emergência, com ferimentos diretos de bala na cabeça e até mesmo no coração”. Segundo o mesmo relato, “muitos nem chegaram a ser levados ao hospital”.

Protestos espalham-se e exigências radicalizam-se

Organizações culturais e de direitos humanos têm recorrido às redes sociais para tentar identificar pessoas desaparecidas, numa tentativa de perceber se foram detidas ou mortas. Muitos iranianos no estrangeiro estão a tomar conhecimento da morte de familiares e amigos através dessas plataformas, como aconteceu com o Coletivo de Cineastas Hamood, que anunciou a morte de um dos seus membros, Javad Ganji, durante os protestos.

Ao contrário das manifestações de 2022, associadas ao movimento Mulheres, Vida e Liberdade, os atuais protestos foram inicialmente desencadeados pela inflação elevada e pelos cortes frequentes de eletricidade e água. Sem liderança definida, espalharam-se rapidamente de Teerão para cidades de todo o país e passaram a incluir exigências políticas mais amplas, como o fim da República Islâmica e até apelos ao regresso da monarquia derrubada em 1979, segundo o ‘El Mundo’.

Regime endurece discurso e ameaça com pena de morte

O apagão da internet coincidiu com uma escalada da repressão, com a mobilização da polícia, do exército e da Guarda Revolucionária. As autoridades declararam que a defesa da segurança nacional é uma “linha vermelha”, enquanto o Ministério Público advertiu que a participação nos protestos pode ser enquadrada como o crime de “inimigo de Deus”, punível com a pena de morte.

O chefe da polícia iraniana, Ahmad Reza Radan, elogiou o aumento das detenções de alegados “manifestantes violentos” e admitiu a existência de mortos por disparos, mas atribuiu a responsabilidade a “grupos terroristas”. Segundo afirmou, a curta distância dos tiros provaria que não foram efetuados pelas forças de segurança.

Governo acusa EUA e Israel de ingerência

O presidente iraniano, Masoud Pezeshkian, alterou o tom inicial de apelo ao diálogo e passou a acusar os manifestantes de terrorismo, alinhando-se com a posição do líder supremo, Ali Khamenei. Pezeshkian responsabilizou os Estados Unidos e Israel por tentativas de “mergulhar o país no caos”, acusando-os de treino e financiamento de grupos violentos.

A retórica subiu ainda mais de tom após declarações do presidente do Parlamento, Mohammad Baqer Qalibaf, que afirmou que o Irão está “em guerra” com os EUA e Israel em várias frentes e advertiu que qualquer ataque será respondido, incluindo com ações preventivas. As declarações surgiram depois de meios de comunicação americanos noticiarem que Donald Trump pediu informações sobre possíveis opções militares contra o Irão.

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