Chega já alinha estratégia para as autárquicas: Volta a ‘investir’ em ex-membros do PSD e tem Lisboa como grande ‘dor de cabeça’

A pouco mais de um ano das eleições autárquicas, o partido Chega prepara-se para enfrentar vários desafios, entre os quais evitar os erros do passado que resultaram na perda de dezenas de autarcas eleitos. O partido tem apostado na mesma estratégia que utilizou em eleições anteriores: recrutar ex-membros descontentes do PSD e integrá-los nas suas listas.

Executive Digest
Agosto 19, 2024
17:43

A pouco mais de um ano das eleições autárquicas, o partido Chega prepara-se para enfrentar vários desafios, entre os quais evitar os erros do passado que resultaram na perda de dezenas de autarcas eleitos. O partido tem apostado na mesma estratégia que utilizou em eleições anteriores: recrutar ex-membros descontentes do PSD e integrá-los nas suas listas.

De acordo com dirigentes e deputados do Chega, esta abordagem é particularmente eficaz em eleições autárquicas, uma vez que os sociais-democratas trazem consigo uma experiência valiosa na política local. Um dirigente do Chega explica que as pessoas provenientes do PSD são “pessoas enraizadas” nas suas comunidades, muitas das quais com “experiência local”. Em 2021, “ninguém queria trocar de camisa”, mas o contexto atual é diferente. “Irá haver mais gente a chegar de outros partidos”, afirma o dirigente, sublinhando que esta estratégia faz “mais sentido do que em qualquer outra situação”.

Um deputado do Chega relembra ao Observador que, há quatro anos, havia uma “contenção” entre as pessoas que se identificavam com o partido e que evitavam expor-se publicamente. Agora, acredita que o cenário será diferente, já que cada vez mais pessoas estão a deixar outros partidos para se juntarem ao Chega. No partido, há confiança de que passaram de uma fase em que “havia necessidade em arranjar candidatos” para uma fase em que podem ser mais rigorosos na seleção. “Agora é mais fácil não cometer erros“, conclui o dirigente.

Após as autárquicas de 2021, Bruno Nunes, então coordenador autárquico do Chega, reconheceu ao Observador que houve “erros de casting graves”, mas justificou que era necessário “correr o risco” para garantir a presença do partido em todos os boletins de voto do país. Desde então, a “seleção natural” dos eleitos levou a várias saídas, o que, segundo Nunes, demonstra que alguns tinham “objetivos pessoais” e, quando puderam, “aceitaram pelouros” nas câmaras.

Hoje, o Chega está determinado a não repetir esses erros. As distritais e concelhias do partido já foram convocadas para apresentar sugestões de candidatos, que serão avaliadas pela Comissão Autárquica Nacional e pela direção, com especial atenção às grandes câmaras. O objetivo é ter as listas finalizadas até dezembro.

Lisboa: uma preocupação para o Chega

Apesar de ter conseguido eleger 19 vereadores em todo o país nas últimas autárquicas, o Chega falhou na eleição de um vereador em Lisboa, uma das câmaras mais importantes do país. Nuno Graciano, a aposta do partido para a capital em 2021, não conseguiu alcançar o objetivo, apesar da sua notoriedade como ex-apresentador de televisão.

Um alto dirigente do Chega admite que a escolha de Graciano foi motivada pela necessidade de “notoriedade” numa altura em que o partido estava em afirmação e poucos se disponibilizavam para candidatar-se pelo Chega. No entanto, a estratégia falhou, e quatro anos depois, essa é uma das áreas em que o partido precisa de corrigir o rumo. “Se não conseguirmos ninguém de fora que justifique, tem de ser alguém de dentro com notoriedade”, afirmou o dirigente.

Nos bastidores do partido, há discussões sobre a possibilidade de Ventura apostar num nome independente ou num membro do partido para a candidatura em Lisboa. Um deputado do Chega alerta para o perigo de uma “má candidatura a Lisboa” poder influenciar negativamente não só o distrito, mas também o país inteiro, devido à importância simbólica da capital nas autárquicas.

Internamente, há também o receio de que a escolha de um nome externo possa ser interpretada como um sinal de que os atuais membros do partido são “incompetentes”. Um conselheiro nacional do Chega adverte que isso poderia causar “mal-estar internamente” e frustrar aqueles que têm trabalhado arduamente para o partido. “Tem de haver equilíbrio“, defende outro dirigente, que concorda que trazer nomes de fora faz sentido, mas que a seleção deve ser feita com cuidado.

Ventura terá a palavra final na escolha dos candidatos, com especial atenção às câmaras de maior dimensão e aos municípios com orçamentos superiores a 100 milhões de euros. Após o resultado das europeias, que funcionou como um “abre-olhos” para o Chega, as autárquicas serão um momento crucial para o partido, que procura consolidar a sua presença a nível nacional e não defraudar as expectativas dos seus apoiantes.

A esquerda, por sua vez, está atenta à estratégia do Chega em Lisboa, onde acredita que uma candidatura forte do partido de Ventura pode fragilizar a recandidatura de Carlos Moedas, que sempre se distanciou do Chega na sua coligação de direita. Numa eleição onde cada voto conta, um candidato do Chega pode dividir a direita e beneficiar o PS.

Com a aproximação das autárquicas, Ventura sabe que este será o momento certo para consolidar a implantação nacional do Chega e evitar erros que possam comprometer o futuro do partido nas legislativas.

Partilhar

Edição Impressa

Assinar

Newsletter

Subscreva e receba todas as novidades.

A sua informação está protegida. Leia a nossa política de privacidade.