Casa Branca pressiona hoje Netanyahu enquanto Trump pondera futuro do plano de paz para Gaza

Responsáveis da Casa Branca acreditam que Netanyahu tem vindo a atrasar deliberadamente os esforços diplomáticos e receiam que Israel retome a ofensiva militar contra o Hamas

Executive Digest
Dezembro 29, 2025
7:45

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, prepara-se para fazer vários anúncios relevantes sobre Gaza no início de janeiro, mas o avanço do processo dependerá em grande medida do encontro marcado para esta segunda-feira, em Mar-a-Lago, com o primeiro-ministro israelita, Benjamin Netanyahu. A reunião surge num momento de crescente tensão entre a Casa Branca e o Governo israelita sobre o futuro do cessar-fogo e do processo de paz.

Responsáveis da Casa Branca acreditam que Netanyahu tem vindo a atrasar deliberadamente os esforços diplomáticos e receiam que Israel retome a ofensiva militar contra o Hamas. Ainda assim, o primeiro-ministro israelita aposta numa estratégia direta junto de Trump, procurando convencê-lo a adotar uma linha mais dura em relação a Gaza, segundo um alto responsável israelita citado pela publicação ‘Axios’.

A Casa Branca pretende avançar rapidamente com a criação de um governo tecnocrático palestiniano e com a instalação de uma Força Internacional de Estabilização em Gaza. Entre os cenários em cima da mesa está a convocação, já em janeiro, de um Conselho de Paz liderado por Trump à margem do Fórum Económico Mundial, em Davos.

O enviado especial de Trump, Steve Witkoff, e o conselheiro presidencial Jared Kushner têm estado a trabalhar com o Egito, o Qatar e a Turquia para fechar os contornos deste plano e preparar a segunda fase do acordo, que prevê a entrega de armas pelo Hamas e a retirada gradual das forças israelitas. Netanyahu, no entanto, tem manifestado forte ceticismo, sobretudo quanto à desmilitarização de Gaza, posição que transmitiu recentemente ao senador republicano Lindsey Graham, numa reunião em Jerusalém.

Estas divergências colocam pressão adicional sobre o encontro entre Trump e Netanyahu, considerado decisivo por ambas as partes. Sem o apoio do primeiro-ministro israelita, o processo de paz dificilmente poderá avançar. Um alto responsável israelita admite que Netanyahu está a tentar convencer “uma audiência de uma só pessoa”, sublinhando que a grande incógnita é saber se Trump alinhará com os seus conselheiros ou com o líder israelita.

Frustração crescente na equipa de Trump

A equipa principal de Trump tem demonstrado crescente frustração com decisões de Israel consideradas prejudiciais ao frágil cessar-fogo. Tal como já tinha acontecido durante a administração Biden, surgiram conflitos sobre questões táticas, como a abertura da passagem de Rafah com o Egito ou o envio de tendas para civis palestinianos deslocados durante o inverno.

Segundo um responsável da Casa Branca, Netanyahu perdeu o apoio de figuras-chave da equipa de Trump, incluindo o vice-presidente JD Vance, Marco Rubio, Jared Kushner, Steve Witkoff e Susie Wiles, restando-lhe sobretudo a relação pessoal com o presidente americano. Ainda assim, fontes israelitas indicam que Rubio mantém uma posição mais próxima da de Netanyahu do que a de outros membros da administração.

Nos bastidores, cresce a perceção de que Israel se terá arrependido de ter aceitado o plano de paz de 20 pontos. Funcionários da Casa Branca apontam execuções seletivas de comandantes do Hamas, consideradas violações do cessar-fogo, e decisões no terreno atribuídas a uma atuação “impulsiva” de comandantes das Forças de Defesa de Israel.

No passado dia 19, Witkoff e Kushner reuniram-se em Miami com representantes do Qatar, do Egito e da Turquia, países que funcionam como garantes do acordo de paz. Um dos objetivos foi definir as exigências que Trump deverá apresentar a Netanyahu, incluindo o respeito rigoroso pelo cessar-fogo e a redução de baixas civis.

As partes acordaram acelerar a nomeação de um governo tecnocrático palestiniano, que assumiria a governação quotidiana de Gaza, substituindo o Hamas. Os potenciais membros foram avaliados pelos Estados Unidos e os seus nomes partilhados com vários países da região. Este governo teria o apoio do Conselho de Paz liderado por Trump e de um representante especial no terreno, o ex-enviado da ONU Nickolay Mladenov.

Segundo responsáveis da Casa Branca, caberá também a este executivo supervisionar o processo de desmilitarização, que deverá decorrer em várias fases, começando por armas pesadas, como mísseis e rockets, e avançando depois para armamento ligeiro. O plano aplicar-se-á não só ao Hamas, mas também a outras milícias, incluindo grupos apoiados por Israel, podendo a Força Internacional de Estabilização ser chamada a intervir no desarmamento.

Netanyahu continua, contudo, a mostrar-se cético quanto à desmilitarização, à composição do governo tecnocrático e ao papel atribuído à Turquia e ao Qatar na Gaza pós-guerra. Um responsável israelita afirmou que Israel não considera positivos os resultados da reunião de Miami.

Cisjordânia e riscos para a Autoridade Palestiniana

Outro tema que deverá ser abordado no encontro na Florida é a situação na Cisjordânia e o risco de colapso da Autoridade Palestiniana. A administração Trump pretende avançar com um plano de reformas profundas, mas alerta que esse esforço será inviável se Israel continuar a minar o processo.

Washington quer que Israel contenha a violência dos colonos contra palestinianos, desbloqueie milhares de milhões de euros em receitas fiscais palestinianas retidas e alcance um entendimento com os Estados Unidos sobre a expansão dos colonatos.

Na avaliação da Casa Branca, as oportunidades estratégicas para Israel na região são significativas, mas os danos à sua reputação internacional após dois anos de guerra também são elevados. Um responsável americano sublinhou a necessidade de normalizar primeiro as relações com o Reino Unido antes de avançar para uma aproximação à Arábia Saudita.

A mensagem central que Trump deverá transmitir a Netanyahu é clara: deixar a guerra para trás e apostar seriamente na paz. “O presidente acredita que pode ajudar Israel a enfrentar estes desafios, mas não se a política continuar como está”, afirmou um funcionário da Casa Branca.

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