Câmara de Lisboa vai abater jacarandás para construir parque de estacionamento. Levanta-se onda de protestos e petição contra medida

A decisão da Câmara Municipal de Lisboa (CML) de abater dezenas de árvores, incluindo jacarandás, na Avenida 5 de Outubro para construir um parque de estacionamento subterrâneo está a gerar uma forte reção por parte dos lisboetas.

Pedro Gonçalves
Março 24, 2025
10:21

A decisão da Câmara Municipal de Lisboa (CML) de abater dezenas de árvores, incluindo jacarandás, na Avenida 5 de Outubro para construir um parque de estacionamento subterrâneo está a gerar uma forte reção por parte dos lisboetas. A polémica intensificou-se depois de terem surgido nas árvores avisos que justificam o abate por “razões de urbanismo”. Em resposta, cidadãos indignados lançaram uma petição contra a medida, que já reuniu mais de 19 mil assinaturas.

A CML anunciou a intervenção no passado domingo e garantiu que o projeto resultaria, a longo prazo, num aumento da cobertura arbórea na zona.

“A Avenida 5 de Outubro vai ficar mais verde e com mais árvores”, afirmou a autarquia nas redes sociais. “A intervenção tem por objetivo construir o novo parque de estacionamento público de Entrecampos e, no final, será duplicado o número de árvores naquela zona”.

No portal de Intervenções no Arvoredo Municipal, a Câmara especifica que serão removidas 47 árvores, das quais 22 serão transplantadas para outras áreas verdes da freguesia, enquanto as restantes “não reúnim condições para transplante”. A autarquia sustenta que a remoção das árvores é “necessária para a construção de um estacionamento subterrâneo” e assegura que o projeto irá aumentar a área de sombreamento e a permeabilidade dos passeios em cerca de 3.500 metros quadrados, através da plantacão de mais 41 árvores e mais de 30 espécies de arbustos e herbáceas.

Contestação cresce entre os lisboetas
Apesar das garantias da Câmara, a decisão tem motivado uma forte reção da população. Entre os opositores está Nuno Prates, jardineiro conhecido pelo seu trabalho de recuperação de jardins em Lisboa, que usou as redes sociais para criticar a medida.

“Sem comentário possível. Medina, Moedas, a mesma maneira de entender uma cidade sustentável e verde. Vereador e presidentes de Câmaras, viajem, ganhem mundo, vejam o que se faz no coração das cidades europeias. Não é estacionamento e muito menos eliminar árvores que já existem com a cantiga da carochinha que serão substituídas”, escreveu.

A petição lançada contra o abate dos jacarandás conta já com mais de 19 mil assinaturas e foi dirigida à Assembleia Municipal de Lisboa. O documento, assinado por “cidadãos preocupados”, denuncia que a intervenção compromete “a pouca qualidade de vida que esta Avenida ainda oferece” e acusa a CML de falta de transparência na comunicação.

“Ficamos sem saber que obra é, quais as razões que impossibilitam os transplantes, de que espécie serão as novas árvores e sequer se serão colocadas na localização anterior”, questionam os signatários. Entre as dúvidas colocadas, está também a questão de saber se “a utilidade deste abate e transplante é a criação de estacionamento subterrâneo” e se “será devolvido mais espaço público aos munícipes, retirando o estacionamento à superfície”.

O simbolismo dos jacarandás em Lisboa
Os subscritores da petição sublinham que os jacarandás, além de contribuírem para a qualidade do ar e a redução da temperatura urbana, são parte da identidade da cidade.

“Numa cidade cada vez mais quente, refrescam as ruas fustigadas pelo calor refletivo pelo chão, chapas de obras e prédios, contribuem para a substituição de CO2 por O2 e filtram do ar pós e a fuligem da grande afluência de trânsito”, afirmam.

A presença dos jacarandás é também descrita como um “símbolo de Lisboa”, evocando o impacto visual das suas flores roxas na primavera. “Não nos podemos esquecer de como marcam a passagem das estações num lugar em que o tempo parece fugir de nós, deixando-nos reféns de um constante e infinito agora”, lê-se no documento.

O abate e transplante das árvores está previsto para decorrer entre março e junho deste ano. Apesar da resistência dos cidadãos, até ao momento, a CML não deu indicações de que poderá reconsiderar a decisão. No entanto, com o aumento da pressão popular e a atenção mediática sobre o tema, a autarquia poderá ser chamada a esclarecer melhor as suas justificativas e a rever aspetos da intervenção.

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