Cães azuis avistados em Chernobyl intrigam cientistas, mas a explicação é mais simples do que imagina

Um grupo de cães com o pelo azul foi recentemente avistado na zona de exclusão de Chernobyl, na Ucrânia, o que gerou curiosidade e especulação sobre possíveis mutações causadas pela radiação. No entanto, os investigadores garantem que o fenómeno tem uma explicação muito mais comum — e um tanto desagradável.

Pedro Gonçalves
Novembro 1, 2025
16:30

Um grupo de cães com o pelo azul foi recentemente avistado na zona de exclusão de Chernobyl, na Ucrânia, o que gerou curiosidade e especulação sobre possíveis mutações causadas pela radiação. No entanto, os investigadores garantem que o fenómeno tem uma explicação muito mais comum — e um tanto desagradável.

De acordo com o portal IFLScience, que ouviu a equipa do programa Dogs of Chernobyl, pelo menos três cães com o pelo azul foram documentados a 6 de outubro de 2025 na área restrita que circunda o epicentro do desastre nuclear de 1986. As imagens georreferenciadas foram confirmadas pelos investigadores, que após várias tentativas falhadas de capturar os animais conseguiram identificar a provável origem da cor: um antigo sanitário portátil.

“Aparentemente, os cães rolaram numa substância que se acumulou no pelo. Suspeitamos que essa substância provinha de uma casa de banho portátil que estava na mesma localização dos animais; contudo, não conseguimos confirmar totalmente a nossa suspeita”, explicou a veterinária Jennifer Betz, diretora médica do programa Dogs of Chernobyl, em declarações ao IFLScience. “De forma alguma estamos a dizer que este caso está relacionado com a radiação em Chernobyl”, acrescentou.

Ou seja, os cães terão ficado cobertos com fluido químico azul proveniente de um sanitário danificado. Apesar da aparência impressionante, os investigadores estão confiantes de que a substância não representa um perigo significativo. “Os cães parecem saudáveis, assim como todos os outros que encontrámos em Chernobyl. Suspeito que, desde que não lambam a maior parte da substância do pelo, será praticamente inofensivo”, garantiu Betz.

Curiosamente, não é a primeira vez que cães tingidos de azul são vistos na antiga União Soviética. Em 2021, moradores de Dzerzhinsk, na Rússia, ficaram surpreendidos ao encontrar uma matilha de cães de cor azul intensa perto de uma fábrica química abandonada. Nesse caso, o fenómeno foi atribuído ao contacto com sulfato de cobre, uma substância azulada usada na indústria.

Os investigadores do Clean Futures Fund, responsável pelo projeto Dogs of Chernobyl, também esclareceram que a coloração não está relacionada com as marcas temporárias usadas durante campanhas de esterilização. “Durante as nossas campanhas, aplicamos um marcador de cera temporário no topo da cabeça, em verde, vermelho, azul ou roxo, para identificar os cães operados. Esse marcador desaparece em dois ou três dias e é completamente diferente dos animais que encontrámos cobertos quase por completo de azul”, explicou Betz.

O projeto Dogs of Chernobyl, criado em 2017, tem como missão monitorizar e esterilizar os descendentes dos animais domésticos deixados para trás quando cerca de 120 mil pessoas foram evacuadas de Chernobyl e Pripyat, após o acidente nuclear de abril de 1986. Desde então, a organização já esterilizou mais de mil cães e gatos, ajudando a controlar a população semi-selvagem que habita a zona contaminada.

Paralelamente, estudos têm mostrado que várias espécies selvagens prosperam atualmente na área, incluindo javalis, raposas, aves e cães-guaxinim. Os lobos, em particular, parecem ter desenvolvido mutações genéticas que aumentam a resistência ao cancro — uma das mais surpreendentes adaptações da fauna local num dos territórios mais radioativos do planeta.

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