Bruxelas sob vigilância: investigação revela esquema húngaro de espionagem dentro da Comissão Europeia

Uma investigação conjunta dos jornais De Tijd (Bélgica) e Der Spiegel (Alemanha), com o apoio do centro de jornalismo de investigação Direkt36, revelou que a Hungria terá montado uma operação secreta inspirada nos métodos do KGB para espiar instituições da União Europeia (UE) em Bruxelas.

Pedro Gonçalves
Outubro 9, 2025
17:26

Uma investigação conjunta dos jornais De Tijd (Bélgica) e Der Spiegel (Alemanha), com o apoio do centro de jornalismo de investigação Direkt36, revelou que a Hungria terá montado uma operação secreta inspirada nos métodos do KGB para espiar instituições da União Europeia (UE) em Bruxelas.

Segundo os media envolvidos, o objetivo não seria apenas recolher informações estratégicas para o país, mas proteger interesses pessoais e políticos de Viktor Orbán, primeiro-ministro húngaro, cuja proximidade ao Kremlin tem sido alvo de críticas internas e externas.

A operação terá decorrido entre 2015 e 2017, envolvendo contactos diretos entre funcionários europeus e representantes diplomáticos de Budapeste. De acordo com o Der Spiegel, a investigação baseia-se em várias fontes dentro dos serviços de informação e da representação permanente da Hungria junto da UE, confirmando que existiam esforços coordenados para infiltrar-se na Comissão Europeia.

O caso centra-se num funcionário húngaro que trabalhava na Comissão Europeia e que foi abordado por um diplomata identificado apenas como “V.”, afeto à representação húngara em Bruxelas. Os dois encontravam-se regularmente — de três em três meses ou de seis em seis meses — em parques públicos da capital belga.

Durante um desses encontros, “V.” terá apresentado um documento para assinatura, pedindo ao funcionário que atuasse como agente duplo, mantendo o seu cargo em Bruxelas mas fornecendo informações confidenciais ao Informacios Hivatal (IH), os serviços secretos húngaros. Em troca, seria recompensado financeiramente.

O funcionário recusou de imediato e denunciou a tentativa, afirmando que a proposta não servia os interesses da Hungria enquanto Estado, mas antes “uma elite poderosa ou até uma única pessoa” — numa alusão direta a Viktor Orbán.

Bruxelas reage e abre investigação
Após a divulgação das conclusões jornalísticas, a Comissão Europeia confirmou à Reuters que irá abrir uma investigação formal para apurar se houve efetivamente tentativa de ingerência por parte de Budapeste.

A situação é particularmente sensível num contexto em que a Hungria tem bloqueado sucessivas sanções europeias contra a Rússia, mantendo laços comerciais e diplomáticos com Moscovo, o que tem minado os esforços da UE no apoio à Ucrânia.

Fontes citadas pelo De Tijd explicam que o caso reflete uma “estratégia de influência híbrida” de Budapeste, que se aproxima cada vez mais de práticas típicas da Rússia e da China. O jornal alemão compara mesmo a operação àquelas conduzidas outrora pelo KGB, a famosa agência de espionagem soviética onde começou a carreira de Vladimir Putin.

Comissário europeu húngaro sob suspeita
A investigação refere ainda que Oliver Varhelyi, atual comissário europeu da Saúde e Bem-estar animal e figura próxima de Orbán, estaria ao corrente destas atividades.

Embora não existam provas públicas de envolvimento direto, a sua eventual cumplicidade preocupa os investigadores, uma vez que reforçaria a tese de que a operação de espionagem não foi isolada, mas sim um esforço institucionalizado com conhecimento de altas esferas do Governo húngaro.

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