Bruxas, ocultismo e abortos: bispo ortodoxo culpa degradação moral da sociedade russa de prolongar a guerra na Ucrânia

Bispo Pitirim Tvorogov, líder da diocese de Skopin, afirmou que o recurso crescente a bruxas, médiuns, videntes e outras práticas esotéricas, aliado ao que descreveu como um número elevado de abortos, terá “irritado Deus” e contribuído para a continuação da guerra

Francisco Laranjeira
Fevereiro 4, 2026
11:44

Um alto responsável da Igreja Ortodoxa Russa atribuiu a duração da guerra na Ucrânia ao que considera ser a degradação moral da sociedade russa, apontando o aumento de práticas ocultas e a realização de abortos como fatores que estariam a impedir o fim do conflito.

De acordo com o ‘Kyiv Post’, o bispo Pitirim Tvorogov, líder da diocese de Skopin, afirmou que o recurso crescente a bruxas, médiuns, videntes e outras práticas esotéricas, aliado ao que descreveu como um número elevado de abortos, terá “irritado Deus” e contribuído para a continuação da guerra.

Em declarações citadas pelo ‘The Moscow Times’, o bispo sustentou que, só em 2024, “o número de médiuns, feiticeiros, mágicos, leitores de tarô, numerólogos, adivinhos e todo o tipo de bruxas na Rússia triplicou”. Segundo Pitirim, a tendência terá continuado a intensificar-se em 2025, à medida que os russos continuam a adquirir “artigos ocultos”.

“Ou seja, num país em guerra, um grande número de pessoas está a invocar espíritos malignos em busca de ajuda”, declarou o clérigo, associando diretamente estas práticas à ausência de uma solução pacífica para o conflito.

Abortos apontados como entrave à paz

O bispo acusou ainda as mulheres que recorrem ao aborto de minarem os esforços para pôr fim à guerra. “Não é da vontade de Deus que a paz se conclua desta forma”, afirmou, defendendo que o elevado número de abortos realizados nos últimos tempos constitui um dos principais obstáculos ao fim das hostilidades.

Segundo Pitirim, a situação reflete uma sociedade que, na sua perspetiva, “começou a viver de forma muito perversa”, argumento que tem sido reiterado por outros representantes da Igreja Ortodoxa Russa desde o início da invasão da Ucrânia.

Discursos recorrentes na hierarquia ortodoxa russa

Esta não é a primeira vez que figuras religiosas russas associam a guerra àquilo que classificam como decadência moral. O arquipreste Andrei Tkachev, conhecido pelas suas posições pró-guerra, já afirmou que os russos seriam indignos de paz e felicidade, alegando que práticas como o aborto e a masturbação teriam transformado a população “em devassos e assassinos”.

Em janeiro, a Igreja Ortodoxa Russa promoveu uma campanha nacional de oração contra o aborto, apelando às mulheres para que abandonassem essa prática. Numa das orações divulgadas, os fiéis eram exortados a pedir que aqueles “dominados por pensamentos de infanticídio” se arrependessem e “compreendessem a verdade”.

As declarações do bispo surgem num contexto em que a hierarquia religiosa russa tem reforçado a legitimação espiritual da guerra. No passado dia 7 de janeiro, o presidente russo, Vladimir Putin, afirmou perante fiéis ortodoxos que as tropas russas estariam a cumprir uma “missão sagrada” na invasão da Ucrânia, alegadamente “por ordem de Deus”.

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