Bruxas de Páscoa? Nestes países o coelho e os ovos não fazem parte das festividades

Nesta celebração peculiar, as crianças vão de porta em porta, desejando “Glad Påsk” — Feliz Páscoa — em troca de guloseimas, evocando lendas e antigos temores populares.

Pedro Gonçalves
Abril 20, 2025
9:30

Enquanto em muitos países a Páscoa é associada a coelhos e cestas de ovos, na Suécia e na Finlândia, jovens crianças celebram a época vestindo-se de bruxas, perpetuando uma tradição que remonta há séculos. Nesta celebração peculiar, as crianças vão de porta em porta, desejando “Glad Påsk” — Feliz Páscoa — em troca de guloseimas, evocando lendas e antigos temores populares.

Fredrik Skott, atualmente docente em folclore nórdico no Instituto de Línguas e Folclore em Gotemburgo, recorda as suas próprias experiências de infância em Värmland, na Suécia, quando, juntamente com a irmã, se mascarava de bruxa para oferecer cartas recheadas de doces a vizinhos e amigos na véspera da Páscoa. “Não era Halloween, era a Páscoa”, sublinha Skott.

Embora existam divergências quanto ao momento exato do surgimento desta tradição, os estudiosos concordam que as suas raízes estão profundamente ligadas às perseguições às bruxas que ocorreram na Suécia entre 1668 e 1678, bem como a uma rica tradição folclórica sobre bruxaria já existente desde o século XV.

Uma das crenças populares mais difundidas era a de que as bruxas voavam até um local fictício chamado Monte Blåkulla, onde celebravam os chamados “sábados negros” ou “sábados das bruxas”. Neste monte, tudo funcionaria ao contrário: os velhos rejuvenescem e as pessoas dançavam de costas voltadas. De acordo com os contos populares, o caos de Blåkulla invadia o nosso mundo no período entre a Quinta-Feira Santa e o Sábado Santo.

“Quando Jesus estava morto, acreditava-se que as bruxas e outras criaturas maléficas se tornavam mais ativas do que em qualquer outra altura do ano”, explica Skott.

Segundo o folclorista Per-Anders Östling, citado pela National Geographic, os mais notórios julgamentos de bruxas na Suécia começaram em 1668, quando crianças espalharam rumores de que tinham sido levadas pelas bruxas até ao Monte Blåkulla. Centenas de mulheres foram acusadas e muitas acabaram por ser condenadas à morte. O medo em torno das bruxas persistiu até ao século XVIII. Em várias comunidades do sudoeste da Suécia, era comum acender grandes fogueiras e fechar bem as casas antes da Páscoa, numa tentativa de proteger famílias e crianças contra supostas bruxas.

A evolução da celebração
Embora a maioria dos estudiosos defenda que a prática de se mascarar de bruxa na Páscoa só tenha começado no início do século XX, à medida que as crenças em bruxaria começaram a desaparecer das grandes cidades, a investigação de Skott sugere que a tradição possa ter tido início ainda no século XVIII.

Um exemplo apontado por Skott é o registo de tribunal da paróquia de Husby, em Uppland, onde, a 3 de outubro de 1747, um trabalhador agrícola acusou uma jovem chamada Anna Olofsdotter de feitiçaria. Um ano antes, três crianças da mesma paróquia tinham encontrado um fungo viscoso conhecido como “manteiga de troll”, frequentemente associado à bruxaria. Segundo a crença, se se queimasse esta substância, a bruxa responsável revelar-se-ia.

Atualmente, o costume mantém-se vivo de formas ligeiramente distintas conforme a região: algumas comunidades celebram na Quinta-Feira Santa, outras na véspera da Páscoa. As crianças, mascaradas de “påskkärringar” (bruxas de Páscoa) ou de “påsktroll” (trolls de Páscoa), visitam casas próximas, cantam canções, entregam cartões decorados ou cartas com doces, e recebem em troca guloseimas, num ritual que mistura antigas crenças de proteção com a alegria da celebração pascal.

Embora o cenário de bruxaria tenha perdido o peso aterrador de outros tempos, esta tradição oferece um vislumbre fascinante sobre como o medo, a superstição e a festividade podem entrelaçar-se, sobrevivendo e adaptando-se ao longo dos séculos.

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