Black Hawk do Governo em evacuações médicas? Técnicos de emergência e militares têm visões diferentes da eficácia dos helicópteros

Ministro adiantou que os Black Hawk, de fabrico americano, serão entregues até ao final de agosto de 2026

Francisco Laranjeira
Novembro 21, 2025
14:14

O Governo confirmou a aquisição de quatro helicópteros Black Hawk para reforçar a resposta do INEM, garantindo que os aparelhos estarão operacionais no final de 2026. A decisão, avançada pelo ministro da Defesa Nacional, Nuno Melo, foi recebida com reservas pelo Sindicato dos Técnicos de Emergência Pré-Hospitalar, que defendeu, em declarações à ‘Euronews’, que estas aeronaves não asseguram socorro atempado.

Na audição da proposta de Orçamento do Estado para 2026, o ministro adiantou que os Black Hawk, de fabrico americano, serão entregues até ao final de agosto de 2026. Os aparelhos, equipados com dois motores de alta potência e capacidade para 12 passageiros, destinam-se a múltiplas funções, incluindo operações de emergência, de acordo com a fabricante Sikorsky.

O STEPH, porém, considerou o modelo desadequado para missões civis. O presidente do sindicato, Rui Lázaro argumentou que o helicóptero “não serve para emergência médica, sobretudo pelas suas dimensões, peso e tempo de descolagem”, sublinhando que não é utilizado para esse fim nos EUA.

Limitações no terreno e impacto no tempo de resposta

O responsável alertou que o tamanho dos aparelhos condiciona a aproximação aos locais de ocorrência e aos hospitais, impondo deslocações adicionais por ambulância. Exemplifica que, num acidente numa aldeia do interior, o helicóptero teria de aterrar no campo de futebol da sede do concelho, aumentando o tempo de socorro.

Lázaro contrapõe o modelo utilizado pelo INEM, o Airbus H145, que considera mais adequado por permitir aterragens em espaços reduzidos. É também o modelo usado em regime de proximidade total no Reino Unido e nos EUA.

Governo cita relatório do INEM para defender versatilidade

Nuno Melo mantém, no entanto, que os Black Hawk são adequados às operações de evacuação médica e citou um relatório do INEM que elogia a “versatilidade” dos aparelhos. Segundo o ministro, o documento refere que o helicóptero “satisfaz plenamente” ou “supera” os padrões esperados na maioria dos critérios analisados.

O STEPH contrapõe que o relatório compara apenas meios da Força Aérea e não o conjunto de opções civis e militares existentes no mercado. Destaca ainda que o estudo surgiu num contexto de apoio da FAP ao INEM, quando o instituto não tinha capacidade de operar com aeronaves civis.

Questões de certificação e aterragem hospitalar

A certificação dos heliportos é outro ponto de divergência. Apenas sete heliportos hospitalares estão certificados pela ANAC para transporte de doentes, sendo que, segundo o ‘Público’, apenas o Hospital de Braga cumpre as dimensões necessárias para o Black Hawk.

O ministro contrapõe que as aeronaves estão excluídas da certificação civil, operando sob a Autoridade Aeronáutica Nacional, o que permite aterragens nos heliportos hospitalares desde que existam condições de segurança. A Força Aérea afirmou que os helicópteros já aterram regularmente em várias unidades de saúde.

Emergência médica: complementaridade ou substituição?

Nos meios militares, a premissa é clara: “Salvar vidas implica riscos”, afirma o tenente-general Alfredo Pereira da Cruz, defendendo que os helicópteros militares aterram onde for necessário. Contudo, o STEPH lembrou que a natureza da missão no continente é distinta da operação nos arquipélagos, onde predominam transportes inter-hospitalares.

Para o antigo comandante da TAP José Correia Guedes, o Black Hawk é um excelente helicóptero para missões militares ou de resgate, mas deve atuar como complemento e não como substituto dos meios do INEM. O STEPH concorda, defendendo que, mesmo como reforço, muitas missões permanecem mais rápidas por ambulância ou com as aeronaves atuais do instituto.

A FAP garante que a aquisição dos novos aparelhos não altera a responsabilidade do INEM nas operações de emergência, representando apenas um reforço da capacidade de resposta quando necessário. Os primeiros Black Hawk chegaram a Portugal no final de 2023, financiados pelo PRR, para reforçar o combate a incêndios rurais.

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