Num bairro da cidade de Khan Younis, no sul da Faixa de Gaza, palestinianos desesperados cavam com as próprias mãos em lixeiras à procura de restos de plástico e papel para queimar e assim tentar proteger-se do frio e da humidade do inverno. A cena, descrita pela ‘Associated Press’, expõe a dimensão da crise humanitária no enclave, devastado por dois anos de guerra entre Israel e o Hamas.
Na zona de Muwasi, famílias deslocadas vivem em tendas improvisadas ou em edifícios destruídos, sem acesso regular a combustível, lenha ou gás. Para muitos, acender uma fogueira com resíduos encontrados no lixo tornou-se a única forma de cozinhar e de evitar as temperaturas baixas durante a noite.
O cenário contrasta fortemente com o discurso de líderes internacionais reunidos no Fórum Económico Mundial, em Davos, onde foi anunciado o Conselho de Paz do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, destinado a supervisionar o futuro de Gaza. Em Davos, Trump afirmou que níveis recorde de ajuda humanitária entraram no território desde o cessar-fogo mediado pelos EUA em outubro, enquanto Jared Kushner e o enviado Steve Witkoff falaram no potencial de desenvolvimento do enclave.
No terreno, porém, a realidade é outra. Meses após o cessar-fogo, centenas de milhares de palestinianos continuam a viver em campos de deslocados, incapazes de se proteger do frio noturno. Apesar da redução dos combates, persistem ataques mortais. Esta quinta-feira, quatro palestinianos morreram num bombardeamento de tanques israelitas a leste da Cidade de Gaza, segundo o diretor do Hospital Shifa, Mohamed Abu Selmiya.
Entre os deslocados, cresce o ceticismo em relação ao impacto real das iniciativas internacionais. “Estamos numa situação em que não há alternativas. A nossa situação é deplorável”, afirmou Fathi Abu Sultan, citado pela ‘Associated Press’, resumindo o sentimento de muitos habitantes de Gaza.
A ajuda humanitária aumentou desde o cessar-fogo, mas os moradores dizem que a lenha e o combustível continuam escassos e demasiado caros. Procurar madeira tornou-se perigoso: dois rapazes de 13 anos foram mortos a tiros por forças israelitas enquanto tentavam recolher lenha, segundo funcionários hospitalares.
Sanaa Salah vive numa tenda com o marido e seis filhos. Todos os dias, precisa de acender uma fogueira para cozinhar e aquecer a família. Sem dinheiro para comprar lenha ou gás, recorre ao plástico encontrado no lixo, apesar de conhecer os riscos para a saúde. “A vida é muito difícil”, disse, enquanto alimentava o fogo com resíduos. “Não conseguimos nem beber uma chávena de chá. Não conseguimos dormir à noite por causa do frio.”
A situação repete-se noutras famílias. Aziz Akel explica que a lenha custa sete ou oito shekels, um valor incomportável para quem não tem qualquer rendimento. A sua casa foi destruída e os filhos ficaram feridos durante a guerra. A filha, Lina Akel, conta que o pai sai todas as manhãs da tenda para procurar plástico no lixo, aquilo a que chama “o básico da vida”.
Segundo as Nações Unidas, os parceiros que gerem campos de deslocados só conseguem apoiar cerca de 40% dos 970 locais existentes em Gaza, devido a limitações de capacidade e financiamento. Continuam a ser distribuídas tendas, colchões, sacos-cama, cobertores, roupa quente e utensílios básicos, mas a resposta está longe de cobrir as necessidades.
Enquanto líderes mundiais discutem planos para o futuro político de Gaza, sobreviver no presente continua a significar, para milhares de famílias, vasculhar o lixo em busca de algo que possa arder e afastar o frio.





