Atingir zero emissões líquidas até 2050

Desde o Acordo Climático de Paris em 2015, muitas empresas intensificaram os seus esforços para enfrentar as alterações climáticas. Em particular, o número de empresas que procuram atingir zero emissões líquidas de gases com efeito de estufa (zero emissões líquidas) até ou antes de 2050 tem aumentado rapidamente nos últimos dois anos.

Vemos sinais claros de progresso. Novas pesquisas da Accenture mostram que 9% das empresas europeias conseguiram reduzir as suas emissões para metade na última década. Mas é preciso fazer muito mais. Embora algumas empresas estejam no bom caminho para chegar às zero emissões líquidas antes de 2050, são muitas mais as que não estão. E em muitas indústrias, atingir esse objectivo exigirá nada menos do que uma reinvenção do negócio principal. O relatório da Accenture esboça o estado da corrida para as zero emissões líquidas e oferece recomendações fundamentais para as empresas que têm de acelerar o ritmo para cumprir o prazo.

RESUMO

Os compromissos das empresas para as zero emissões líquidas foram acelerados. A partir de Agosto de 2021, quase um terço das mais de mil maiores empresas europeias cotadas na bolsa definiram como objectivo atingir zero emissões líquidas até 2050.

As empresas que assumem compromissos de zero emissões líquidas são responsáveis por mais de dois terços dos gases com efeito de estufa (GEE) emitidos pelas mais de mil empresas deste grupo. Como são geralmente as maiores emissoras, têm as mudanças mais drásticas a fazer.

Os objectivos funcionam. Na última década, as empresas desta amostra, com o objectivo zero emissões líquidas reduziram as suas emissões em 10% em média, enquanto as empresas sem objectivos viram as suas emissões aumentar.

No entanto, apenas 5% estão no bom caminho para cumprir a sua meta se as tendências actuais se mantiverem.

Se o ritmo de redução de emissões destas empresas se mantiver na última década, menos de uma em cada 10 (9%) empresas atingirá as zero emissões líquidas nas suas operações até 2050, o prazo exigido pela comunidade global no Acordo Climático de Paris de 2015.

O ritmo da redução de emissões precisa de duplicar nesta década – e depois acelerar ainda mais.

Sete indústrias – sobretudo nos sectores dos serviços, tais como serviços profissionais e informação e comunicações – estarão no bom caminho para zero emissões líquidas nas suas operações até 2050, se duplicarem o ritmo de redução das emissões na próxima década, e depois acelerarem mais 50% a 70% nos 10 anos seguintes.

Para cinco sectores, que representam 42% das emissões totais da amostra, será necessária uma aceleração mais radical para atingir zero emissões líquidas até meados do século. Este grupo alargado de sectores inclui o automóvel, a construção e a indústria transformadora.

O objectivo de zero emissões líquidas até 2050 é viável com uma acção rápida e decisiva em toda a comunidade empresarial europeia.

Para conseguir colocar a comunidade empresarial europeia no bom caminho para atingir zero emissões líquidas até 2050, a reinvenção deve tornar-se a norma. A execução à velocidade necessária para cumprir esse prazo exige uma mudança radical no desenvolvimento tecnológico e na inovação, bem como uma colaboração intencional entre indústrias e cadeias de valor.

– A COMUNIDADE EMPRESARIAL DA EUROPA ESTÁ EMPENHADA NA CORRIDA PARA O NET-ZERO.

O número de empresas que estabelecem objectivos de redução de emissões com base científica cresceu rapidamente nos últimos dois anos, apesar de não existir qualquer regulamentação que o exija.

  • A ascensão de objectivos baseados na ciência

Desde a sua criação após o Acordo Climático de Paris, a Iniciativa Metas de Base Científica ajudou mais de 1700 empresas a conseguirem estabelecer um objectivo de redução de emissões em conformidade com a ciência climática, com uma rápida aceleração da adopção nos últimos dois anos.

  • Envolver os investidores nas zero emissões líquidas

À medida que o impulso no sentido de zero emissões líquidas se reforça, os investidores esperam que cada vez mais empresas definam uma estratégia clara para navegar na transição. O tema é constantemente discutido em uma em cada duas apresentações de lucros das empresas europeias G2000.

– QUASE UM TERÇO DAS MAIORES EMPRESAS DA EUROPA COMPROMETEU-SE A ATINGIR ZERO EMISSÕES LÍQUIDAS ATÉ 2050, O MAIS TARDAR.

Estas empresas são responsáveis por mais de dois terços dos gases com efeito de estufa emitidos pelas mais de mil maiores empresas nas bolsas de valores europeias.

– MUITAS EMPRESAS COM UTILIZAÇÃO INTENSIVA DE CARBONO TÊM COMO OBJECTIVO ATINGIR AS METAS DE ZERO EMISSÕES LÍQUIDAS PERTO DE 2050, ENQUANTO MUITAS NOS SECTORES DOS SERVIÇOS APONTAM PARA 2035-2040.

Os objectivos estabelecidos pelas empresas com utilização intensiva de carbono, em particular, reflectem um compromisso real de mudança transformadora.

– CADA INDÚSTRIA IRÁ TER DESAFIOS E OPORTUNIDADES ÚNICAS PARA REDUZIR AS EMISSÕES, REFLECTINDO A DISTRIBUIÇÃO DA SUA PEGADA.

Para muitas empresas, a jornada para as zero emissões líquidas começa com a redução das emissões nas suas próprias operações que estão directamente sob o seu próprio controlo (âmbito 1 e 2).

– COM BASE NAS TENDÊNCIAS ACTUAIS, APENAS UMA EM CADA 20 EMPRESAS EUROPEIAS COTADAS EM BOLSA ESTÁ NO BOM CAMINHO PARA ATINGIR OS SEUS OBJECTIVOS DE ZERO EMISSÕES LÍQUIDAS NAS SUAS OPERAÇÕES.

Com base nas tendências actuais, 5% das empresas da amostra do estudo da Accenture poderão atingir zero emissões líquidas nas suas próprias operações (âmbito 1 e 2) até ou antes do seu próprio ano-alvo, e 9% até 2050, o mais tardar, se mantiverem o ritmo de redução de emissões que alcançaram desde 2010.

Um pequeno grupo, 5% da amostra, começou cedo e alcançou reduções de emissões constantes de 7% ou até mais desde 2010, como resultado de um esforço concertado e sistemático, o que o colocou no caminho certo para atingir zero emissões líquidas nas operações, de acordo com a sua própria meta anual. Outros 4% falhariam o seu próprio ano-alvo, segundo as tendências actuais, mas ainda assim atingiriam o nível de zero emissões líquidas de operações antes de meados do século.

A maioria encontra-se nas indústrias de serviços (financeira, imobiliária, hoteleira), mas também inclui empresas em indústrias de energia intensiva.

As da indústria de serviços públicos destacam-se entre as empresas em vias de atingir os objectivos, dada a intensidade de carbono da indústria.

– A MAIORIA DAS EMPRESAS TERÁ DE TOMAR MEDIDAS RADICAIS.

As empresas que alcançaram reduções modestas de emissões desde 2010 podem alcançar as zero emissões líquidas antes de 2050 se duplicarem o ritmo de redução das emissões até 2030 e o triplicarem até 2040; outras terão de fazer ainda mais.

Nas vias de redução de emissões específicas do sector, com base em conhecimentos especializados consensuais sobre a melhor tecnologia disponível para a redução de emissões, 25% das empresas da nossa amostra cumpririam a sua própria meta de zero emissões líquidas no ano, e mais de metade atingiria a meta de operações de zero emissões líquidas antes de 2050.

Mesmo com uma acção acelerada – duplicando o ritmo de redução de emissões até 2030 e depois duplicando-o novamente até 2040 – apenas 42% das empresas do estudo atingiriam operações com zero emissões líquidas em conformidade com os seus próprios objectivos, e 83% fá-lo-iam antes de 2050.

– A DUPLICAÇÃO DO RITMO DE REDUÇÃO DAS EMISSÕES NUMA DÉCADA COLOCARIA SETE INDÚSTRIAS NO CAMINHO CERTO PARA OPERAÇÕES COM ZERO EMISSÕES LÍQUIDAS ATÉ 2050.

No entanto, nas trajectórias de redução de emissões específicas do sector, cinco sectores, representando 42% das emissões, não atingiriam zero emissões líquidas nas suas próprias operações em meados do século.

A acção conjunta sobre emissões na cadeia de valor pode colocar todos no caminho certo em 2050.

O compromisso crescente das empresas europeias em abordar as emissões na sua cadeia de valor (âmbito 3) será um passo fundamental para conseguir que mais empresas e indústrias atinjam as zero emissões líquidas antes de 2050.

Podem ser dados passos maiores e mais rápidos na redução de emissões quando se trabalha em conjunto, ao longo das cadeias de valor e através das indústrias. Por exemplo, a colaboração entre produtores de aço e empresas petroquímicas na escala da produção de hidrogénio verde para a produção de aço com baixo teor de carbono ajudará as empresas do sector automóvel a acelerar o ritmo da redução de emissões. E o investimento do sector automóvel no aumento da disponibilidade e acessibilidade de preços dos veículos eléctricos ajudará a electrificação e descarbonização da frota no sector dos transportes e não só.

– A REINVENÇÃO DEVE TORNAR-SE A NORMA PARA QUE A COMUNIDADE EMPRESARIAL EUROPEIA EM GERAL POSSA ATINGIR AS ZERO EMISSÕES LÍQUIDAS ATÉ 2050.

A execução à velocidade necessária exigirá uma mudança radical no desenvolvimento tecnológico e inovação, apoiada pela colaboração e convergência intersectorial e por uma regulamentação conducente.

Cada empresa e indústria tem o seu ponto de partida único, conjunto de soluções, oportunidades de negócio e desafios na corrida para as zero emissões líquidas, enquanto a tecnologia e inovação e a colaboração serão importantes ingredientes comuns de estratégias bem-sucedidas para reduzir as emissões ao longo da cadeia de valor.

  • Foco na indústria:

CONSTRUÇÃO

A tecnologia, juntamente com a inovação e a colaboração, será fundamental para atingir a velocidade e escala necessárias.

Pontos de partida para as zero emissões líquidas:

  • Novas estruturas zero líquido nas operações;
  • Duplicação de toda a taxa de renovação;
  • Redução do carbono integrado;
  • Uso circular de materiais de construção.

O que será necessário:
Tecnologia e inovação, colaboração e convergência

  • Materiais de construção alternativos, incluindo betão novo, com baixo teor de carbono ou CO2, e uma reapreciação da madeira;
  • Melhor utilização da pré-fabricação – idealmente com veículos de emissão zero para o transporte de peças, potencialmente combinada com modelação e impressão 3D;
  • Gémeos virtuais para melhorar as escolhas de materiais e abordagens de produção, e para permitir a simulação do consumo de energia na pré-construção e a monitorização da energia pós-construção;
  • Melhor monitorização do ciclo de vida através de melhorias na internet das coisas (IoT), sensores, analytics e inteligência artificial (IA).


INDÚSTRIA AUTOMÓVEL

A tecnologia, juntamente com a inovação e a colaboração, será fundamental para atingir a velocidade e escala necessárias.

Pontos de partida para as zero emissões líquidas:

  • Adopção acelerada de veículos eléctricos e infra-estruturas de carregamento;
  • Design de produto, produção e cadeias de abastecimento zero líquido;
  • Melhoria na tecnologia das baterias e na gestão do ciclo de vida;
  • Combustíveis alternativos para veículos pesados.

O que será necessário:
Tecnologia e inovação, colaboração e convergência

  • Continuação do investimento na expansão da disponibilidade e acessibilidade de VE Plataformas de dados para melhorar a experiência de condução eléctrica e assegurar a interoperabilidade do carregamento;
  • Maior inovação para reduzir os custos das baterias, e exploração de novos tipos de baterias para antecipar a escassez de material;
  • Parcerias na cadeia de valor com fornecedores e empresas de reciclagem para recolher, reciclar e reutilizar baterias em fim de vida;
  • Novos modelos de negócio para mobilidade multimodal;
  • Melhorias na tecnologia do hidrogénio para modos de transporte mais pesados e de longa distância.


PRODUTOS QUÍMICOS

A tecnologia, juntamente com a inovação e a colaboração, será fundamental para atingir a velocidade e escala necessárias.

Pontos de partida para as zero emissões líquidas:

  • Mudança para Acordos de Aquisição de Energia de electricidade renovável;
  • Electrificação de processos de calor tanto de baixa como de média temperatura;
  • Combustíveis alternativos para processos de calor de alta temperatura;
  • Modelos de negócio circulares.

O que será necessário:
Tecnologia e inovação, colaboração e convergência

  • Rápido crescimento da produção de electricidade renovável para alimentar a procura crescente da indústria e permitir a produção de hidrogénio verde em escala;
  • Maior desenvolvimento e redução de custos da tecnologia de electrolisadores;
  • Tecnologia de gémeos digitais para modelar e optimizar processos e produtos químicos ao longo de todo o ciclo de vida;
  • Gestão avançada de activos combinando sensores e IA para melhoria na eficiência;
  • Investimento contínuo na melhoria e experimentação da tecnologia CCS (captura e armazenamento de carbono) para lidar com as emissões difíceis de atenuar após 2030;
  • Parcerias para moldar as redes de ecossistemas para infra-estruturas de hidrogénio e negócios circulares.

– GANHAR A CORRIDA PARA AS ZERO EMISSÕES COM ACÇÃO ARROJADA E SEM ATRASOS.

Uma acção imediata, guiada pela inteligência do carbono e dimensionada através da colaboração e convergência na cadeia de valor, permitirá à comunidade empresarial europeia chegar às zero emissões líquidas até 2050.

1) Compromisso com objectivos baseados na ciência climática. As empresas da nossa amostra com um objectivo de zero emissões líquidas reduziram as suas emissões de âmbito 1 e 2 em 10% entre 2010 e 2019, enquanto as empresas sem objectivos aumentaram as emissões.

2] Incorporar inteligência de carbono para gerir o orçamento de carbono. Como qualquer orçamento, é necessário que seja gerido de forma escalonada e com o mesmo rigor dos orçamentos financeiros. Compreender e contextualizar os dados é essencial para as empresas terem o controlo das suas transformações de produção digital, para progredir até às zero emissões líquidas.

3] Aproveitar a influência para mobilizar a indústria e cadeia de valor. As grandes empresas podem impulsionar reduções de emissões de gases com efeito de estufa muito maiores do que a sua própria pegada através de uma acção concertada no seu âmbito 3 – envolvendo os fornecedores, fazendo alterações na concepção dos produtos e adoptando modelos de negócios circulares.

Artigo publicado na revista Executive Digest n.º 188 de Novembro de 2021

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