Portugal enfrenta hoje uma das maiores paralisações dos últimos anos, com greves que prometem causar perturbações significativas em escolas, hospitais, serviços públicos, autarquias e recolha de lixo. A paralisação, convocada pela Frente Comum de Sindicatos da Administração Pública, coincide com a greve nacional dos médicos da FNAM, ampliando o impacto no setor da saúde e estendendo os efeitos a praticamente todos os serviços essenciais.
A Frente Comum adiantou à Executive Digest que tem “expectativas altas” para a adesão e alertou para a “paralisação de serviços em vários setores”, nomeadamente “nos serviços centrais da administração pública, e tudo o que implicar atendimento ao público”, como os balcões das Finanças, da Segurança Social ou as Lojas do Cidadão. A estrutura sindical prevê também fortes perturbações na saúde, onde “os efeitos deverão ser agravados pela greve dos médicos convocada pela FNAM”, o que poderá levar ao cancelamento de consultas, exames e até cirurgias, afetando hospitais do Serviço Nacional de Saúde (SNS) e centros de saúde de norte a sul do país. “Muitos estabelecimentos poderão estar encerrados em todo o país”, acrescentou ainda a Frente Comum, que sublinhou a adesão da Federação Nacional dos Professores (FENPROF) à paralisação, prometendo um impacto adicional no setor da educação.
Escolas encerradas e serviços educativos limitados
Depois da greve do pessoal não docente que começou na quinta-feira, e que já levou ao encerramento de várias escolas, o setor da educação enfrenta hoje uma nova vaga de perturbações. Com a adesão dos professores e educadores, muitos agrupamentos escolares avisaram que não conseguem garantir o normal funcionamento das aulas. O protesto pretende denunciar a falta de recursos humanos e as más condições de trabalho, fatores que a Frente Comum considera “insustentáveis” para o funcionamento do ensino público. Em muitas localidades, é expectável que os estabelecimentos mantenham as portas fechadas durante todo o dia.
Saúde sob forte pressão com greve da FNAM
A greve nacional dos médicos, convocada pela Federação Nacional dos Médicos (FNAM), agrava ainda mais as dificuldades no setor da saúde. A FNAM acusa o Ministério da Saúde de impor mobilizações “coercivas e ilegais” de profissionais para serviços de urgência regionais, o que, segundo o sindicato, viola acordos coletivos de trabalho e poderá causar o encerramento de serviços essenciais, incluindo obstetrícia e ginecologia. A federação garante que “os médicos abrangidos pelos acordos coletivos não podem ser forçados a trabalhar fora do seu local de exercício” e denuncia “a imposição em vez do diálogo” por parte da tutela.
No sul do país, o Ministério da Saúde planeia concentrar urgências de obstetrícia em Almada devido à falta de médicos, medida que o sindicato considera baseada “exclusivamente em índices de produtividade”, sem qualquer valorização salarial ou progressão de carreira. Em todo o SNS, prevê-se que consultas, exames e cirurgias sejam adiados, com apenas os serviços mínimos garantidos.
Administração pública e autarquias com funcionamento reduzido
A greve geral da função pública, que abrange 29 sindicatos, deverá ter forte adesão nos serviços centrais e locais. A Frente Comum estima que a paralisação vá afetar “todos os setores da administração pública, incluindo escolas, hospitais, tribunais, autarquias e cultura”.
Segundo Sebastião Santana, coordenador da Frente Comum, “vai ser uma grande greve e vai obrigar o Governo, se tiver bom senso, a perceber que está a comprar conflito social e que não vai parar porque os trabalhadores exigem políticas diferentes”. O dirigente prevê o fecho de muitos serviços e uma adesão expressiva em câmaras municipais e organismos locais.
Finanças, Segurança Social e justiça praticamente paralisadas
Os serviços de atendimento ao público — como Finanças, Segurança Social e Lojas do Cidadão — deverão ser dos mais afetados. A Frente Comum alertou que “tudo o que implicar atendimento ao público” enfrentará grandes constrangimentos. Também a Associação Sindical dos Profissionais da Inspeção Tributária e Aduaneira (APIT) anunciou a adesão dos inspetores do fisco, afirmando que o Orçamento do Estado para 2026 “não promove qualquer recuperação efetiva do poder de compra” e mantém os trabalhadores numa “situação de profundo descontentamento”.
A APIT critica ainda o sistema de avaliação de desempenho (SIADAP), que considera “injusto e desmotivador”, e denuncia a falta de recursos humanos na Autoridade Tributária, que opera com “menos 14% de efetivos do que há dez anos”.
Lixo por recolher e perturbações nos serviços municipais
Nos serviços municipais e nas autarquias, prevê-se forte impacto, sobretudo na recolha de lixo e limpeza urbana. O STML e o STAL, ambos integrados na Frente Comum, convocaram os trabalhadores municipais a aderirem à greve, o que deverá afetar cidades como Lisboa, Porto, Coimbra e Setúbal. Os serviços de manutenção, atendimento público e transporte de resíduos poderão ficar suspensos durante todo o dia. As autarquias alertam para possíveis acumulações de lixo a partir da noite de quinta-feira.
Reivindicações salariais e críticas ao Orçamento do Estado
A Frente Comum mantém a paralisação como forma de protesto contra a proposta do Orçamento do Estado para 2026, que prevê aumentos de apenas cerca de 2%, equivalentes a 56 euros mensais. Os sindicatos exigem um aumento mínimo de 150 euros e a atualização do subsídio de alimentação para 12 euros por dia. Sebastião Santana considera que há “toda a margem para acomodar o aumento salarial de 15% exigido, se forem alteradas as prioridades políticas do Governo”.
O sindicalista critica também o aumento do orçamento para a defesa, afirmando que “faz crer que estamos hoje em Portugal com mais problemas de segurança do que de saúde, o que não é verdade”. E deixa um aviso: “São 760 mil pessoas que são trabalhadores da administração pública, têm um peso muito grande na sociedade portuguesa. Se o Governo não tem isto em atenção trata-se de uma miopia muito grave.”
Com escolas encerradas, consultas adiadas, lixo acumulado e serviços públicos condicionados, esta sexta-feira promete ser um dia de grandes constrangimentos para os cidadãos. A Frente Comum afirma que a greve é apenas “um primeiro sinal de alerta” e que poderá intensificar a luta se o Governo não apresentar respostas concretas.













