Arrendar custa cada vez mais e empurra famílias para a compra de casa em Portugal: diferenças chegam a mais de 500 euros mensais

Escassez de casas disponíveis para arrendamento e a escalada das rendas estão a levar um número crescente de famílias a optar pela compra de habitação, mesmo num contexto de preços elevados no mercado imobiliário

Revista de Imprensa
Fevereiro 6, 2026
9:05

A escassez de casas disponíveis para arrendamento e a escalada das rendas estão a levar um número crescente de famílias a optar pela compra de habitação, mesmo num contexto de preços elevados no mercado imobiliário. As diferenças mensais entre comprar e arrendar têm vindo a aumentar, impulsionadas pela descida das taxas de juro desde o final da pandemia da Covid-19 e por um maior controlo da inflação. De acordo com o ‘Jornal de Notícias‘, em algumas cidades essa diferença pode ultrapassar os 500 euros por mês, tornando o crédito à habitação mais atrativo do que o arrendamento.

A decisão entre comprar ou arrendar sempre acompanhou quem procura sair de casa dos pais ou alcançar maior autonomia. No entanto, o atual contexto veio alterar as contas tradicionais. Apesar da subida das taxas de juro e da inflação desde 2022, os preços das casas não abrandaram de forma significativa. Pelo contrário, o setor continua a registar um forte dinamismo, sustentado por uma procura persistentemente superior à oferta.

Descida dos juros alimenta procura

Nos últimos dois anos, o Banco Central Europeu iniciou um ciclo de cortes nas taxas de juro, criando uma folga financeira que foi rapidamente absorvida pelo mercado imobiliário. Esta descida reforçou as expectativas de valorização dos imóveis e incentivou tanto famílias como investidores a apostar na compra de casa, num contexto em que os produtos financeiros tradicionais oferecem rentabilidades mais reduzidas.

As contas ajudam a explicar esta tendência. No Porto, o preço médio de venda ronda os 3.885 euros por metro quadrado, enquanto o valor médio do arrendamento se situa nos 17,4 euros por metro quadrado. Para um apartamento de 80 metros quadrados, a renda mensal ascende a cerca de 1.392 euros. A compra da mesma habitação implicaria um custo total de 310.800 euros. Admitindo um financiamento bancário de 80%, o empréstimo rondaria os 247 mil euros, traduzindo-se numa prestação mensal próxima dos 858 euros. A diferença face ao arrendamento ultrapassa, assim, os 530 euros mensais.

Mesmo somando outros encargos associados à compra, como seguros obrigatórios, produtos bancários, IMI e condomínio, o custo mensal aproximar-se-ia dos 1.044 euros, continuando abaixo do valor pedido no mercado de arrendamento.

Compra é mais vantajosa, mas com riscos

Para Francisco Bacelar, presidente da Associação dos Mediadores do Imobiliário de Portugal, a tendência é clara do ponto de vista financeiro. O responsável considera que a aquisição de casa é, atualmente, uma opção mais vantajosa, tanto para habitação própria como para investimento. Ainda assim, deixa um alerta quanto à sustentabilidade do modelo, sublinhando que tudo depende da evolução da economia e da estabilidade do emprego. Uma eventual crise poderá comprometer a capacidade das famílias para suportar as prestações bancárias.

Um dos principais entraves à compra continua a ser a necessidade de uma entrada inicial, geralmente equivalente a 20% do valor do imóvel, um obstáculo difícil de ultrapassar para muitos jovens e agregados familiares em início de vida, apesar dos apoios públicos existentes.

No que diz respeito ao reforço da oferta de casas para arrendar, Francisco Bacelar aponta a via fiscal como determinante, defendendo uma redução dos impostos associados ao arrendamento para criar incentivos à colocação no mercado de imóveis atualmente devolutos.

Pressão da procura e investimento estrangeiro

O dinamismo do setor imobiliário resulta de vários fatores, mas o investimento estrangeiro tem vindo a ganhar peso. Segundo o presidente da Associação dos Mediadores do Imobiliário de Portugal, a presença de cerca de 1,5 milhões de estrangeiros em Portugal está a gerar uma pressão adicional sobre o mercado habitacional, contribuindo para a subida dos preços, sobretudo nos grandes centros urbanos.

Patrícia Barão, presidente da Associação dos Profissionais e Empresas de Mediação Imobiliária de Portugal, considera compreensível que muitas famílias optem pela compra em detrimento do arrendamento, mas levanta dúvidas quanto à sustentabilidade desta tendência. A responsável sublinha que tudo dependerá da capacidade dos rendimentos das famílias acompanharem a evolução do mercado e da resposta da oferta, tanto na compra como no arrendamento.

Quanto à decisão entre comprar ou arrendar, Patrícia Barão defende que não existe uma solução universal. A compra implica custos recorrentes, como impostos, seguros, condomínio, manutenção e obras, além de encargos pontuais, enquanto o arrendamento oferece maior flexibilidade e menor exposição financeira inicial. Já quem dispõe de estabilidade profissional, capacidade de poupança e planos de permanência a longo prazo tende a retirar mais valor da compra.

A responsável alerta ainda para o risco de Portugal criar uma geração excluída do acesso à habitação própria se não forem adotadas medidas estruturais, como incentivos ao arrendamento, maior segurança contratual e aceleração da construção de nova oferta.

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