Apoio ao euro atinge recorde histórico na Europa e dispara em Portugal desde a crise da troika

O apoio dos cidadãos europeus ao euro nunca foi tão forte. De acordo com o mais recente Eurobarómetro da Comissão Europeia, 83% dos inquiridos nos países da zona euro afirmam apoiar a moeda única, o valor mais elevado desde a sua introdução em 2002. O estudo revela que, após décadas de ceticismo em vários Estados-membros, o euro consolidou-se como um símbolo de estabilidade e integração europeia.

Pedro Gonçalves
Novembro 10, 2025
19:05

O apoio dos cidadãos europeus ao euro nunca foi tão forte. De acordo com o mais recente Eurobarómetro da Comissão Europeia, 83% dos inquiridos nos países da zona euro afirmam apoiar a moeda única, o valor mais elevado desde a sua introdução em 2002. O estudo revela que, após décadas de ceticismo em vários Estados-membros, o euro consolidou-se como um símbolo de estabilidade e integração europeia.

O Banco Central Europeu (BCE), que analisou os resultados do inquérito, sublinha que “o euro tornou-se um dos símbolos tangíveis da integração europeia e está firmemente enraizado na vida dos cidadãos”. Segundo o BCE, as diferenças de perceção entre os países diminuíram de forma significativa nos últimos anos, e o apoio é agora “alto e generalizado”.

Em particular, países que tinham demonstrado maior resistência à moeda única — como Chipre, Letónia, Lituânia, Portugal e Espanha — registaram aumentos expressivos de cerca de 20 pontos percentuais no apoio ao euro nos últimos anos.

A recuperação da confiança em Portugal é especialmente significativa, segundo o BCE, que destaca que “em Chipre, Portugal e Espanha, o aumento do apoio reflete uma recuperação da confiança na divisa comunitária depois da crise da dívida soberana”.

Durante a década de 2010, Portugal foi um dos países mais afetados pela crise financeira e pela consequente intervenção da troika (Comissão Europeia, BCE e Fundo Monetário Internacional). As medidas de austeridade impostas no âmbito do resgate financeiro provocaram um forte descontentamento social e político, que se refletiu também na perceção negativa da moeda europeia.

Hoje, o cenário é diferente. O país é agora um dos que mais confiam no euro em toda a zona euro, apenas superado por Eslovénia, Irlanda, Luxemburgo, Estónia e Portugal. Este salto contrasta fortemente com o panorama da década passada, quando Portugal figurava entre os Estados mais céticos, ao lado de Itália, Grécia e Chipre.

Uma confiança transversal a todas as gerações e níveis de ensino
O Eurobarómetro mostra que o apoio à moeda europeia é hoje transversal. Homens e mulheres, jovens e adultos, e cidadãos de diferentes níveis de escolaridade demonstram um entusiasmo renovado pela divisa comum. O euro convence cada vez mais não apenas pela sua simbologia, mas pelos benefícios práticos que oferece no quotidiano.

De acordo com o BCE, a perceção pública do euro “tornou-se mais focada nos benefícios práticos da moeda do que no seu caráter simbólico”, uma tendência que se acentuou após crises como a financeira de 2008 ou a crise da dívida europeia que se lhe seguiu.

Entre esses benefícios, os economistas do banco central destacam a facilidade nas comparações de preços, a simplificação de transações comerciais, viagens mais acessíveis e serviços bancários mais baratos. Estes fatores são apontados como determinantes para o aumento do apoio popular.

Emprego e recuperação económica reforçam a perceção positiva
A análise do BCE sugere ainda que o baixo desemprego e a rápida recuperação dos mercados laborais após a pandemia desempenharam um papel importante na consolidação do apoio à moeda única. Estudos citados pelo banco indicam que a confiança no euro está positivamente correlacionada com os rendimentos familiares e com a estabilidade no emprego.

Depois de um período marcado por austeridade e recessão, a recuperação económica e a perceção de estabilidade monetária parecem ter sido cruciais para reabilitar a imagem do euro em países como Portugal, Espanha e Chipre — os mesmos que sofreram fortemente os efeitos das políticas de ajustamento e das restrições impostas pela troika.

Euro digital e futuro da integração económica
O BCE conclui o seu relatório com um aviso e uma promessa: “Para manter este elevado nível de apoio num mundo em transformação, o euro deve continuar a demonstrar os seus benefícios tangíveis”. O banco central defende que é “vital para a Europa reforçar o mercado comum e fortalecer os seus fundamentos geopolíticos, económicos e institucionais”.

Entre as prioridades, o BCE destaca a necessidade de acelerar o desenvolvimento do euro digital, garantindo ao mesmo tempo que o dinheiro físico “continue amplamente disponível, assegurando aos cidadãos meios de pagamento seguros e confiáveis na era digital”.

Vinte e três anos após a introdução da moeda única, o euro parece finalmente ter conquistado o coração dos europeus — e, em particular, dos portugueses, que passaram de um dos povos mais desconfiados a um dos mais convictos defensores da moeda que simboliza a integração e estabilidade do projeto europeu.

Partilhar

Edição Impressa

Assinar

Newsletter

Subscreva e receba todas as novidades.

A sua informação está protegida. Leia a nossa política de privacidade.