Ameaça ao cessar-fogo em Gaza: Cerca de 200 elementos do Hamas presos nos túneis sob controlo de Israel

Pelo menos 200 combatentes do Hamas permanecem encurralados nos túneis subterrâneos construídos ao longo da Faixa de Gaza, agora sob controlo das Forças de Defesa de Israel (FDI). Fontes israelitas e árabes, citadas pelo The Wall Street Journal, estimam que o número poderá ascender a 300 militantes, muitos deles possivelmente já mortos por falta de alimentos e água, uma vez que permanecem isolados há semanas.

Pedro Gonçalves
Novembro 10, 2025
16:06

Pelo menos 200 combatentes do Hamas permanecem encurralados nos túneis subterrâneos construídos ao longo da Faixa de Gaza, agora sob controlo das Forças de Defesa de Israel (FDI). Fontes israelitas e árabes, citadas pelo The Wall Street Journal, estimam que o número poderá ascender a 300 militantes, muitos deles possivelmente já mortos por falta de alimentos e água, uma vez que permanecem isolados há semanas.

Segundo essas mesmas fontes, a maioria encontra-se sob a cidade de Rafah, no sul da Faixa, embora outros grupos estejam dispersos por zonas do centro e norte de Gaza, incluindo Jan Yunis, Bait Hanoun e o bairro de Shejaiya, em Cidade de Gaza, áreas agora sob domínio israelita.

O general reformado Amir Avivi, fundador do Fórum Israelita de Segurança e Defesa (IDSF), afirmou que “estes terroristas estão numa área controlada por Israel e, em Rafah, os túneis são os mais elaborados”. Segundo Avivi, os túneis “não são simples passagens estreitas, mas verdadeiros edifícios subterrâneos com grande quantidade de munições”, a partir dos quais o Hamas tem lançado ataques contra as forças israelitas.

A situação ameaça comprometer o cessar-fogo firmado há um mês, no âmbito do acordo mediado pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. Após a retirada parcial das tropas israelitas para a chamada “Linha Amarela”, centenas de combatentes do Hamas ficaram retidos atrás dessa fronteira militar, sem possibilidade de fuga.

Tudo começou quando engenheiros das FDI demoliam secções da rede de túneis. Durante uma dessas operações, militantes do Hamas surgiram de um poço oculto e lançaram um míssil antitanque, matando três soldados israelitas — um ataque que expôs a fragilidade da trégua e a complexidade da guerra subterrânea.

O episódio levou Israel a intensificar a sua ofensiva. O ministro da Defesa israelita, Israel Katz, afirmou na rede X que “a política de Israel em Gaza é clara: as FDI estão a destruir os túneis e a eliminar os terroristas do Hamas sem qualquer restrição dentro da área amarela sob o nosso controlo”.

Avivi acrescentou que Israel não tem qualquer intenção de permitir a fuga dos combatentes: “Israel não vai ajudar a resgatar estes terroristas. A ordem é clara — prendê-los e, depois, destruir os túneis.”

A situação atual remonta a maio, quando Israel lançou uma operação para eliminar a rede subterrânea do Hamas, usada para esconder combatentes, reter reféns e armazenar armas. O plano previa dividir a rede em secções isoladas, mas o recuo parcial israelita após o cessar-fogo deixou dezenas de militantes presos atrás das linhas israelitas, sem suprimentos.

O Hamas afirma ter perdido contacto com os combatentes desde março, alegando que, por isso, não ordenou os recentes ataques às tropas israelitas. No entanto, oficiais israelitas desmentem essa versão, garantindo que os túneis estão equipados com sistemas de comunicação ativos, o que permitiria manter contacto direto. As mesmas fontes sublinham que o Hamas poderia ter ordenado a retirada dos seus homens antes da aproximação das FDI, mas optou por deixá-los para trás.

A presença de centenas de combatentes do Hamas encurralados levou os Estados Unidos a intervir diplomaticamente. O enviado de Trump para o Médio Oriente, Steve Witkoff, revelou ter abordado o tema com o ministro israelita dos Assuntos Estratégicos, Ron Dermer, e com o ministro dos Negócios Estrangeiros da Turquia, Hakan Fidan. Witkoff afirmou que a resolução deste caso “poderá servir de teste para futuros esforços de desarmamento do Hamas”.

Israel, contudo, rejeita concessões, argumentando que os combatentes são “alvos militares” e não civis em perigo. “O objetivo é impedir que estes túneis voltem a ser usados como base de operações”, justificou um oficial citado pela imprensa israelita.

O destino dos militantes retidos nos túneis tornou-se um ponto crítico do frágil cessar-fogo. Israel acusa o Hamas de não cumprir o acordo, por não ter ainda entregue os corpos de todos os reféns nem iniciado o processo de desarmamento.

Contudo, Israel também é acusado de violar o pacto. Uma análise da BBC revelou que as FDI mantêm controlo sobre áreas mais amplas da Faixa de Gaza do que o previsto no acordo. Na primeira fase, Israel comprometeu-se a recuar para uma linha divisória que atravessa Gaza de norte a sul, conhecida como “Linha Amarela”, delimitada nos mapas militares israelitas. Porém, na prática, o Exército israelita avançou para zonas mais profundas do território palestiniano, expandindo o perímetro sob ocupação.

A combinação de militantes encurralados, violação mútua dos termos da trégua e ações militares subterrâneas ameaça mergulhar novamente a região num ciclo de violência e instabilidade, apenas um mês após o cessar-fogo mediado por Washington.

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