Três membros da família Galvan morreram em Brownsville, Texas, após um aparelho de ar condicionado avariado os deixar expostos a temperaturas extremas. Com idades entre 60 e 82 anos, todos sofriam de doenças crónicas, como diabetes e problemas cardíacos, fatores que aumentam a vulnerabilidade ao calor. As vítimas permaneceram isoladas no apartamento por vários dias, ilustrando como o isolamento social eleva o risco de mortes relacionadas com o calor.
Especialistas, de acordo com o site ‘The Conversation’, classificam estas fatalidades como “relacionadas com o calor”, quando a temperatura ambiente ultrapassa o que o corpo consegue tolerar com segurança. Embora o gatilho imediato tenha sido a falha do equipamento, os investigadores destacam que o contexto social e as condições de saúde das vítimas foram determinantes para o desfecho fatal.
Mudanças climáticas e aumento das ondas de calor
O aquecimento global intensifica o fenómeno das ondas de calor, tornando infraestruturas críticas como sistemas de ar condicionado, redes elétricas e habitação mais vulneráveis. À medida que estes eventos se tornam mais frequentes e prolongados, falhas técnicas comuns podem transformar-se em ameaças letais, sobretudo para idosos e pessoas com doenças crónicas.
O Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) estima que entre 3,3 e 3,6 mil milhões de pessoas – quase metade da população mundial – são altamente vulneráveis aos riscos climáticos, com capacidade limitada de adaptação. A vulnerabilidade depende não apenas da exposição a fenómenos ambientais, mas também das condições sociais e da infraestrutura disponível.
Desigualdade e “necropolítica” climática
O historiador Achille Mbembe introduziu o conceito de “necropolítica” para explicar como algumas vidas são tratadas como mais descartáveis. No caso das mortes em Brownsville, a exposição ao calor extremo foi amplificada por desigualdades estruturais e lacunas nas políticas públicas, refletindo padrões observáveis globalmente.
No sul da Ásia e no Médio Oriente, ondas de calor afetam idosos e trabalhadores rurais. Na África subsaariana, inundações e secas impactam agricultores de subsistência. No Reino Unido, a poluição do ar causa cerca de 30 mil mortes anuais, afetando desproporcionalmente comunidades de baixa renda e minorias étnicas. Estas fatalidades seguem padrões sociais consistentes, evidenciando que a negligência estrutural, e não o comportamento individual, é a causa subjacente.
Violência lenta e riscos acumulativos
O humanista ambiental Rob Nixon descreve como “violência lenta” os danos que se acumulam gradualmente devido a alterações climáticas, degradação ambiental e políticas insuficientes. Os efeitos não são imediatos, mas silenciosos, atingindo sobretudo os mais vulneráveis. As mortes dos Galvan exemplificam esta destruição silenciosa, que se repete em todo o mundo por calor extremo, degradação ambiental e falhas na proteção social.
Perspetivas como a da teórica Donna Haraway, no conceito de “Cthuluceno”, reforçam que a vulnerabilidade emerge das relações diárias entre pessoas, instituições e ecossistemas. No Delta do Mekong, no Vietname, a intrusão de água salgada ameaça milhões de agricultores e poderá afetar até 45% das terras agrícolas até 2030, demonstrando como riscos ambientais e impactos sociais estão interligados.
Políticas de cuidado e ação coordenada
O calor extremo e outros riscos climáticos podem ser mitigados com ações deliberadas e coordenadas, como sistemas de alerta precoce, intervenções sociais e políticas públicas eficazes. A epidemiologista Kristie Ebi sublinha que muitas dessas mortes são evitáveis: “As pessoas não precisam morrer de calor,”
Em várias regiões do mundo, iniciativas de mitigação demonstram que a vulnerabilidade não é inevitável. Em Ahmedabad, na Índia, sistemas de alerta precoce protegem idosos, enquanto no Delta do Mekong agricultores experimentam culturas resistentes à salinidade. Novas legislações sobre ecocídio também começam a responsabilizar politicamente a destruição de ecossistemas, reforçando a necessidade de políticas que priorizem a vida.






