Alemanha testa lançamento de panfletos em balões de hélio para cenários de emergência

As forças armadas da Alemanha estão a preparar uma operação experimental que prevê o lançamento de panfletos informativos através de balões de hélio, com o objetivo de treinar procedimentos de “comunicação direta tática” em situações de emergência

Pedro Gonçalves
Janeiro 22, 2026
12:44

As forças armadas da Alemanha estão a preparar uma operação experimental que prevê o lançamento de panfletos informativos através de balões de hélio, com o objetivo de treinar procedimentos de “comunicação direta tática” em situações de emergência. A iniciativa visa testar formas alternativas de transmitir informação à população em áreas potencialmente afetadas por crises, quando outros meios de comunicação não estão disponíveis ou são de difícil acesso.

A operação, que decorrerá entre 25 de Janeiro e 4 de Fevereiro, será realizada no âmbito do exercício militar “Colder Iron 2026”. Segundo o Comando Estadual da Saxónia, estará envolvida a 5.ª Companhia de Operações, composta por cerca de 100 militares, que será destacada especificamente para esta ação. Os panfletos destinam-se a fornecer instruções e informação relevante a residentes de zonas afetadas, sem contacto direto com o terreno.

De acordo com as autoridades militares, o exercício pretende testar aquilo que é descrito como uma “distribuição de produtos à distância”, ou seja, a entrega de material a partir do ar ou de uma posição segura, evitando o contacto direto com a área visada. Os balões de hélio a utilizar são capazes de atingir altitudes até cinco mil metros, embora os locais exatos de lançamento não tenham sido divulgados, uma vez que dependerão diariamente das condições meteorológicas.

Por razões de segurança, não foram fornecidos mais detalhes sobre a operação, para além da garantia de que grandes cidades serão “deliberadamente evitadas”. As autoridades alemãs informaram ainda, de forma preventiva, os países vizinhos, nomeadamente a Polónia e a República Checa, no caso de os balões serem desviados para esses territórios devido ao vento ou a outras condições atmosféricas.

Qualquer pessoa que encontre um panfleto impresso com um símbolo e texto informativo durante o exercício é convidada a comunicar a descoberta através do contacto indicado no próprio documento, podendo depois proceder à sua eliminação. O objetivo é também avaliar a eficácia do sistema de comunicação e a resposta do público.

Lançamento de panfletos em contextos de guerra e emergência
O lançamento de panfletos tem sido historicamente utilizado em contextos de emergência, quer para comunicar com populações em situações excecionais, quer como instrumento de propaganda. Um dos exemplos mais recentes refere-se às ações do exército israelita na Faixa de Gaza e no Líbano, onde foram distribuídos panfletos a aconselhar evacuações.

A agência Reuters noticiou que as forças israelitas lançaram panfletos no sul da Faixa de Gaza numa quarta-feira, pela primeira vez desde o início de um cessar-fogo entre Israel e o Hamas, em Outubro do ano passado. Os documentos apelavam à evacuação imediata de dezenas de famílias palestinianas e estavam redigidos em inglês, hebraico e árabe, tendo a operação sido confirmada pelas Forças de Defesa de Israel.

Num artigo publicado pelo Lieber Institute West Point, o major Jon Griffiths, procurador da British Service Prosecuting Authority e doutorando na Universidade de Reading, enquadrou este tipo de medidas à luz do direito internacional humanitário. O oficial defende que avisos como panfletos, chamadas telefónicas, mensagens de texto ou anúncios nos meios de comunicação constituem uma forma de cumprir o dever de precaução antes de ataques militares.

Apesar de existirem críticas quanto à eficácia real destas advertências na protecção de civis, Griffiths sublinha que o direito internacional impõe uma obrigação de actuar, e não necessariamente de garantir o sucesso. O essencial, argumenta, é que os avisos sejam oportunos, compreensíveis e dirigidos às pessoas afectadas, não sendo obrigatória a inclusão de detalhes precisos sobre local e momento, caso isso represente riscos adicionais ou comprometa objectivos militares.

Não existem dados fiáveis que permitam apurar quantas pessoas terão sido efectivamente “salvas” por lançamentos de panfletos na Faixa de Gaza, uma vez que não há estatísticas verificáveis sobre esse impacto.

Panfletos como instrumento de guerra psicológica
Para além da comunicação em situações de emergência, os panfletos foram amplamente utilizados como ferramenta de propaganda, nomeadamente durante a Segunda Guerra Mundial. Nesses contextos, combinavam informação verdadeira, exageros e desinformação, com o objectivo de influenciar psicologicamente soldados e civis inimigos.

Os documentos eram frequentemente dirigidos a grupos-alvo muito específicos, chegando por vezes a unidades militares concretas, e eram lançados aos milhões através de aviões, balões, artilharia ou foguetes. Um dos usos mais comuns consistia em apelos à rendição, instruções detalhadas sobre como depor armas ou descrições de uma suposta vida confortável em cativeiro.

Na Universidade Ludwig Maximilian de Munique foram expostos 2.024 panfletos deste tipo, incluindo um exemplar que reproduzia foneticamente a frase inglesa “I surrender” para soldados alemães. O historiador Benedikt Sepp explicou que, devido à barreira linguística, muitos militares não sabiam como se render, o que levou à distribuição de panfletos com expressões como “Ei ssörrender”, adaptadas à pronúncia alemã.

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