O Canadá enfrenta um momento de tensão interna que alguns analistas comparam a um ‘novo Donbass’. A província de Alberta, rica em petróleo, tornou-se o epicentro de um movimento separatista incentivado por elementos ligados à administração de Donald Trump, em Washington, criando uma crise política e estratégica para Ottawa.
Nos últimos meses, figuras do movimento MAGA e do gabinete de Trump têm promovido contactos com o Alberta Prosperity Project (APP), um partido separatista local, à procura de apoio financeiro e político. Relatórios indicam que os separatistas procuram empréstimos de até 500 mil milhões de dólares dos Estados Unidos para viabilizar a sua secessão.
Pressão sobre a liderança provincial
A primeira-ministra conservadora de Alberta, Danielle Smith, embora não tenha prometido realizar um referendo de independência, reduziu os requisitos legais para sua convocação através do Bill 54, diminuindo o número de assinaturas necessárias e prolongando o período de recolha.
Apesar destas medidas, o apoio à secessão permanece minoritário: sondagens indicam que apenas 19% a 28% dos habitantes de Alberta apoiariam a independência, contra 75% a 72% que se opõem.
Stephen Marche, natural de Alberta e analista político, alerta que a Administração Trump tenta semear divisão no Canadá, apesar de Alberta não ser o terreno mais fértil para separatismo, muito menos comparável ao Quebeque, historicamente mais sensível à independência.
Trump, Bannon e o cenário geopolítico
Ideólogos da direita americana, como Steve Bannon, comparam o Canadá a um possível “novo Donbass”, alertando para riscos estratégicos no Ártico e incentivando a perceção de vulnerabilidade da província frente aos Estados Unidos. Trump, por sua vez, ameaça tarifar a 100% as exportações canadianas caso Ottawa estabeleça acordos comerciais com a China, reforçando a pressão sobre Alberta devido à sua dependência económica dos EUA — cerca de 88% do petróleo da província é exportado para os vizinhos do sul.
O clima de tensão é alimentado por declarações de representantes americanos, incluindo o secretário do Tesouro, Scott Bessent, que descreve Alberta como “parceiro natural” dos Estados Unidos, destacando os recursos da província e sua população independente.
Reações canadenses e estratégia de defesa
A situação provocou forte reação em Ottawa e nas províncias vizinhas. O primeiro-ministro da Colúmbia Britânica, David Eby, classificou os pedidos de intervenção externa como “traição”. Antigos líderes como Stephen Harper e Jean Chrétien apelam à unidade nacional e alertam para o que consideram uma ameaça existencial à soberania canadiana.
Ao mesmo tempo, o Canadá procura diversificar relações comerciais, ampliando exportações para a União Europeia e a América Latina, e aproximando-se da China, numa tentativa de reduzir a vulnerabilidade frente às pressões norte-americanas.
Stephen Marche conclui que, embora a secessão de Alberta seja improvável, o país já sente o efeito da manipulação externa, e que “o golpe pode vir de qualquer forma, por mais absurdo ou maligno que pareça”.




