Acidente nuclear na Gronelândia: o B-52 e as bombas que quase mudaram a história

A 21 de janeiro de 1968, um bombardeiro americano B-52G Stratofortress descolou da Base Aérea de Plattsburgh, em Nova Iorque, com sete tripulantes a bordo, numa missão de patrulha sobre a Base Aérea de Thule, na Gronelândia

Francisco Laranjeira
Fevereiro 1, 2026
20:00

A 21 de janeiro de 1968, um bombardeiro americano B-52G Stratofortress descolou da Base Aérea de Plattsburgh, em Nova Iorque, com sete tripulantes a bordo, numa missão de patrulha sobre a Base Aérea de Thule, na Gronelândia. A aeronave monitorizava o Sistema de Alerta Antecipado de Mísseis Balísticos, mas um incêndio inesperado transformou o voo numa tragédia.

Enquanto sobrevoava a região a 35.000 pés, o fogo destruiu os sistemas elétricos do avião. O piloto declarou emergência, mas a cabina ficou tomada por fumo negro, obrigando seis dos sete homens a ejetar-se. O bombardeiro caiu sozinho, mergulhando no gelo e provocando explosões convencionais de quatro armas termonucleares. Embora os dispositivos não tenham detonado nuclearmente, detritos radioativos espalharam-se pelo gelo. Um tripulante, o copiloto Leonard Svitenko, não sobreviveu à queda.

Jeffrey Carswell, funcionário de uma empresa de transportes em Thule, recordou: “O enorme edifício tremeu como se um terramoto tivesse atingido a região.” O acidente revelou que os EUA sobrevoavam a Gronelândia com bombardeiros armados com armas nucleares, contrariando a política antinuclear dinamarquesa vigente desde 1957.

A missão secreta

O voo fazia parte da operação Hard Head, no âmbito do programa ultrassecreto Chrome Dome, que mantinha bombardeiros nucleares no ar permanentemente como alerta estratégico. No compartimento de bombas, quatro armas termonucleares B28FI, de mais de três metros e mil quilos cada, estavam prontas para uso, com força suficiente para destruir grandes cidades.

O acidente começou quando o sistema de ar condicionado da cabina falhou, provocando o incêndio nas almofadas de espuma que isolavam uma saída de aquecimento. O navegador Curtis Criss tentou conter o fogo com extintores, mas o incêndio alastrou. O piloto John Haug declarou emergência por rádio e deu ordem para a evacuação, cinco minutos antes do impacto.

Consequências imediatas

Seis tripulantes ejetaram-se em segurança, mas Svitenko não tinha assento ejetor e morreu na queda. A Força Aérea dos EUA enviou rapidamente equipas para Thule, inicialmente relutando em remover os destroços. Só após alerta de cientistas dinamarqueses sobre o risco de contaminação é que o material radioativo começou a ser recolhido.

Operários abriram estradas no gelo, ergueram estações de descontaminação e recolheram destroços, incluindo plutónio, urânio, amerício e trítio. A operação de limpeza removeu cerca de 90% do material radioativo, num esforço que custou 9,4 milhões de dólares na época, cerca de 90 milhões em valores atuais.

Revelações e escândalo

Inicialmente, os EUA afirmaram que todas as quatro bombas tinham detonado, mas semanas depois investigadores descobriram que apenas três tinham sido parcialmente afetadas, sendo que o estágio de fusão da quarta nunca foi encontrado. Documentos desclassificados mais tarde revelaram que os voos nucleares sobre Thule eram frequentes e autorizados discretamente pelo Governo, apesar das negativas públicas.

A verdade só veio à tona em 1995, com o escândalo conhecido como Thulegate, expondo missões secretas e provocando indignação na Dinamarca e no público internacional.

O acidente de Thule ficou para a história como um alerta sombrio da Guerra Fria: mesmo uma missão de rotina podia transformar-se num desastre nuclear, deixando consequências ambientais, políticas e humanas que perduram até hoje.

Partilhar

Edição Impressa

Assinar

Newsletter

Subscreva e receba todas as novidades.

A sua informação está protegida. Leia a nossa política de privacidade.