A revolta dos PIGS? Como Portugal e Espanha passaram a ser exemplos para a economia europeia

Com exceção de Itália, Portugal, Espanha e Grécia apresentam crescimento económico robusto, criação significativa de emprego, desaceleração da inflação e mercados bolsistas em ascensão

Francisco Laranjeira
Janeiro 7, 2026
6:15

A prestigiada revista britânica ‘The Economist’ tem vindo a elaborar, desde 2021, um ranking anual das melhores economias desenvolvidas, com base em indicadores como crescimento económico, inflação, emprego e desempenho bolsista. Os resultados têm surpreendido ao colocar consistentemente os países do sul da Europa no topo da tabela, segundo o ‘El Confidencial’.

Em 2021, quando o ranking ainda não estava plenamente consolidado, a Itália ocupou o primeiro lugar. Nos dois anos seguintes, em 2022 e 2023, foi a Grécia a liderar a classificação. Em 2024, a Espanha assumiu o primeiro posto e, em 2025, Portugal completou o quarteto, alcançando o topo do ranking. Espanha e Grécia continuam igualmente em posições de destaque, ocupando o quarto e o sexto lugares, respetivamente, enquanto a Itália perdeu protagonismo após o seu desempenho inicial. Eis, pois, a revolta dos PIGS, que quer dizer Portugal, Itália, Grécia e Espanha.

O bom posicionamento destes países não significa que sejam, objetivamente, as economias mais fortes do mundo, mas sim que se destacam nos indicadores analisados pela ‘The Economist’. Com exceção de Itália, Portugal, Espanha e Grécia apresentam crescimento económico robusto, criação significativa de emprego, desaceleração da inflação e mercados bolsistas em ascensão.

Estes resultados refletem, em grande medida, um efeito de recuperação após uma crise prolongada. Países que sofreram ajustamentos profundos partiram de níveis muito baixos e beneficiaram de uma margem de crescimento mais elevada, colocando em utilização recursos que estavam subaproveitados, sem necessidade de grandes investimentos adicionais.

No caso de Portugal, Espanha e Grécia, a crise financeira e as políticas de austeridade provocaram fortes ajustamentos no emprego, nos salários e na utilização da capacidade produtiva. Esse processo deixou uma reserva significativa de recursos ociosos que puderam ser reativados nos últimos anos. Parte do crescimento recente resulta deste efeito de ressalto, explica Miguel Cardoso, economista-chefe para Espanha do BBVA Research.

Turismo como motor económico

Um dos principais estímulos económicos comuns a estes países tem sido o turismo. Em Espanha, quase um terço do PIB dos últimos quatro anos foi gerado pelo turismo e pelo comércio a retalho. Em Portugal, o peso é de 27%, enquanto na Grécia atinge 24%. Trata-se de um setor intensivo em mão-de-obra, com impacto direto no crescimento económico e na redução do desemprego.

Este desempenho não surgiu de forma espontânea. Os países do sul da Europa realizaram um esforço significativo para recuperar competitividade após os anos da intervenção externa, marcados pelas exigências da troika e por medidas duras para a população. Sem a possibilidade de desvalorizar a moeda, optaram por ajustar custos, sobretudo através do mercado de trabalho, um caminho que a Itália não seguiu com a mesma intensidade.

Esse processo lançou as bases para a criação de emprego na última década, permitindo corrigir desequilíbrios externos e reforçar as exportações, segundo analistas citados pelo ‘El Confidencial’.

Limites ao modelo de crescimento

Apesar do desempenho recente, os especialistas alertam que este modelo apresenta limitações a médio e longo prazo. Os motores atuais do crescimento, como o turismo, tendem a gerar retornos decrescentes, enquanto a população exige melhores condições de trabalho e salários mais elevados. A queda do desemprego está também a reforçar o poder negocial dos trabalhadores.

O principal desafio passa agora pela produtividade. Competir com base em custos laborais tem pouco futuro, e os níveis de investimento continuam baixos, sobretudo na educação e na investigação e desenvolvimento. Para manterem posições de destaque entre as economias avançadas, Portugal, Espanha e Grécia terão de transitar de um crescimento quantitativo para um crescimento qualitativo, sustentado por ganhos de produtividade, inovação e investimento.

O sul da Europa dispõe de algumas vantagens estruturais, como o potencial das energias renováveis, a procura crescente por serviços e uma posição geoestratégica relevante. No entanto, o aproveitamento dessas oportunidades dependerá das decisões políticas e económicas tomadas nos próximos anos.

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