Por Ricardo Olalla, vice-presidente de Vendas da Bosch Mobility para Espanha e Portugal
A mobilidade encontra-se no meio de uma transformação sem precedentes. Para além da evolução dos veículos, estamos a assistir à redefinição de um ecossistema completo, impulsionado pela digitalização, sustentabilidade e pelas expectativas em mudança por parte dos utilizadores. Trata-se de uma evolução silenciosa, mas decisiva, que está a transformar aquilo que entendemos por uma mobilidade mais conectada, automatizada e inteligente. E o desafio não está em saber quando chegará – pois já está em curso – mas em como a construir de forma sustentável, segura e com um impacto positivo para as pessoas.
Da engenharia ao software: a nova arquitetura do veículo
Durante décadas, a evolução tecnológica na mobilidade centrou-se no aperfeiçoamento do hardware. Mas o novo paradigma está no software. O veículo definido por software (SDV) deixou de ser uma hipótese e tornou-se o eixo em torno do qual gira grande parte do desenvolvimento de produto, incluindo plataformas como as que a Bosch desenvolve para gerir eletronicamente múltiplas funções e atualizá-las de forma remota. Os veículos transformam-se em plataformas atualizáveis e personalizáveis, capazes de oferecer novas funcionalidades sob demanda e de melhorar o seu desempenho ao longo da vida útil através de atualizações over-the-air. Isto não só acelera os ciclos de desenvolvimento, como também exige arquiteturas eletrónicas e elétricas (E/E) completamente novas e centralizadas. A Bosch, com a sua profunda experiência em sistemas automóveis e o crescente investimento em software, está a desenvolver as plataformas e soluções de middleware essenciais para tornar esta visão do SDV uma realidade.
Neutralidade tecnológica com propósito
Paralelamente, a descarbonização da mobilidade é um imperativo global que exige combinar diferentes tecnologias. A chave está em adaptar as tecnologias às realidades regionais, à infraestrutura disponível e às fontes de energia. Embora os veículos elétricos a bateria sejam cruciais para a eletrificação direta, não podemos ignorar o potencial da célula de combustível para aplicações em veículos pesados e transporte de longas distâncias, beneficiando e, ao mesmo tempo, apoiando o avanço do hidrogénio verde.
Além disso, o motor de combustão interna avançado, combinado com o uso de combustíveis renováveis, como os e-fuels ou biocombustíveis, continuará a desempenhar um papel vital na transição, especialmente para a frota existente e em mercados como o português ou o espanhol, onde a idade média dos veículos já ultrapassa os 14 anos. Esta diversificação tecnológica é fundamental para países como Portugal e Espanha, onde a indústria automóvel representa uma parte crítica do emprego e das exportações, facilitando a modernização da frota, permitindo a renovação por parte de condutores que ainda não irão optar pelo veículo totalmente elétrico.
Transformação das fábricas e produtividade industrial
Esta transformação não é apenas funcional, mas também estrutural. A diversidade de sistemas de propulsão e a complexidade inerente ao SDV exigem uma reconfiguração profunda dos processos de fabrico. As fábricas devem tornar-se mais flexíveis e modulares, capazes de se adaptar rapidamente a diferentes variantes de veículos e tecnologias. Isto só se consegue através da implementação dos princípios da Indústria 4.0, onde a automatização avançada, a robótica colaborativa, os gémeos digitais, o IoT industrial e a análise de dados otimizam a eficiência, a qualidade e a rastreabilidade. O resultado é um fabrico mais flexível e digitalizado, que permite reduzir os tempos de integração, aumentar a capacidade de adaptação e otimizar a manutenção. Nos centros de produção ligados à Bosch já se observam estes benefícios: maior conectividade, menor complexidade técnica e maior velocidade de inovação.
Dados, IA e cibersegurança: o novo triângulo do valor
Por fim, neste ecossistema interligado, os dados, a Inteligência Artificial (IA) e a cibersegurança surgem como pilares fundamentais. Os veículos modernos geram volumes enormes de dados, essenciais para o desenvolvimento de novas funcionalidades, como a condução autónoma e os ADAS, a manutenção preditiva e a personalização do veículo.
A IA é o facilitador chave para processar esta complexidade, permitindo a tomada de decisões em tempo real e a otimização da eficiência e da segurança. No entanto, com esta conectividade e dependência do software, a cibersegurança não é uma opção, mas uma necessidade fundamental. Proteger a integridade do software, a privacidade dos dados e garantir uma comunicação segura é primordial para prevenir acessos não autorizados e ataques maliciosos. A cibersegurança faz parte da arquitetura desde o início, especialmente nas plataformas de conectividade que empresas como a Bosch estão a implementar junto de fabricantes globais.
A transformação da mobilidade é um processo complexo e interligado, onde software, sustentabilidade, adaptabilidade industrial e segurança digital são inseparáveis. A Bosch está comprometida em ser um ator de destaque na configuração desta nova era, combinando o seu profundo conhecimento em hardware com a crescente experiência em software e serviços, para oferecer soluções inovadoras que beneficiem a sociedade e o planeta.




