A herança, o filho e a madrasta “manipuladora”: conheça a história da queda em desgraça de uma das famílias mais antigas da Europa

Em março de 2023, Nicolas Ullens estava sentado numa carrinha do lado de fora da propriedade da sua família, num subúrbio luxuoso a uma hora de carro de Bruxelas: Nicolas, então com 57 anos, foi pedir dinheiro ao pai, o barão Guy Ullens, outrora um dos homens mais ricos da Bélgica, que recusou o pedido

Francisco Laranjeira
Janeiro 27, 2025
21:30

Em março de 2023, Nicolas Ullens estava sentado numa carrinha do lado de fora da propriedade da sua família, num subúrbio luxuoso a uma hora de carro de Bruxelas: Nicolas, então com 57 anos, foi pedir dinheiro ao pai, o barão Guy Ullens, outrora um dos homens mais ricos da Bélgica, que recusou o pedido.

Pouco tempo depois, Myriam Ullens, de 70 anos, a segunda esposa do seu pai, saiu da propriedade ao volante de um Volkswagen Golf, com o seu marido de 88 anos no banco do passageiro. Nicolas aguardava-os, com a sua arma carregada – viria a bloquear a marcha do veículo, foi até à janela do motorista e disparou seis tiros, matando a sua madrasta e ferindo o seu pai. Meia hora depois, Nicolas entregou-se numa esquadra de polícia belga e confessou o crime.

Desde então assistiu-se a uma ‘batalha de narrativas’, com várias histórias: um império decadente de riquezas coloniais; instabilidade nas fileiras sociais; uma madrasta caricaturada; uma tentativa fracassada de denúncia – tudo num jogo de elite de reputações e fortunas, ciúme e controlo. Nos próximos meses, a versão de casa autor será ouvida num tribunal criminal na cidade belga de Nivelles, onde Nicolas deverá ser julgado.

A herança

Na aristocracia belga, a posição de uma família é determinada por três coisas: posição, dinheiro e até onde pode ser rastreada a sua linhagem – os Ullens podem contar com as duas últimas. Originalmente uma família de ricos comerciantes e financiadores da cidade portuária de Antuérpia, os Ullens foram enobrecidos em 1693, quando a Bélgica estava sob domínio espanhol — o que significa que o seu título é mais antigo do que o próprio país.

Esse título foi concedido por Carlos II, rei da Espanha, “uma fonte de grande orgulho para a família”, segundo Jean-François Houtart, autor de um livro que traça a história das famílias mais antigas da Bélgica. Isso faz dos Ullens parte do círculo interno da nobreza belga. Há aproximadamente 1.200 famílias aristocráticas na Bélgica, um total de 32.500 pessoas — mas apenas cerca de 350 famílias já eram nobres antes da Revolução Francesa. “No panteão belga, a família Ullens está em alta posição”, referiu Houtart. “É uma família bastante prestigiosa, mas principalmente porque tem dinheiro.”

Os Ullens construíram a sua riqueza numa época em que Antuérpia era o principal centro comercial de produtos coloniais na Europa. Guy Ullens, nascido em 1935, herdou parte dessa fortuna. Na década de 1980, o barão que virou empresário chefiou a produtora de açúcar ‘Raffinerie Tirlemontoise’, que tinha um quase monopólio na indústria de refinação de açúcar de beterraba da Bélgica.

Em 1989, a empresa foi vendida por 1,25 mil milhões de euros para uma empresa alemã. Em 1999, a holding da família assumiu a gigante americana de dietas ‘WeightWatchers’. Em 2014, a fortuna pessoal de Guy foi estimada em mais de 3 mil milhões de euros, que gastou em propriedades luxuosas — na China, nos Estados Unidos, num resort de esqui de luxo na Suíça, na elegante cidade francesa de Saint-Tropez e na Bélgica — e em arte.

Na década de 2000, a coleção de arte do barão tornou-se uma das maiores do mundo. Parte dela foi armazenada em Genebra, Suíça — mas muitas peças foram exibidas no Ullens Center for Contemporary Art em Pequim, o primeiro museu de arte contemporânea da China. Foi inaugurado em novembro de 2007, com convidados ilustres, como o recém-eleito presidente francês Nicolas Sarkozy, bem como o príncipe Philippe, herdeiro do trono belga.

No entanto, grande parte da riqueza do barão dependia da ‘galinha dos ovos de ouro’ da holding familiar, a’ WeightWatchers’, que abriu o capital em 2001. E à medida que o preço das ações da gigante americana de perda de peso descia, o mesmo acontecia com a fortuna do barão, que atualmente está avaliada entre 200 e 300 milhões de euros. Vendeu um iate por 18 milhões de euros em 2015, assim como a propriedade de Saint-Tropez, salientou o jornal ‘Le Monde’ – viria a leiloar parte da sua coleção de arte, sendo que em apenas uma década a riqueza de Guy ficou reduzida a um décimo.

O casamento

Mas Guy não estava a aproveitar as suas riquezas sozinho. Na viragem do milénio aos 64 anos, Guy casou-se com Myriam Lechien, então com 46 anos. Foi o segundo casamento dele, o terceiro dela, e a conclusão de um caso que já durava oito anos. Filha de um oficial do exército belga, Myriam nasceu na Alemanha, onde seu pai serviu durante a sua infância.

Mãe solteira, ela criou sozinha dois filhos do primeiro casamento. Na década de 1980, enquanto Guy comandava o maior negócio de açúcar do país, ela fazia doces na sua cozinha e os entregava em restaurantes. “Foi amor à primeira vista… Eu nem sabia que isso era possível”, viria Myriam a dizer mais tarde à emissora pública francesa ‘France 2’.

Durante a maior parte do ano, Guy e Myriam — ou “Mimi”, como era conhecida — viviam num luxuoso resort de esqui suíço, onde a família real belga costuma ficar no inverno. “As nossas ‘casas’ principais são um avião e um barco”, frisou Guy ao ‘The Wall Street Journal’ em 2013.

Na alta sociedade da Bélgica, o casal extravagante rapidamente se tornou o assunto da cidade, com grande parte da conversa a concentrar-se em Mimi. “Quando uma mulher se casa com um homem rico… as línguas começam a mexer-se”, disse Hugo Strachwitz, um nobre britânico familiarizado com as práticas dos círculos aristocráticos da Europa, citado pelo jornal ‘POLITICO’. “Como um elemento relativamente novo na sociedade, uma das maneiras mais rápidas de ganhar aceitação é dispensando o máximo de caridade possível.” Myriam, que “sempre sonhou em fazer trabalho de caridade”, pediu ao barão que financiasse escolas, orfanatos e um centro de maternidade no Nepal. Após vencer o cancro de mama, ela abriu uma fundação para ajudar pacientes com cancro em hospitais belgas, franceses e suíços. No entanto, apesar dos seus melhores esforços, Mimi nunca pareceu ganhar aceitação no mundo abafado da aristocracia do Velho Continente.

O filho

Nicolas Ullens, um dos quatro filhos do primeiro casamento de Guy, enfrentou os seus próprios desafios. Durante mais de uma década, Nicolas trabalhou para o serviço de inteligência civil belga, uma posição de prestígio — ainda que nas sombras — adequada ao filho de uma família muito respeitada.

Em 2018 renunciou, mais tarde alegando ter descoberto um esquema de lavagem de dinheiro e corrupção como parte do seu trabalho como oficial de inteligência – os alegados mentores eram Didier Reynders, na época ministro dos Negócios Estrangeiros da Bélgica, e o seu conselheiro de longa data e braço-direito por mais de 20 anos, Jean-Claude Fontinoy. Identificou-se como denunciante e publicou vários vídeos no YouTube com as suas teorias.

Nicolas foi à polícia com as suas descobertas, que foram investigadas pelo Ministério Público de Bruxelas, que encerrou o caso algumas semanas depois devido à falta de evidências contra Reynders.

Esse caso custou a Nicolas o seu emprego, a sua reputação e quase o levou para a cadeia. Em janeiro de 2021, a promotoria de Bruxelas abriu uma investigação contra ele por violações de sigilo profissional, cuja investigação ainda está em andamento. Entre as atividades comerciais da família a tomar um rumo mau e o estilo de vida luxuoso do seu pai e sua madrasta, a fortuna de Nicolas estava lentamente a desaparecer.

A imprensa

No dia seguinte ao assassinato de Myriam, o Ministério Público local emitiu uma declaração dizendo que o suposto assassino havia justificado o seu ato “no contexto de uma disputa familiar, principalmente de uma ordem financeira”. Os detalhes macabros do assassinato de Myriam foram espalhados por toda a imprensa nacional, em ambos os lados da barreira linguística da Bélgica. A riqueza e a notoriedade do barão como patrono das artes também renderam à sua falecida esposa um elogio fúnebre no ‘The New York Times’.

Mas não demorou muito para que o tom começasse a mudar. Antes do assassinato, as referências aos Ullens nos media eram escassas, limitadas a classificações de milionários ou cobertura efusiva da paixão de Guy pelas artes e do trabalho de caridade de Myriam.

À medida que os jornalistas se apoderavam desse ‘noir belga’, devorando os detalhes macabros de um caso que parecia tirado de um romance policial real, a história começou a concentrar-se não nos crimes do suposto assassino, mas na sua vítima: Myriam foi retratada como uma madrasta manipuladora que planeava manter os milhões da família para si e foi acusada de desperdiçá-los.

Nicolas reclamou da sua “madrasta horrível”, a quem acusou de desviar o dinheiro da família para os seus dois filhos adultos de um casamento anterior, às custas dos quatro filhos biológicos do barão. Numa entrevista ao jornal belga ‘Het Nieuwsblad’, publicada dois dias após o assassinato, Brigitte Ullens, irmã de Nicolas, acusou Myriam de “querer tudo para si e destruir a família”.

Noutra entrevista, publicado pelo ‘Het Laatste Nieuws’ vários meses depois, a ex-esposa do filho de Myriam afirmou que ela tinha sido uma “manipuladora que brincava com pessoas como se fossem blocos de Lego”.

Desde outubro de 2023 e a sua libertação após quase seis meses na prisão, Nicolas vive em prisão domiciliar, com pulseira eletrónica enquanto aguardou julgamento, que deverá começar somente em 2026. Do banco dos réus, Nicolas terá de enfrentar o seu pai, que escolheu não falar publicamente desde o assassinato. Dias após o tiroteio, Guy entrou com uma ação civil contra o seu filho.

O tribunal e os 12 jurados terão que avaliar se o assassinato foi premeditado — o que Nicolas negou. Dezenas de testemunhas, incluindo muitos membros da família, devem depor durante o julgamento. Os depoimentos dos irmãos de Nicolas, o seu pai, os filhos e netos de Myriam, bem como amigos da família que podem atestar o vínculo (ou a falta dele) que o barão e Myriam compartilhavam, exporão as divisões da família.

As personalidades e os caracteres de Myriam e Nicolas, conforme apresentados pelas testemunhas escolhidas por ambos os lados, também serão elementos cruciais do processo.

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