Milhões de pessoas em todo o Japão voltaram este ano a celebrar o Natal com frango frito, batatas fritas e biscoitos comprados no Kentucky Fried Chicken, numa tradição improvável que continua a surpreender fora do país. Segundo a revista ‘Newsweek’, a cadeia tornou-se parte central da época natalícia japonesa, ao ponto de a véspera de Natal ser o dia mais movimentado do ano para a marca.
O fenómeno destaca-se não apenas pela sua singularidade cultural, mas também pelo impacto económico. O KFC é atualmente a terceira cadeia de fast-food mais lucrativa do mundo, avaliada em cerca de 14,2 mil milhões de euros, com mais de 30 mil restaurantes espalhados globalmente, incluindo mais de 1.100 no Japão.
Este sucesso é frequentemente citado como um exemplo paradigmático de marketing intercultural, demonstrando como uma marca estrangeira pode ser reinterpretada e integrada numa cultura com hábitos festivos muito distintos dos ocidentais.
Uma campanha dos anos 70 que mudou o Natal japonês
A origem da tradição remonta à década de 1970. Takeshi Okawara, gestor da primeira loja da KFC no Japão e antigo aluno de Harvard, terá ouvido clientes estrangeiros lamentarem a ausência de jantares de peru na época natalícia. Perante essa lacuna cultural, lançou uma campanha promocional pontual com baldes de frango, que acabou por ganhar vida própria.
“O KFC preencheu um vazio. Não havia uma tradição de Natal no Japão, e a marca surgiu com uma proposta clara do que fazer nessa data”, explicou à ‘BBC’ o professor de marketing Joonas Rokka, citado pela ‘Newsweek’.
Com o passar dos anos, a procura cresceu de forma acentuada. Atualmente, muitos clientes fazem encomendas com até seis semanas de antecedência, sendo os levantamentos rigidamente calendarizados. A véspera de Natal tornou-se, assim, o pico absoluto da atividade da cadeia no país.
Preços elevados e filas antecipadas
Um menu especial de Natal pode custar cerca de 34 euros, um valor elevado para padrões de fast-food, embora a empresa tenha introduzido pequenos descontos para quem faz pré-encomendas online, numa tentativa de reduzir tempos de espera e filas nas lojas.
A popularidade da tradição gerou também interpretações curiosas. Um comediante japonês citado pela ‘Newsweek’ contou que muitos estrangeiros lhe perguntam porque é que todos comem KFC no Japão, enquanto muitos japoneses acreditam que o frango frito é um costume natalício comum no Ocidente.
Influenciadores digitais em Tóquio ajudam a amplificar o fenómeno, partilhando nas redes sociais os conteúdos dos chamados “baldes de Natal”, que incluem diferentes variedades de frango, sobremesas e até objetos comemorativos.
Uma tradição que não mostra sinais de abrandar
O que começou como uma campanha de um dia transformou-se numa febre nacional recorrente todos os meses de Dezembro. Segundo a ‘Newsweek’, os banquetes de Natal representam atualmente cerca de um terço da receita anual do KFC no Japão, um peso suficiente para garantir a continuidade da iniciativa por muitos anos.
Cinco décadas depois, a obsessão japonesa pelo KFC no Natal permanece um dos exemplos mais improváveis — e bem-sucedidos — de como o marketing pode moldar tradições culturais inteiras.














