
Todas as empresas vão ter o seu Ronaldo. Se a Federação Portuguesa de Futebol (FPF) fosse uma empresa, a sucessão do capitão seria assunto do conselho de administração muito antes de chegar aos jornais. Ronaldo abandonou o estágio da Seleção antes do jogo com a Dinamarca e explicou-se seis dias depois, num comunicado de cinco páginas. Assume a decisão, pede desculpa aos colegas e aos adeptos, aceita a sanção que vier e acusa o selecionador de lhe ter faltado à palavra duas vezes. Jorge Jesus disse que leu e voltou ao trabalho.
O país tem discutido tudo isto, o comportamento do capitão, a autoridade do treinador, se alguém pode ter um estatuto à parte dentro de uma equipa. Deixo o conflito entre capitão e treinador a quem percebe de futebol. Interessa-me perceber como é que a saída mais previsível do desporto português chegou a este ponto sem estar preparada. A pergunta serve à FPF e serve a qualquer empresa com uma figura histórica na casa.
Ronaldo tem 41 anos e joga por Portugal desde 2003. Ninguém foi apanhado de surpresa. A FPF sabia que o papel dele teria de mudar, ele sabia que deixaria de jogar sempre e o selecionador sabia que mexer no lugar do capitão exigia uma clareza fora do comum.
Há um pormenor no comunicado que diz muito. Ronaldo conta que tinha a despedida escrita desde o Mundial e que, no voo de regresso, o presidente da FPF lhe pediu que considerasse. Ficou. O plano para a sua participação, segundo relata, foi-lhe apresentado numa conversa, e é de conversas e do que cada um guardou delas, que esta crise é feita.
Reconheço o padrão, porque o vejo em empresas. Há o fundador que deixa de mandar sem que ninguém lhe diga o que passa a ser e o administrador histórico que continua a ir às reuniões sem saber que decisões ainda são suas. Há a diretora com vinte anos de resultados a quem vão retirando responsabilidades, uma de cada vez, e que percebe pelos corredores que a empresa já começou a imaginar-se sem ela.
Toda a gente sabe que a mudança vem aí e ninguém quer ser a pessoa que abre o assunto. Quando finalmente se fala, fala-se já com ressentimento e quase sempre diante de terceiros. Costuma chamar-se a isto falta de plano de sucessão. A expressão engana, porque faz pensar que o difícil é escolher o substituto. Difícil é dizer a quem foi tudo numa casa o que vai ser a seguir, que poder mantém, por que critérios passa a ser avaliado, durante quanto tempo, quem lhe comunica as decisões.
Na Seleção, bastava fazer a lista. Em que condições continua Ronaldo a ser convocado. Como se gere a redução dos minutos. O que significa a braçadeira para quem já não joga os noventa. Que lugar pode ter depois do relvado. Nenhuma destas perguntas era imprevisível e cada uma que ficou por responder acabou respondida por cada parte à sua maneira.
Chama-se contrato psicológico àquilo que não está escrito em lado nenhum e que as duas partes dão por certo. As promessas, os sinais de confiança, a ideia que cada um faz do respeito que lhe é devido. Ronaldo usa uma expressão mais antiga, palavra dada. Quando ela se quebra, o contrato formal serve de pouco.
Nada disto iliba ninguém. O selecionador decide quem joga. O jogador responde por ter saído. À FPF cabia preparar o último capítulo do nome mais valioso que alguma vez teve e, a julgar pelo que se viu, isso ficou por fazer. A sanção, quando vier, tratará do comportamento do jogador. O resto continuará por tratar.
Trabalho em gestão de marca pessoal e sei que o cargo é o que menos custa largar. Custa a identidade. Quem se é quando já não se é o titular, o fundador, o número um. Uma organização que pede a alguém que mude de papel sem lhe oferecer outro está a pedir-lhe que desapareça devagar e poucas pessoas com um percurso destes aceitam desaparecer devagar.
Uma transição bem feita começa cedo, enquanto a pessoa ainda entrega resultados e tem autoridade para negociar o próprio futuro. Põe por escrito o novo papel, os critérios e o prazo, com tanto mais rigor quanto maior for o peso simbólico de quem muda. E decide o que fazer com aquilo que essa pessoa sabe e representa. Há quem fique como mentor, conselheiro ou embaixador e há quem saia de vez, com data marcada e casa cheia.
Horas depois de Ronaldo publicar o comunicado, Lionel Messi despediu-se da seleção argentina com mais de 85 mil pessoas, numa noite que a federação do seu país preparou durante semanas. Ronaldo fez questão de o homenagear. Os contextos são diferentes e a comparação entre os dois já cansou toda a gente. Fica a imagem de dois capitães da mesma geração, um com a despedida organizada, o outro com a carta ainda por entregar.
Isto diz respeito a muito mais gente do que parece. Segundo a Pordata, praticamente metade dos trabalhadores portugueses têm entre 44 e 64 anos, e por cada cem com menos de 35 há 99 com mais de 54. Nos próximos anos, quase todas as empresas portuguesas vão ter o seu Ronaldo, alguém que ajudou a construir a casa, que ainda rende, e a quem ninguém teve coragem de perguntar como quer acabar.
As que evitam a conversa arriscam-se a perder de um dia para o outro o que essa pessoa sabe, ou a mantê-la num lugar que já devia ter mudado. Num caso e no outro, alguém adiou uma decisão até ela já não poder ser tomada com serenidade.
Ronaldo escreve que quer voltar, cumprida a sanção, para competir e ganhar. A marca Cristiano Ronaldo foi construída sobre esses dois verbos. Falta-lhe agora decidir por que quer ser reconhecido quando já não jogar os noventa minutos. É esse o trabalho da gestão de marca pessoal num fim de ciclo, separar a identidade do lugar que se ocupa, escolher o posicionamento da fase seguinte e comunicá-lo antes que outros o façam. O comunicado mostrou as duas faces desse trabalho. Assumir a decisão e pedir desculpa protege a reputação. Levar para a praça pública uma conversa privada desgasta-a.
Uma reputação de vinte e três anos aguenta um episódio destes. Aguenta pior uma despedida escrita por outros. Uma despedida preparada permite que a equipa continue o seu caminho, com cada jogador no lugar certo. Vinte e três anos de Seleção merecem uma saída assim. Como portuguesa digo-lhe, obrigada Cristiano Ronaldo.






