A Rússia quer que a Ucrânia se transforme numa grande “zona tampão” depois do fim da guerra e rejeita um acordo que permita ao atual poder em Kiev permanecer no comando do país. As exigências foram expressas pelo ministro dos Negócios Estrangeiros russo, Sergei Lavrov, numa altura em que os EUA procuram relançar os esforços diplomáticos para chegar a um acordo.
“Todos argumentam que a Rússia precisa de uma ‘zona tampão’. Que a Ucrânia se torne essa zona tampão”, afirmou Lavrov esta terça-feira à televisão estatal russa, segundo declarações divulgadas pelo Ministério dos Negócios Estrangeiros russo e citadas pelo ‘Kyiv Post’.
A formulação alarga significativamente um conceito utilizado repetidamente por Moscovo desde os primeiros anos da guerra.
Até agora, Vladimir Putin tinha falado sobretudo na criação de uma “zona tampão” em território ucraniano junto à fronteira russa, argumentando que seria necessária para proteger as regiões russas de ataques.
Lavrov coloca agora a questão numa escala muito maior: é a própria Ucrânia que, segundo o ministro, deverá desempenhar esse papel depois da guerra.
“Que a Ucrânia se torne essa zona tampão”
Lavrov foi questionado sobre aquilo que poderia impedir que uma nova guerra entre Rússia e Ucrânia começasse daqui a 25 anos.
Na resposta, o chefe da diplomacia russa argumentou que não bastaria alterar fronteiras ou estabelecer garantias de segurança.
Segundo Lavrov, a Rússia não poderá aceitar que a Ucrânia mantenha aquilo que classificou como um regime “russofóbico, agressivo e neonazi” que represente uma ameaça para Moscovo.
As expressões fazem parte da retórica utilizada pelo Kremlin para caracterizar as autoridades ucranianas e não correspondem à caracterização feita pelo Governo ucraniano ou pelos seus aliados ocidentais.
Lavrov foi ainda mais longe ao afirmar que Moscovo não aceitaria um desfecho da guerra no qual o atual “regime que governa em Kiev” permanecesse no poder.
O ministro acusou as autoridades ucranianas de violarem direitos humanos, linguísticos e religiosos, acusações repetidamente utilizadas pela Rússia para justificar as suas posições em relação à Ucrânia.
Moscovo já não quer devolver territórios ocupados?
As declarações surgem depois de terem sido conhecidos sinais de um endurecimento da posição russa relativamente aos territórios ocupados.
Segundo informação da ‘Bloomberg’, o Kremlin terá abandonado a intenção de devolver áreas ucranianas atualmente controladas pelas forças russas como parte de um eventual acordo de paz.
Em julho, três fontes familiarizadas com o pensamento do Kremlin indicaram à ‘Bloomberg’ que Putin pretendia manter as áreas ocupadas nas regiões de Sumy e Kharkiv como zonas tampão permanentes, enquanto continuaria a tentar conquistar toda a região de Donetsk.
A confirmar-se, seria uma alteração relativamente a propostas informais anteriores.
Nesses cenários, Moscovo estaria disponível para devolver partes ocupadas de Sumy e Kharkiv em troca de Kiev ceder o restante território das regiões de Donetsk e Luhansk.
Não existe, contudo, um acordo entre as partes sobre qualquer destas propostas, e as condições territoriais continuam a constituir um dos principais obstáculos às negociações.
A ideia da “zona tampão” não é nova
Putin começou a falar publicamente na criação de uma zona deste género em 2023.
Desde então, o presidente russo tem defendido repetidamente que as tropas precisam de empurrar as forças ucranianas para uma distância suficiente da fronteira para impedir ataques contra território russo.
As ambições territoriais discutidas em Moscovo poderão, segundo diferentes relatos citados pelo ‘Kyiv Post’, ir além das quatro regiões ucranianas cuja anexação a Rússia declarou em 2022 — Donetsk, Luhansk, Kherson e Zaporizhzhia.
Fontes próximas do Kremlin disseram ao ‘The Moscow Times’, em março de 2025, que Moscovo estaria a considerar conquistar território adicional, incluindo áreas das regiões de Dnipropetrovsk ou Sumy.
Esses territórios poderiam posteriormente servir como moeda de troca por áreas de Kherson e Zaporizhzhia que continuam sob controlo ucraniano.
Diplomacia dos EUA não desbloqueou negociações
As declarações de Lavrov coincidem com uma nova tentativa dos EUA de aproximar Moscovo e Kiev.
Os enviados especiais Jared Kushner e Steve Witkoff reuniram-se no sábado com Vladimir Putin, em Moscovo, antes de viajarem no domingo para Kiev, segundo o ‘Kyiv Post’.
Os contactos, contudo, não terão produzido avanços significativos.
Lavrov deixou também claro que Moscovo não considera que esteja atualmente envolvida numa verdadeira negociação de paz.
Numa outra entrevista concedida esta terça-feira, o ministro afirmou que a Rússia continuará a combater até que o Ocidente faça concessões e acusou os aliados ocidentais da Ucrânia de terem impedido repetidamente a conclusão de um acordo.
O chefe da diplomacia russa rejeitou ainda novas propostas apresentadas pelos países ocidentais e afirmou que estes não deveriam “agitar-se” em torno das suas “novas ideias”.
Uma Ucrânia condicionada depois da guerra
As diferentes declarações ajudam a desenhar aquilo que Moscovo apresenta como condições para uma eventual ordem pós-guerra.
Não se trata apenas de decidir onde ficará a fronteira.
A posição apresentada por Lavrov envolve também a orientação estratégica da Ucrânia e quem poderá governar o país, ao mesmo tempo que Moscovo continua a defender a manutenção de território ocupado como proteção contra futuras ameaças.
É precisamente aí que permanece uma das maiores distâncias entre as partes.
Enquanto Washington tenta recuperar uma via negocial, Moscovo continua a apresentar condições que implicariam profundas alterações territoriais, políticas e de segurança na Ucrânia.
E Lavrov resumiu agora uma parte dessa visão numa única frase: “Que a Ucrânia se torne essa zona tampão.”


















