Referendo sobre Trump: eleições intercalares nos EUA entram na fase decisiva. O que está em causa?

Popularidade do presidente dos EUA caiu para 34%, segundo a mais recente sondagem do ‘Financial Times’ referida pelo jornal espanhol, num contexto marcado pelo descontentamento com o custo de vida, a política de imigração, as tarifas e as consequências do conflito com o Irão

Francisco Laranjeira

Donald Trump aproxima-se de um dos momentos mais importantes do segundo mandato com um problema que há poucos meses parecia bastante menos provável: os democratas não só são apontados como favoritos para conquistar a Câmara dos Representantes nas eleições intercalares de novembro, como começam a acreditar que também podem retirar aos republicanos o controlo do Senado.

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Faltam cerca de dois meses para uma votação que funcionará como um grande referendo à presidência de Trump e as sondagens nacionais citadas pelo ‘El País’ colocam os democratas entre três e sete pontos percentuais à frente nas intenções de voto.

Ao mesmo tempo, a popularidade do presidente dos EUA caiu para 34%, segundo a mais recente sondagem do ‘Financial Times’ referida pelo jornal espanhol, num contexto marcado pelo descontentamento com o custo de vida, a política de imigração, as tarifas e as consequências do conflito com o Irão.

O que está em causa vai muito além de uma derrota eleitoral simbólica.

Em novembro serão eleitos todos os 435 membros da Câmara dos Representantes e um terço dos 100 senadores. Se os democratas conquistarem o Congresso, Trump poderá enfrentar bloqueios às suas políticas e nomeações durante a segunda metade do mandato. O ‘El País’ refere ainda que setores da oposição admitem recorrer novamente a processos de destituição contra o presidente ou membros da sua Administração.

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Câmara dos Representantes pode mudar de mãos

É na Câmara dos Representantes que o cenário parece atualmente mais favorável aos democratas.

Os republicanos dispõem de uma maioria reduzida e, segundo o ‘El País’, as sondagens indicam que, se as eleições fossem realizadas agora, a oposição conseguiria uma maioria confortável.

Alguns analistas citados pelo jornal consideram mesmo a conquista democrata da Câmara praticamente certa. A situação é suficientemente preocupante para Trump ter prometido dedicar os últimos 30 dias da campanha a percorrer o país em apoio dos candidatos republicanos.

O presidente pretende concentrar esforços em 35 círculos eleitorais considerados fundamentais para determinar quem controlará a Câmara.

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E o Senado? Há poucos meses parecia impossível

É aqui que a corrida se torna mais interessante.

Os republicanos dispõem atualmente de uma vantagem de 53 lugares contra 47 dos democratas no Senado. Para conquistarem a maioria, os democratas precisam de acrescentar quatro lugares aos que já controlam.

A dificuldade está no mapa eleitoral: muitos dos lugares em disputa pertencem a estados onde Trump venceu confortavelmente nas presidenciais de 2024.

Mas algumas dessas corridas tornaram-se inesperadamente competitivas. O ‘El País’ identifica seis disputas ainda em aberto: Maine, Ohio, Alasca, Texas, Iowa e Michigan. Destes estados, apenas Michigan tem atualmente um lugar ocupado pelos democratas.

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Até o Texas entrou nas contas

Alguns dos números ajudam a explicar o crescente otimismo democrata.

Segundo médias de sondagens do RealClearPolitics, o democrata James Talarico aparecia no Texas 2,4 pontos percentuais à frente do republicano Ken Paxton.

No Alasca, Mary Peltola liderava por dois pontos. No Maine, Troy Jackson surgia 2,4 pontos à frente da veterana senadora republicana Susan Collins, enquanto Sherrod Brown apresentava uma vantagem de 2,6 pontos no Ohio.

Só no Iowa, entre estas corridas destacadas pelo jornal, a republicana Ashley Hinson aparecia à frente, com uma vantagem de 1,8 pontos.

A importância destes números está no histórico eleitoral.

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Trump venceu cinco dos seis estados referidos — todos exceto o Maine — nas presidenciais de 2024. Texas e Alasca, em particular, são tradicionalmente terreno favorável aos republicanos.

Preços elevados pesam sobre Trump

A economia surge como uma das explicações para a mudança do ambiente político.

Eleitores de estados muito diferentes têm manifestado preocupação com o custo de vida, tarifas e outras medidas económicas da Administração.

O ‘El País’ destaca inclusivamente a subida recente do preço da gasolina, um indicador particularmente visível para as famílias dos EUA, e contrapõe essas preocupações à atenção dedicada por Trump a projetos como o salão de baile que mandou construir na Casa Branca.

Os democratas conhecem bem o risco político deste tema.

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Em 2024, foram eles próprios penalizados pelas preocupações dos eleitores com a inflação e o custo de vida. Agora, segundo o jornal, estão a recuperar apoio entre a própria base eleitoral e independentes desiludidos com Trump.

Trump tenta mudar o mapa

A importância das intercalares levou também o presidente a intervir diretamente na preparação eleitoral.

Segundo o ‘El País’, Trump pressionou estados controlados pelos republicanos para redesenharem círculos eleitorais de forma favorável ao partido e apoiou medidas que poderão dificultar o voto por correspondência, tradicionalmente mais utilizado pelos democratas.

Esta semana, o presidente deverá assumir ainda um papel central numa convenção republicana de meio de mandato convocada em Dallas, um evento pouco habitual nesta fase do ciclo político.

Republicanos têm dinheiro — e Trump continua a mobilizar a base

As sondagens, contudo, estão longe de determinar antecipadamente o resultado.

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O próprio precedente de 2022 recomenda cautela: nessa altura, várias previsões apontavam para uma grande “onda republicana” nas intercalares que acabou por não se concretizar.

Os republicanos dispõem também de uma vantagem financeira.

Trump prometeu utilizar parte dos 400 milhões de dólares — cerca de 340 milhões de euros — disponíveis em fundos de campanha para apoiar candidatos republicanos, enquanto Elon Musk criou um fundo de 50 milhões de dólares, aproximadamente 42 milhões de euros, com o mesmo objetivo.

Há ainda sinais de que o apoio de Trump continua a ser extremamente valioso dentro do eleitorado republicano: segundo o ‘El País’, candidatos apoiados pelo presidente venceram 96% das primárias republicanas referidas durante esta campanha.

O que acontece se Trump perder o Congresso?

Essa é a questão que transforma estas eleições numa batalha decisiva para os dois últimos anos do mandato.

Se os republicanos mantiverem as duas câmaras, Trump continuará a dispor de condições muito mais favoráveis para fazer avançar a agenda legislativa e as nomeações da Administração.

Se os democratas conquistarem a Câmara, poderão bloquear parte dessa agenda e utilizar os poderes de investigação do Congresso para aumentar a pressão sobre a Casa Branca.

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E se conseguirem também aquilo que há poucos meses parecia extremamente improvável — conquistar o Senado —, a segunda metade do mandato de Trump decorrerá perante um Congresso politicamente hostil.

Os democratas acreditam agora ter vários caminhos para chegar lá.

“Temos seis oportunidades cruciais e continuamos a ampliar as nossas hipóteses, forçando os republicanos a esforçarem-se para defender os estados que antes dominavam”, afirmou Devan Barber, diretor do Comité de Campanha Democrata para o Senado. “Chegámos a novembro com múltiplos caminhos para a maioria.”

A estratégia democrata para os próximos dois meses será simples: falar do custo de vida, explorar o descontentamento económico e colocar Donald Trump no centro da campanha.

A republicana será igualmente clara: mobilizar a base, utilizar a vantagem financeira e tentar provar que, apesar das sondagens, Trump continua capaz de levar os seus candidatos à vitória.

Em novembro saber-se-á qual das duas leituras estava certa.

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