“Isto não é um filme”: ambulância crivada de balas na Ucrânia estaciona em frente à Embaixada da Rússia em Lisboa

Ambulância integra uma exposição itinerante que percorre a Europa e que chegou a Portugal para mostrar as consequências do conflito e, simultaneamente, ajudar a angariar fundos para enviar novos veículos médicos para território ucraniano

Francisco Laranjeira

Está completamente inutilizada, tem a carroçaria marcada por balas e transporta consigo uma história que começou a milhares de quilómetros de Lisboa. Uma ambulância ucraniana atacada durante uma operação de socorro em Kharkiv foi estacionada esta quinta-feira a poucos metros da Embaixada da Rússia na capital portuguesa.

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O objetivo é transformar um veículo que já não pode salvar vidas num testemunho físico da guerra na Ucrânia. A ambulância integra uma exposição itinerante que percorre a Europa e que chegou a Portugal para mostrar as consequências do conflito e, simultaneamente, ajudar a angariar fundos para enviar novos veículos médicos para território ucraniano.

“Isto não é filme. É uma realidade que está a acontecer na Europa”, afirmou à ‘Euronews’ Roman Grymalyuk, presidente da Associação de Apoio à Comunidade Ucraniana em Portugal (ORANTA).

Foi atacada durante uma operação de socorro

A história da ambulância remonta a 2022, nos primeiros meses da invasão russa da Ucrânia.

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Segundo o relato feito à ‘Euronews’ por Roman Grymalyuk, uma equipa médica recebeu um pedido para socorrer uma mulher que tinha ficado ferida durante um bombardeamento em Kharkiv.

Os profissionais entraram no edifício para retirar a vítima. Enquanto se encontravam no interior, a ambulância foi alvejada.

“Depois de entrarem no prédio para resgatar a senhora, esta ambulância foi alvejada”, explicou o responsável da ORANTA.

Apesar das marcas que ainda hoje cobrem o veículo, o episódio acabou por não provocar vítimas entre a equipa.

“A única coisa que foi destruída foi o metal”, salientou Grymalyuk.

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A ambulância nunca mais regressaria ao serviço. Passou, em vez disso, a ser utilizada como peça de uma exposição destinada a mostrar fisicamente as consequências da guerra.

“Dá para chegar aqui e tocar”

O veículo não chegou diretamente da Ucrânia a Portugal. Desde 2023 que percorre diferentes países europeus e a sua primeira exposição aconteceu junto do Parlamento Europeu.

A ambulância é acompanhada por fotografias e outras peças relacionadas com o conflito, numa tentativa de transportar uma pequena parte da realidade vivida na Ucrânia para cidades que se encontram longe da frente de batalha.

“Dá para chegar aqui e tocar, perceber a dor, a dimensão e o problema que existe hoje em dia”, explicou o presidente da ORANTA.

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Antes de chegar a Lisboa, a exposição passou por outras cidades portuguesas.

Na capital, porém, a organização escolheu um local carregado de simbolismo.

Mesmo em frente à Embaixada da Rússia

A ambulância foi colocada a poucos metros da Embaixada da Federação da Rússia em Lisboa.

A escolha acontece poucos dias depois de um representante diplomático russo ter classificado Portugal como “um dos países mais hostis da Europa” relativamente à Rússia, numa entrevista à agência Lusa.

A Embaixada russa apontou, entre outros fatores, o apoio militar português à Ucrânia, a expulsão de diplomatas russos e aquilo que considera ser uma postura particularmente dura de Lisboa desde o início da invasão. Moscovo mantém Portugal na sua lista de países considerados “hostis”.

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Para a ORANTA, a localização da ambulância constitui também uma resposta simbólica a essas declarações.

“Se Portugal é um inimigo de um país terrorista, podemos dizer que está do lado certo da história, está do lado certo do mundo e da defesa da humanidade”, afirmou Roman Grymalyuk à ‘Euronews’.

A qualificação da Rússia como “Estado terrorista” corresponde à posição expressa pelo responsável da associação.

Objetivo é enviar mais de 100 veículos médicos

A ambulância faz parte da campanha internacional “Ukraine is Calling”, promovida pela organização LUkraine.

A iniciativa já percorreu 11 países europeus e recebeu, em 2023, o Prémio do Cidadão Europeu atribuído pelo Parlamento Europeu.

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O objetivo é angariar fundos e veículos para conseguir entregar mais de 100 viaturas médicas à Ucrânia.

Em Portugal, a ORANTA participa no projeto e afirma já ter enviado 31 ambulâncias e veículos de resgate para território ucraniano.

A associação procura também câmaras municipais e corporações de bombeiros portuguesas que tenham ambulâncias que já não possam continuar ao serviço em Portugal, mas que possam ser recuperadas e utilizadas na Ucrânia.

“Nos bombeiros há muitas ambulâncias que já não servem para prestar serviço aqui em Portugal, mas para nós são muito importantes”, explicou Grymalyuk.

Algumas das viaturas são adquiridas pela própria organização e outras chegam através de campanhas de angariação ou de entidades que deixam de necessitar delas.

É assim que uma ambulância destruída em 2022 continua, quatro anos depois, ligada à emergência médica ucraniana. Já não transporta feridos nem equipas de socorro: percorre cidades europeias para tentar financiar os veículos que ainda conseguem fazê-lo.

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