O primeiro-ministro, António Costa, assegurou esta sexta-feira que, «se formos contaminados, temos um Serviço Nacional de Saúde suficientemente robusto para poder responder às necessidades, em profissionais e condições de nos acolher». Mas, alertou, há «um elemento crítico», porque «se tudo correr mal e precisarmos mesmo de chegar à fase dos cuidados intensivos, temos de ter a garantir de que temos os equipamentos nacionais» e «é preciso que essa segurança exista para os profissionais de saúde e cidadãos». «Saber que se tudo correr mal não faltarão ventiladores», reafirmou.
O chefe do Governo falava a partir do Centro de Engenharia para o Desenvolvimento de Produto (CEiia), em Matosinhos, que deu a conhecer esta sexta-feira um ventilador pulmonar desenvolvido em Portugal, o Atena. O CEiia avançou com um pedido formal de ensaios em pessoas para que possa chegar o mais depressa a unidades de cuidados intensivos. Para já, estão construídos 100 exemplares deste ventilador e angariados 1,85 milhões de euros em doações a este projecto.
Nestes dois meses, o primeiro-ministro disse que um dos ensinamentos que tirou desta situação é que «não podemos estar tão dependentes de fornecimento externo como até agora. Coisas tão banais como máscaras não podem vir de países que estão a milhares de quilómetros de distância». «Não podemos depender de um mercado completamente desregulado e selvagem, a lutar quase ombro a ombro fisicamente para comprar um ventilador aqui e ali», avisou, salientando que «tem sido muito difícil para Portugal e em todo o mundo» e, por isso, «desta crise temos de sair com uma lição muito bem aprendida: reforçar as capacidades nacionais de produção. Temos engenheiros, indústrias e competências profissionais para isso e podemos ser autónomos na produção de máscaras e equipamentos de protecção de qualquer tipo e de maquinaria, como os ventiladores».
«Mais uma vez provámos que os portugueses são excepcionais», realçou Costa, para destacar o «esforço de incubação» feito no CEiia que «em quarenta e cinco dias conseguir passar de uma ideia a realidade que está pronta a ser instalada e a entrar em funcionamento numa unidade hospitalar». «É importante que esta incubação tenha sido feito aqui neste centro de investigação e inovação tecnológica. O CEiia não é uma fábrica. Aqui estão a ser fabricados não só protótipos e já novos produtos. Mas o objectivo não é o CEiia continuar a produzir ventiladores: é, a partir daqui, libertar esta tecnologia e este know-how para a indústria nacional pode passar a produzir em larga escala para as necessidades nacionais, mas também globais», destacou.
Os ventiladores, salientou o primeiro-ministro, «continuam a ser uma carência em todo o mundo, seja na Europa ou em outros continentes». É por isso que «é importante obter agora a certificação do respeito pelas normas comunitárias para que possam ser utilizados e exportados», acrescentou.
«Temos dito deste o início: este é um desafio global que só pode ser respondido à escala global e de acordo com o valor fundamental da solidariedade. Ainda esta semana, um conjunto importante de mecenas fez com que Portugal desse 10 milhões de euros para o esforço da União Europeia e a global response [resposta global, em português] contra o Covid-19», ressalvou.
Mas, além da contribuição monetária, António Costa defendeu que «há outras contribuições que nós podemos e somos capazes de dar», designadamente em equipamentos e em material de tratamento. «Seguramente, o Estado português, no conjunto de aquisições que vai fazer no Atena, vai fazê-lo não somente para reforçar as capacidades nacionais e ter uma maior reserva, mas também para reforçar a nossa contribuição no âmbito da cooperação internacional para o desenvolvimento», nomeadamente com os países da lusofonia.
Para Costa, este feito do CEiia «transformou a indústria portuguesa e a ciência». «É o ânimo e a confiança que os portugueses podem ter no nosso país, engenheiros, no nosso sistema científico, indústria e profissionais. É assim que temos contido a pandemia e é também assim que vamos conseguir dar a volta e relançar a economia, não só com base naquilo que já fazíamos bem, mas com aquilo que aprendemos nestes duros dois meses, dos quais sairemos mais fortes», rematou.
Portugal contabiliza já 26.715 infectados por Covid-19 (mais 533 do que na quarta-feira) e 1.105 mortes associadas à doença (+16), segundo o boletim epidemiológico divulgado hoje pela Direção-Geral da Saúde.
O país está desde domingo em situação de calamidade, depois de três períodos consecutivos em estado de emergência, que começou a 19 de Março. Esta nova fase de combate à Covid-19 prevê o confinamento obrigatório para pessoas doentes e em vigilância activa, o dever geral de recolhimento domiciliário e o uso obrigatório de máscaras em transportes públicos, serviços de atendimento ao público, escolas e estabelecimentos comerciais.
A pandemia de Covid-19 já provocou mais de 269 mil mortos e infectou acima de 3,8 milhões de pessoas em todo o mundo, segundo um balanço da agências de notícias “France-Press”, a partir de dados oficiais.
A doença é transmitida por um novo coronavírus detectado no final de Dezembro, em Wuhan, uma cidade do centro da China.
Para combater a pandemia, os governos mandaram para casa 4,5 mil milhões de pessoas (mais de metade da população do planeta), encerraram o comércio não essencial e reduziram drasticamente o tráfego aéreo, paralisando sectores inteiros da economia mundial. Face a uma diminuição de novos doentes em cuidados intensivos e de contágios, alguns países começaram a desenvolver planos de redução do confinamento e em alguns casos a aliviar diversas medidas.
*Notícia actualizada às 10:38







