Ter sorte dá muito trabalho

Opinião de Pedro Alvito, Professor de Política de Empresa na AESE Business School

André Manuel Mendes

Por Pedro Alvito, Professor de Política de Empresa na AESE Business School

                  

Tive um amigo que me disse um dia: “durante a minha vida analisei, criei e investi em dezenas de negócios. Só este sobreviveu e é um grande sucesso. Se não fosse esse, não sei o que seria da minha vida”.

Vem esta frase a propósito da pergunta: o que leva um negócio a ter sucesso? Dir-se-ia que depende da capacidade do empreendedor, mas, evidentemente, que aqui não é o caso, senão outros negócios teriam tido êxito. Podemos achar que depende muito da análise financeira e de risco do mesmo. Também não foi o caso, porque todos os negócios foram analisados com os mesmos critérios. Erros de avaliação? É possível que tal tenha acontecido em alguns deles, mas em todos parece-me bastante improvável. Escolha errada dos dirigentes das empresas? Também é possível, mas repito a pergunta: em todos?

Os fatores exógenos podem ter tido aqui um papel extremamente relevante. O estar na altura certa, no sítio certo e com o produto ou serviço certo faz, quanto a mim, toda a diferença. E neste caso específico foi exatamente assim. Perante uma realidade concreta e complexa, soube “inventar” a solução mais eficaz para resolver determinado problema. E o sucesso aconteceu.

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Conto a história real de uma empresa que inventou um determinado produto e levou-o a uma feira internacional da especialidade. Foi um sucesso enorme, todas as empresas perceberam os benefícios de tal produto e foi a coqueluche desta feira, na Alemanha. Resultado em vendas, no ano seguinte? ZERO. A empresa desistiu? Não, continuou a divulgar o produto diretamente com as empresas. Passados dez anos, o produto tornou-se o campeão de vendas da empresa e um must no mercado. O problema foi ter surgido antes do tempo, mas a empresa soube esperar.

Uma história divertida vivida por mim: estava eu em Nápoles e ia jantar num determinado restaurante. Nápoles tem milhares de orientais a vender, nas ruas, os tão famosos “recuerdos” para turistas. De repente, caiu uma chuvada muito intensa e, qual não é o meu espanto, quando, no mesmo instante, esses mesmos orientais largaram (não sei onde) os “recuerdos” e começaram a vender chapéus de chuva, em pleno verão, (também não sabendo eu de onde vieram os ditos). Chama-se a isto entregar ao cliente aquilo que ele precisa, a cada momento.

Tudo isto permite-nos concluir que podemos ter uma boa ideia, capacidade de gestão e até financeira para a concretizar, mas o que não podemos ignorar é o momento da procura, ou seja, dar ao cliente aquilo que ele procura, no momento em que ele procura. O desafio é, pois, tremendamente exigente e obriga a estar atento ao mercado, à conjuntura e à oportunidade. Dirão alguns que é preciso contar com a sorte; eu prefiro dizer que a sorte dá muito trabalho.

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