O número de famílias a recorrer ao apoio alimentar está a aumentar em todo o país e o cenário deverá agravar-se nos próximos meses. O alerta é deixado por Isabel Jonet, presidente da Federação Portuguesa dos Bancos Alimentares Contra a Fome, que, em entrevista exclusiva à Executive Digest, admite que o país atravessa um “momento delicado” e “crítico” e antecipa que “vai haver um agravar da situação das famílias que trabalham”.
Perante a escalada dos preços dos bens essenciais, com destaque para os alimentos e a energia, a responsável confirma que “tem-se registado um acréscimo dos pedidos de apoio alimentar aos bancos alimentares em todo o país, seja por parte das instituições sociais, que são as beneficiárias da ajuda diariamente, seja por parte das famílias”.
Mais pedidos por duas vias: instituições e famílias
Segundo Isabel Jonet, o aumento da procura faz-se sentir de forma direta e indireta. “Nós temos mais pedidos diretamente para apoio alimentar, mas, sobretudo, temos mais pedidos das instituições que elas próprias registaram este acréscimo do preço da alimentação, mas também um acréscimo muito substancial dos combustíveis e do gás, e, portanto, da energia.”
As instituições apoiadas pelos bancos alimentares têm valências diversas — “lares, centros de dia, ATLs, creche, etc.” — e enfrentam agora uma pressão acrescida nos seus custos de funcionamento. “As próprias instituições, hoje, têm uma dificuldade acrescida por causa deste aumento dos preços”, sublinha.
Assim, o crescimento dos pedidos surge “por duas vias”: “seja diretos das instituições, seja das famílias que nos contactam por e-mail ou que nos contactam através do site da rede de emergência alimentar”.
Apesar de não avançar números concretos nesta fase, Isabel Jonet explica que os dados consolidados apenas são divulgados na altura da campanha nacional, marcada para 30 e 31 de maio. “Só divulgamos números na altura da campanha, e isto porque há 21 bancos alimentares e é preciso consolidar as estatísticas”, refere, acrescentando que existe, ainda assim, uma perceção clara da tendência, quer através do site onde são feitos os pedidos, quer do contacto direto com as cerca de 2.400 instituições que se abastecem nos bancos alimentares.
Lisboa, Setúbal, Grande Porto, Algarve e Madeira entre as zonas mais afetadas
As áreas onde o aumento da procura é mais expressivo coincidem com aquelas onde existe maior concentração de população dependente da solidariedade. “Temos como costume Lisboa, Setúbal, o Grande Porto, temos o Algarve e a Madeira”, indica.
No caso da Madeira, a presidente da federação aponta dois fatores determinantes: desemprego e forte dependência do turismo. “A região da Madeira tem desemprego, mas também é muito dependente do turismo e verificou-se uma contração das pessoas que viajam.”
A instabilidade internacional tem contribuído para esse cenário. “Quando há guerras, há mais ansiedade e as pessoas viajam menos. Aqui, ainda por cima, aumentaram muito os preços dos aviões e, portanto, nós verificámos que o impacto no turismo foi grande.” Como consequência, há menos emprego sazonal, afetando sobretudo regiões como a Madeira e o Algarve, onde “há maior dependência deste tipo de trabalhos”, deixando muitas pessoas “em situação mais frágil”.
“Vivemos um momento extremamente delicado”
Confrontada com a possibilidade de o país estar a atravessar um período particularmente crítico, Isabel Jonet não hesita: “Eu penso que isso que referiu é tal e qual.”
“Há uma ansiedade, há uma expectativa, não se sabe bem quando é que a situação internacional se regulariza”, afirma, alertando para o impacto externo na economia nacional. Mesmo que internamente não exista uma contração imediata, “vamos tê-la por motivos externos que repercutem naquilo que é a capacidade de compra ou poder de compra das populações”.
A responsável recorda que o perfil dos beneficiários mudou face a crises anteriores, como a da dívida soberana ou o período da pandemia. “Hoje temos menos idosos que são dependentes de apoio”, explica, salientando que as prestações sociais contribuíram para alguma melhoria nas pensões, “embora sejam baixas”.
Em contrapartida, há um crescimento de outro fenómeno: “Temos muitas famílias que têm um trabalho mas que são trabalhadores pobres.” Estas famílias já viviam “no limite com o valor da habitação nos seus orçamentos familiares” e são particularmente vulneráveis à subida do cabaz alimentar e da energia.
Quando “aumenta o preço do cabaz alimentar, mais o preço da energia repercutindo-se para tudo o resto que são despesas básicas, estas famílias ficam numa situação muito difícil”, afirma.
“Vamos ter uns meses difíceis” e situação pode agravar-se
A antevisão para os próximos tempos é pouco animadora. “Eu penso que nós vamos ter agora uns meses difíceis e vamos ter um tempo difícil até ao verão que vai castigar muito estas famílias”, declara.
Isabel Jonet considera este agravamento inevitável: “Isso é inevitável.” E, mesmo admitindo que a evolução dos conflitos internacionais possa trazer algum alívio no futuro, não prevê melhorias a curto prazo. “Eu não prevejo que no curto prazo haja esse tipo de alívio. Ao contrário, prevejo que nos tempos mais próximos vai haver um agravar da situação das famílias que trabalham, que têm emprego, mas que não ganham o suficiente para acomodar estes acréscimos todos.”
Solidariedade acompanha o aumento das dificuldades
Apesar do cenário adverso, a presidente da federação destaca um dado positivo: a resposta solidária da sociedade portuguesa. “Os portugueses são muito solidários e hoje os portugueses conhecem situações de carência perto de si”, afirma.
Nas campanhas de recolha de alimentos, há “uma expressão coletiva de generosidade” que demonstra que muitos cidadãos não ficam indiferentes às dificuldades alheias. “Não é preciso darem muito, é preciso serem muitos”, sublinha, acrescentando que a adesão tem sido “muito favorável” ao longo dos anos.
O Banco Alimentar celebra 35 anos de atividade e construiu, segundo Isabel Jonet, uma relação de confiança com a população. “As pessoas conhecem o Banco Alimentar, sabem para onde é que vão os produtos e muitas vezes conhecem pessoas que recebem estes produtos.”
Apelo à participação na campanha de maio
A próxima campanha nacional de recolha realiza-se nos dias 30 e 31 de maio. Isabel Jonet acredita que será, como sempre, “o melhor que pode ser no contexto em que se realiza”.
Confiante na mobilização de voluntários, deixa um apelo claro: “As pessoas sejam voluntárias na campanha do Banco Alimentar da sua região. Basta dar um par de horas e já se está a participar.”
Descrevendo o voluntariado como “uma experiência incrível que deixa marcas em todos nós”, reforça que “independentemente da idade, até as crianças são bem-vindas”.
O lema da campanha reflete a proximidade das dificuldades: “As carências alimentares estão muito mais perto de nós do que aquilo que imaginávamos e que não fiquemos indiferentes.” Num contexto internacional marcado por crises e conflitos, Isabel Jonet alerta para a necessidade de não esquecer as fragilidades internas: “Por vezes, quando há situações internacionais dramáticas, como vemos, temos tendência a esquecer aquilo que se passa perto de nós.”
Num “momento delicado” que poderá ainda piorar, o apelo é claro: reforçar a solidariedade para responder a um número crescente de famílias em dificuldade.








