Tempestade Kristin: o que aprendemos sobre a resiliência das redes de comunicação 

Opinião de Ricardo Antunes da Silva, Regional Sales Manager e CTO da Cisco Portugal

André Manuel Mendes

Por Ricardo Antunes da Silva, Regional Sales Manager e CTO da Cisco Portugal

A passagem da depressão Kristin, no final de janeiro de 2026, deixou um rasto de destruição sem precedentes no centro de Portugal, especialmente nos distritos de Leiria, Santarém e Coimbra. Com rajadas de vento próximas dos 180 km/h, o fenómeno provocou várias mortes, centenas de feridos e desalojados, e danos materiais avultados. No concelho de Leiria, o mais afetado, cerca de 450 mil clientes ficaram sem eletricidade.

Para além das infraestruturas elétricas, os serviços básicos de comunicação colapsaram: rede fixa e móvel, internet e sistemas de emergência ficaram indisponíveis durante dias para uma parcela significativa da população. Famílias perderam contacto com entes queridos, serviços de socorro enfrentaram dificuldades de coordenação e cidadãos não conseguiram aceder a informação crítica ou pedir ajuda. Esta indisponibilidade revelou como a perda de conectividade agrava dramaticamente qualquer crise, demonstrando que a comunicação é um serviço crítico para o nosso modo de vida, tanto profissional como pessoal.

Com as alterações climáticas, eventos meteorológicos extremos como a Kristin tendem a tornar-se mais frequentes e intensos e Portugal, estando na linha da frente atlântica, enfrenta um risco crescente que exige preparação imediata.

Vários casos recentes, desde incêndios a tempestades, demostram que o estado das nossas infraestruturas críticas ainda está longe da resiliência desejada. Os sistemas de comunicação dependem excessivamente de componentes ou serviços críticos, como a energia, por vezes linhas de transmissão singulares, criando pontos únicos de falha. Cortes prolongados de energia, destruição física de cabos de fibra, torres e equipamentos provocam falhas em cascata que afetam simultaneamente vários serviços.

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Os riscos são elevados: tempestades, inundações, falhas técnicas ou até ciberataques podem paralisar regiões e países. A limitada capacidade de resposta automática amplifica a dimensão dos impactos. Em cenários reais, como o observado com a Kristin, a indisponibilidade de comunicações compromete não só a vida quotidiana, mas também a resposta de emergência, a continuidade de empresas e a prestação de serviços públicos essenciais, com particular impacto em localidades remotas, em situações como estas ficam completamente isoladas.

A boa notícia é que sabemos exatamente como resolver este problema. Há décadas, as empresas e instituições públicas têm aplicado estes princípios nos seus sistemas de Tecnologias de Informação (IT). Implementaram estratégias de resiliência comprovadas para garantir operação contínua. Recorrem a redundância energética (UPS e geradores com failover automático), computação em clusters distribuídos, armazenamento com replicação geográfica, aplicações desenhadas para recuperação automática e, sobretudo, redes com múltiplas ligações por vias distintas. A falha de um ou mais componentes não compromete o serviço global, estando definidos níveis de mitigação que asseguram a qualidade do serviço em cada estado de funcionamento.

Identificamos, assim, um segundo ponto muito importante para a resiliência efetiva, a visibilidade, isto é, a capacidade de acompanhar, em tempo real, todos os sistemas de forma holística e medir de forma concreta a qualidade de serviço, para, em tempo útil e preventivamente, mitigar qualquer erro, falha ou ataque, e também notificar as pessoas e comunidades sobre o que devem esperar e passos a realizar se necessário.

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Podemos – e devemos – aplicar os mesmos princípios ao plano dos serviços de comunicação. Isto significa adotar meios de conectividade múltiplos com os operadores e caminhos de transmissão redundantes (terrestres, rádio e satélite). A utilização de meios de transmissão diversificados com arquiteturas autossuficientes, permite assegurar resiliência para diferentes incidentes e impactos e, dessa forma, aumentar a capacidade de resposta numa altura de incerteza, tanto quanto a fenómenos da natureza, como geopolíticos, ou até ciberataques. O resultado é uma resiliência assegurada: serviços que permanecem operacionais mesmo perante a perda de componentes específicos ou de uma rede inteira, com recuperação rápida e impacto idealmente mínimo para os utilizadores.

A ideia de que todas as falhas são evitáveis é limitativa e até mesmo contraproducente, mas haver planos de ação, tanto para instituições como pessoas, transmite confiança nos momentos de crise, e permite a preparação. Por exemplo, da mesma forma que diversas localidades já tem planos de evacuação para tsunami, também devemos criar locais comunitários capazes de assegurar água, eletricidade e comunicação em casos de emergência. Estes locais podem ter um valor incalculável para as pessoas afetadas e tornar-se pontos de apoio e até de resiliência central, para a partir daí servir as comunidades.

Estas são práticas já utilizadas em IT para ativar em casos de desastre. O setor tecnológico dispõe do conhecimento técnico, das capacidades inovadoras, dos princípios metodológicos e de soluções maduras para superar estas vulnerabilidades. Com a colaboração empenhada entre todas as entidades – provedores, empresas, entidades públicas e reguladores –, e com a vontade coletiva de investir na resiliência, podemos transformar as nossas redes de comunicação num pilar sólido de segurança nacional.

Investindo na resiliência das nossas redes, garantimos que todos os serviços operem continuamente, protegendo as necessidades críticas da população perante qualquer desafio futuro. É um objetivo alcançável, urgente e que beneficiará toda a sociedade.

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