Um novo laboratório sino-português inaugurado hoje em Macau quer ajudar a desenvolver tecnologia que pode levar à criação de um “avião elétrico” e supercomputadores sustentáveis.
O novo laboratório sino-português de optoeletrónica vai juntar o Instituto de Nanoestruturas, Nanomodelação e Nanofabricação (i3N) da Universidade Nova de Lisboa (UNL) e o Instituto de Ciências e Engenharia de Materiais da Universidade de Ciência e Tecnologia de Macau (MUST, na sigla em inglês).
Segundo Rodrigo Martins, coordenador do i3N-NOVA e Presidente da Academia Europeia de Ciências, a iniciativa pretende impulsionar uma tecnologia emergente capaz de transformar setores estratégicos, desde a aviação elétrica até aos supercomputadores de baixo consumo energético, enquanto reforça a ligação científica entre Portugal, Macau e a China.
A optoeletrónica é o estudo e aplicação de aparelhos eletrónicos que fornecem, detetam e controlam luz, incluindo os computadores do futuro, que poderão funcionar com luz e não só com transições eletrónicas.
Entre os projetos em desenvolvimento, Martins apontou o sonho de criar um avião elétrico, dependente de sistemas de armazenamento ultraleves, como baterias feitas de papel.
“Com as baterias atuais seria impossível levantar voo. Estamos a desenvolver sistemas ultraleves, incluindo baterias feitas de papel, no âmbito do Plano de Recuperação e Resiliência (PRR)”, destacou o cientista.
Martins referiu também a necessidade de repensar os supercomputadores, que hoje consomem “mais energia do que a cidade de Lisboa”, destacando que o “caminho não é a energia nuclear, mas sim novos componentes eletrónicos de ultra baixo consumo.”
Martins e a esposa, a cientista Elvira Fortunato, são conhecidos por terem inventado com colegas em 2008 o chamado “papel eletrónico”, o primeiro transístor feito de papel.
O académico acrescentou que estas tecnologias têm também aplicações espaciais, nomeadamente em satélites.
“Folhas flexíveis de polímero podem substituir o silício, sendo mais resistentes à radiação cósmica e mais leves. Temos um projeto chamado Jump into Outer Space que explora exatamente isso”, disse o investigador.
Uma parceria da Nova e várias universidades italianas, francesas e alemãs, o projeto Jump into Outer Space quer desenvolver células solares ‘tandem’ totalmente em ‘perovskite’, leves, flexíveis e eficientes, integradas em substratos fotónicos resistentes para uso em órbita baixa.
Estas soluções prometem revolucionar a energia solar espacial, alimentando desde satélites e sistemas de propulsão até centrais solares, capazes de fornecer energia contínua à Terra e apoiar bases na Lua ou em Marte.
Shuit-Tong Lee, reitor do Instituto de Ciência e Engenharia de Materiais da MUST, sublinhou à Lusa a importância da parceria para a diversificação económica de Macau.
“Macau quer desenvolver alta tecnologia como forma de diversificar para além dos casinos. A optoeletrónica é uma das apostas para esse futuro. Temos um grupo dinâmico de pesquisa e a Universidade Nova é uma das melhores da Europa nesta área. Esta colaboração é um passo importante para o nosso desenvolvimento”, disse.
Martins destacou que a NOVA pretende que o laboratório seja uma “ponte” que una a China a Portugal e à Europa, “atraindo os melhores talentos e beneficiando o desenvolvimento” da área em Portugal.
“Mas o grande mercado do futuro está na China, e, se não tivermos olhos para ver isso, não sei bem o que vamos fazer”, sublinhou.
O investigador recordou ainda a importância das parcerias já em curso com instituições chinesas, como a Universidade de Wuhan, onde é conselheiro cientifico.
“Abrimos também ‘hubs’ em Hefei e Chongqing. A Europa precisa dos grandes talentos que existem na China e nós precisamos de saber explorar melhor este novo mercado”, apontou.
Elvira Fortunato destacou, por outro lado, que a China “teve um crescimento tecnológico exponencial nos últimos 20 anos” e é hoje líder em várias setores tecnológicos.
“A ciência é global e não tem barreiras. É preciso trabalhar em conjunto para um mundo melhor, seja na China, Portugal, na Rússia ou nos Estados Unidos. A diplomacia científica pode muitas vezes ajudar a resolver problemas muito difíceis”, indicou a antiga ministra portuguesa da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior (2022-2024).



