Inteligência Artificial na Educação Superior: inovar com ética e responsabilidade

Opinião de Maria João Santos, Professora Adjunta na ESSATLA, Escola Superior de Saúde Atlântica

Executive Digest

Por Maria João Santos, Professora Adjunta na ESSATLA, Escola Superior de Saúde Atlântica

A inteligência artificial já entrou na educação superior. Entrou depressa, quase sem pedir licença, e instalou-se no quotidiano académico de estudantes e docentes. Hoje, escreve, resume, organiza, sugere, traduz e responde em segundos. E é precisamente por isso que o debate se tornou incontornável: não basta perguntar o que a IA consegue fazer, é preciso perguntar o que deve fazer no espaço da educação.

Enquanto docente, vejo esta realidade não como uma ameaça inevitável, mas como um desafio ético e pedagógico. A educação superior não pode limitar-se a seguir a inovação tecnológica como quem acompanha uma tendência, devendo fazer o que sempre lhe competiu: pensar criticamente, questionar, orientar e formar com responsabilidade, para o uso competente e ético.

Falar de inteligência artificial na educação superior é falar de integridade académica, autoria, transparência, justiça e responsabilidade. Quando um estudante utiliza IA para estruturar um trabalho, gerar texto ou organizar ideias, não está apenas a recorrer a uma ferramenta. Está a entrar e a explorar um território novo, onde os limites entre apoio e substituição do pensamento podem tornar-se indesejavelmente difusos.

É verdade que a IA pode ser útil e facilitadora no acesso à informação, apoiar diferentes ritmos de aprendizagem e ajudar docentes e estudantes a gerir melhor o tempo e os recursos. A UNESCO tem insistido numa visão centrada no ser humano no uso da IA na educação e na investigação, sublinhando que estas tecnologias devem apoiar a aprendizagem sem substituir a autonomia, a criatividade e o pensamento crítico. Mas há uma linha que não pode ser ultrapassada: inovar não pode significar, desistir de pensar. Quando a inteligência artificial deixa de ser apoio e passa a ser atalho, perde-se algo de essencial. Aprende-se menos, questiona-se menos, reflete-se menos. E uma educação superior que se habitue a respostas imediatas, sem profundidade nem discernimento, corre o risco de formar utilizadores competentes tecnologicamente, mas não pessoas intelectualmente autónomas.

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É neste ponto que ganha especial relevância a reflexão de Arianna Valentini e Alep Blancas, do Instituto Internacional da UNESCO para a Educação Superior na América Latina e no Caribe, que sublinham que a educação superior deve promover competências em inteligência artificial que ultrapassem o domínio técnico, integrando também valores, sentido crítico e responsabilidade ética. O essencial está aqui: não basta ensinar a usar ferramentas; é preciso educar com ética para o seu uso.

Este é, para mim, o verdadeiro centro da discussão. Educar para o uso ético da IA significa ensinar a questionar resultados, validar fontes, reconhecer limites, proteger dados, respeitar a autoria e assumir responsabilidade pelo conhecimento produzido. Significa recordar que nenhuma tecnologia substitui o pensamento crítico, o discernimento ético e a consciência pessoal.

Também me preocupa que esta realidade possa acentuar desigualdades. Nem todos os estudantes têm o mesmo acesso, a mesma literacia digital ou a mesma maturidade crítica para utilizar estas ferramentas de forma consciente. Por isso, a resposta não pode estar nem na proibição absoluta nem na aceitação ingénua. A resposta tem de estar na formação, na orientação e na responsabilidade institucional.

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As instituições de educação superior têm, por isso, um papel decisivo. Precisam de definir orientações claras, investir na formação de docentes e estudantes e rever modelos de avaliação, valorizando mais o processo, a argumentação, a oralidade e a compreensão genuína. Na União Europeia, o Regulamento Europeu da Inteligência Artificial (AI Act) veio reforçar a necessidade de literacia, responsabilidade e enquadramento ético no uso desta tecnologia, o que suporta que o debate já não é apenas tecnológico: é também educativo, ético e regulatório.

No fundo, esta discussão obriga-nos a regressar ao essencial: qual é a missão da educação superior? Se for apenas produzir rapidez, eficiência e desempenho, então a inteligência artificial parecerá suficiente. Mas se a sua missão for formar pessoas, pensamento crítico, responsabilidade social e consciência ética, então sabemos que a tecnologia, por mais sofisticada que seja, nunca poderá substituir aquilo que é mais humano na educação. A inteligência artificial pode ser uma aliada valiosa. Mas só o será verdadeiramente se for integrada com prudência, competência, ética e responsabilidade pedagógica.

Inovar é necessário. Educar com ética é indispensável

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