Em quatro anos, quase três mil menores apoiados pela Associação Portuguesa de Apoio à Vítima (APAV) reportaram situações de violência sexual, num total de 4.535 crimes associados. Os dados, divulgados pelo ‘Público’, traçam um retrato preocupante: este tipo de crime não só tem um peso significativo, como está a crescer de forma acentuada.
Entre 2022 e 2025, foram identificadas 2.875 crianças e jovens vítimas de abuso sexual, representando 22% dos mais de 13 mil menores acompanhados pela APAV neste período. No total, a instituição registou quase 24 mil crimes contra crianças e jovens — sendo que uma mesma vítima pode estar associada a mais do que um crime.
Crescimento expressivo e transversal
Os números mostram uma tendência clara: os crimes sexuais contra menores aumentaram 85% em apenas quatro anos e já representam cerca de 32% de todos os crimes contra crianças e jovens.
O crescimento é visível em várias tipologias. O abuso sexual de crianças subiu 121%, passando de 390 casos em 2022 para 864 em 2024. Já o abuso de menor dependente ou em situação particularmente vulnerável aumentou quase 120%. Também os crimes associados a conteúdos de abuso sexual — partilhados em formato digital — cresceram 76%, enquanto a pornografia de menores mais do que duplicou.
Apesar desta escalada, a violência doméstica continua a ser o crime mais reportado, representando cerca de 62% do total, com quase 14.800 casos registados no mesmo período.
“São muitas vidas afetadas”
Para Carla Ferreira, gestora da rede APAV CARE, estes dados refletem uma realidade alarmante. “São muitas vidas afetadas por este crime em concreto”, sublinha, destacando o “peso muito significativo” da violência sexual entre os casos acompanhados.
Um dos aspetos mais preocupantes é o contexto em que estes crimes ocorrem. A maioria dos agressores são homens e, em cerca de 40% dos casos, são os próprios progenitores. A violência acontece, frequentemente, dentro do núcleo familiar.
“A casa não é um local seguro para todas as crianças”, alerta a responsável, acrescentando que os abusos continuam, em grande parte, a ser cometidos por pessoas conhecidas das vítimas.
Idade não conta toda a história
Os dados apontam para uma maior incidência na faixa etária dos 11 aos 14 anos, que representa cerca de 31% dos casos. No entanto, esta leitura exige cautela.
Segundo Carla Ferreira, a menor expressão nas idades mais baixas não significa menor incidência, mas pode refletir dificuldades na denúncia. Crianças mais novas têm menos capacidade para reconhecer e comunicar o abuso, o que pode esconder uma realidade ainda mais ampla.
Mais visibilidade — mas também mais casos
O aumento registado pode estar ligado a uma maior consciência social e a uma maior visibilidade das entidades de apoio. No entanto, a APAV sublinha que também há um crescimento real deste tipo de criminalidade.
Além disso, os crimes sexuais continuam a ser dos mais subnotificados. Muitas vítimas só denunciam anos mais tarde, já em idade adulta, o que significa que os números conhecidos podem representar apenas uma parte do problema.
Internet agrava o fenómeno
Outro fator em destaque é o crescimento dos crimes com componente digital, como o aliciamento e a partilha de conteúdos de abuso sexual de menores, que já representam cerca de 15% dos crimes contra crianças.
Neste contexto, a APAV alerta para uma lacuna grave ao nível europeu: a não renovação da exceção que permitia às plataformas digitais detetar automaticamente conteúdos de abuso sexual infantil.
A experiência passada levanta preocupações. Em 2021, quando essa capacidade foi suspensa, as denúncias caíram 58% em apenas sete meses — não porque o crime tenha diminuído, mas porque deixou de ser detetado.
O alerta é claro: a realidade pode ser ainda mais grave do que os números mostram.






