Portugal ‘afoga’ no inverno… mas continua a secar: aumento de 300% na chuva não trava aridez do país

Em fevereiro, a precipitação atingiu, em média, cerca de 300% da normal climatológica — um valor que, à primeira vista, poderia sugerir alívio no risco de seca. Mas não é isso que está a acontecer. Pelo contrário

Revista de Imprensa

Portugal atravessou um dos invernos mais chuvosos das últimas décadas, com janeiro e fevereiro a registarem valores excecionais de precipitação, mas isso não impede o país de avançar, silenciosamente, para um cenário de aridez estrutural. Os dados do Instituto Português do Mar e da Atmosfera (IPMA), citados pelo ‘Jornal de Notícias‘, revelam um paradoxo que começa a tornar-se regra.

Em fevereiro, a precipitação atingiu, em média, cerca de 300% da normal climatológica — um valor que, à primeira vista, poderia sugerir alívio no risco de seca. Mas não é isso que está a acontecer. Pelo contrário.

Chove mais… mas não chega

Os climatologistas Vanda Cabrinha e Ricardo Deus são claros ao jornal diário: este inverno muito chuvoso não altera a tendência de fundo. “Este inverno muito chuvoso não inverte a tendência que aponta para que Portugal continental se torne mais árido no futuro”, sublinham.

A explicação está na forma como a chuva cai — e no que acontece depois. Num clima mais quente, a atmosfera retém mais vapor de água, o que se traduz em episódios de precipitação intensa e concentrada. Chove muito, mas em pouco tempo. E essa água, em vez de infiltrar e alimentar reservas, escorre rapidamente, evapora e perde-se.

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O problema invisível: a água que desaparece

O fator decisivo não é apenas a quantidade de chuva, mas o balanço entre o que cai e o que se perde. E é aqui que Portugal está a mudar.

“A evolução do balanço hídrico climático continua a ser dominada pelo aumento da temperatura do ar e consequente aumento da evapotranspiração”, explicam os especialistas. Ou seja, o país pode até receber mais episódios de chuva intensa, mas perde cada vez mais água para a atmosfera.

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É esta equação — menos retenção, mais perda — que está a empurrar o território para a aridez.

Sul na linha da frente — mas o problema é nacional

Os sinais acumulam-se ao longo das décadas. Desde 1941, aumentaram os períodos de seca e a sua extensão territorial. Seis dos dez anos mais secos desde 1931 ocorreram já depois de 2000.

O sul do país, especialmente Alentejo e Algarve, está na linha da frente desta transformação, com menos precipitação, mais evaporação e secas mais prolongadas. Mas o fenómeno não se limita a estas regiões — é uma tendência nacional.

Na Península Ibérica, o cenário é ainda mais expressivo: cerca de 37% do território já apresenta clima semiárido e, no pico do verão, mais de dois terços tornam-se áridos ou hiperáridos.

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Tempestades são “paliativos”, não solução

Apesar do impacto imediato das chuvas — barragens mais cheias, rios com caudal elevado — os especialistas alertam que estes episódios são apenas um alívio temporário.

“Embora o inverno húmido reduza significativamente o risco de seca num curto prazo, o risco estrutural de seca mantém-se elevado a médio e longo prazo”, avisam.

Há outro problema: a intensidade da precipitação dificulta a infiltração da água no solo, essencial para recarregar aquíferos subterrâneos. E quando o calor regressa, como aconteceu na Páscoa, acelera-se a perda do que foi acumulado.

“A compensação de défices acumulados ao longo de vários anos secos é, em geral, incompleta”, sublinham.

Menos chuva… mas mais extrema

As projeções climáticas apontam para um futuro ainda mais irregular: menos precipitação anual — até menos 15% nos cenários mais pessimistas — mas com episódios mais intensos.

Menos dias de chuva, mais extremos. Secas mais longas, intercaladas com tempestades violentas. É esta a nova realidade climática do Mediterrâneo.

O paradoxo que define o futuro

Para os especialistas, não há contradição: há uma nova lógica climática. “Um clima mais quente pode conduzir simultaneamente a episódios de precipitação mais intensa e a um aumento do risco de aridez no longo prazo”, explicam.

Portugal entra assim numa equação difícil: períodos de chuva extrema que causam danos imediatos, seguidos de falta estrutural de água.

A questão deixa de ser apenas meteorológica. Torna-se económica, social e política: como gerir um país onde a água chega em excesso — mas não fica?

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