O Presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, ameaçou desencadear o “inferno” sobre o Irão caso Teerão não cumprisse o prazo fixado para reabrir o Estreito de Ormuz à navegação internacional. Perante o agravamento da crise energética e militar na região, a Ucrânia colocou-se disponível para ajudar a desbloquear uma das rotas marítimas mais estratégicas do mundo.
Há mais de uma semana, o Presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, tem reiterado que Kiev está pronta para discutir soluções para reabrir o Estreito de Ormuz, cuja circulação foi fortemente afetada desde o início da guerra com o Irão. Contudo, até ao momento, a Ucrânia não recebeu qualquer pedido formal de intervenção.
“Nossa sinalização aos Estados Unidos e aos países do Médio Oriente sobre o Estreito de Ormuz foi que estávamos abertos a discutir o assunto”, afirmou Zelensky na rede social X, acrescentando que, até sexta-feira, nenhum país solicitou apoio direto.
Experiência do corredor de cereais no mar Negro
Zelensky sublinhou que nenhum país conseguirá, isoladamente, levantar o bloqueio atual. O chefe de Estado recordou a experiência ucraniana no lançamento do chamado Corredor de Cereais no mar Negro, criado “apesar das tentativas da Rússia de bloquear o fluxo de alimentos e outros bens”.
“A situação agora é semelhante, mas trata-se de energia”, afirmou. Segundo Zelensky, “a guerra e as negociações sobre a reabertura do Estreito de Ormuz podem avançar em paralelo”.
Em alternativa a um acordo negociado, o Presidente ucraniano admitiu a possibilidade de controlo unilateral da via marítima, à semelhança do que Kiev fez no mar Negro. “Um passo alternativo seria controlar o estreito unilateralmente, como a Ucrânia fez com o Corredor de Cereais. Para isso seriam necessários intercetores, comboios militares de escolta, uma vasta rede integrada de guerra eletrónica e outras ferramentas”, explicou.
No verão de 2022, Rússia, Ucrânia, Turquia e Nações Unidas assinaram a Iniciativa dos Cereais do Mar Negro, que permitiu exportações seguras de cereais ucranianos para os mercados mundiais, contribuindo para reduzir os preços globais dos alimentos. O acordo acabou por ser interrompido um ano depois, quando Moscovo abandonou a iniciativa e declarou que consideraria qualquer navio com destino à Ucrânia como potencial alvo militar.
Zelensky revelou que a Rússia utilizou “uma vasta gama de equipamentos para o bloqueio, não apenas navios de guerra”. Ainda assim, a Ucrânia conseguiu estabelecer novas rotas de exportação. “Paralisámos a frota russa do mar Negro e empurrámo-la para longe do corredor”, afirmou. “Depois organizámos comboios para navios civis, usando drones marítimos para contrariar helicópteros russos e outras armas ofensivas.”
Desde então, o corredor de segurança alimentar permanece sob controlo ucraniano.
“Podemos partilhar esta experiência com outros países, mas ninguém nos pediu para ir ajudar no Estreito de Ormuz. Os parceiros apenas nos pediram que partilhássemos o nosso conhecimento”, frisou.
Que meios pode Kiev mobilizar?
Desbloquear o Estreito de Ormuz implicaria, muito provavelmente, operações de desminagem, neutralização de ameaças ao longo da costa iraniana e, sobretudo, defesa em tempo real das embarcações comerciais.
É precisamente neste domínio que Kiev considera ter vantagem operacional. Com o Irão a recorrer intensivamente a drones do tipo Shahed, a capacidade de interceção torna-se crítica, sobretudo em zonas do estreito onde os navios navegam muito próximos da costa iraniana e onde um ataque pode atingir o alvo em poucos minutos.
A experiência da Ucrânia na defesa contra drones rápidos, de curto alcance e baixo custo poderá revelar-se particularmente relevante para os Estados Unidos e para os países do Golfo.
Um elemento central dessa estratégia são os drones navais ucranianos. As forças de Kiev operam atualmente vários sistemas não tripulados de superfície, capazes de realizar ataques kamikaze contra navios de guerra ou, em versões adaptadas, lançar drones FPV ou transportar sistemas de defesa aérea.
Entre os modelos mais conhecidos estão o Magura V5, o Sea Baby e o Mamay. Estes drones já demonstraram capacidade para destruir embarcações de grande porte, como o navio de desembarque russo Caesar Kunikov. Segundo especialistas militares, estes sistemas poderiam ser adaptados para proteger a navegação comercial no Estreito de Ormuz, operando em proximidade com os navios e garantindo cobertura permanente.
Zelensky confirmou que os drones navais integram os acordos de defesa assinados na semana passada com países do Golfo.
Acordos com o Golfo e ambição geopolítica
No início de março, Kiev anunciou acordos de cooperação de dez anos com a Arábia Saudita, o Qatar e os Emirados Árabes Unidos. No âmbito desses compromissos, a Ucrânia comprometeu-se a fornecer um sistema completo de defesa aérea, incluindo drones marítimos, tecnologia de guerra eletrónica e soluções de interceção contra drones iranianos.
Alguns desses sistemas, segundo Zelensky, podem contribuir diretamente para a reabertura do Estreito de Ormuz.
Para Kiev, estes acordos representam uma oportunidade estratégica para expandir as exportações do setor da defesa a nível global, reforçar financeiramente a indústria militar nacional e melhorar simultaneamente a sua própria defesa contra mísseis balísticos russos.
A Ucrânia procura ainda aproveitar a conjuntura da guerra com o Irão e a escalada no Médio Oriente para consolidar o seu papel geopolítico, transitando de país recetor de ajuda militar para fornecedor de soluções de segurança.




