Juan-Galo Macià: “Portugal continua no topo das escolhas dos investidores internacionais”

Numa conversa à distância com a Executive Digest, Juan-Galo Macià, presidente da Engel & Völkers América Do Sul e Ibéria, analisa os resultados de 2025, os desafios do mercado imobiliário e as prioridades estratégicas da empresa para este ano.

João Silva Gil

Com uma procura externa (ainda) em crescimento, um segmento premium resi­liente e todo um novo conceito de luxo centrado no bem-estar e na sustentabili­dade, a Engel & Völkers reforçou em 2025 a sua posição em Portugal.

Que balanço faz de 2025 relativamente aos resultados obtidos nas regiões que dirige e, particularmente, em Portugal?

Em 2025, a Engel & Völkers mostrou, mais uma vez, um claro aumento nas suas operações em Portugal em compa­ração com o ano anterior. Neste sentido, acredito que este aumento reflecte a robustez da marca em Portugal e a ca­pacidade da equipa para responder às necessidades de clientes cada vez mais exigentes e de um mercado cada vez mais sofisticado e competitivo.

Quais foram os principais motores de crescimento, assim como os maiores obstáculos, para a operação portuguesa no ano passado?

Relativamente aos principais motores de crescimento diria que a forte procura e a atracção do país internacional­mente foram os aspectos que mais contribuíram para o crescimento da operação portuguesa.

Continue a ler após a publicidade

No que diz respeito aos maiores obs­táculos, destaco sobretudo a escassez de produto, uma vez que a procura se mantém muito superior à oferta dispo­nível, e o custo de construção.

A marca actua no segmento premium há mais de 40 anos. Como reagiu este sector em Portugal às diferentes mudan­ças – económicas, legislativas e outras – ocorridas no último ano?

O ano de 2025 ficou marcado por ajus­tes a nível económico e legislativo, mas também pela incerteza internacional. No entanto, esta conjuntura mostrou, mais uma vez, uma forte resiliência e uma excelente capacidade de adaptação do sector.

Continue a ler após a publicidade

A nível económico, assistimos a uma estabilização das taxas de juro ao longo do ano, que trouxe de volta uma maior previsibilidade às decisões de investi­mento. Além disso, no segmento pre­mium, foi possível verificar que a procura se manteve, sustentada sobretudo por clientes com uma maior capacidade financeira e que têm uma perspectiva do imobiliário como activo seguro.

Em termos legislativos, é importante sublinhar que o foco da maioria das medidas adoptadas esteve na habitação acessível e no equilíbrio do mercado residencial, e essas mudanças têm um impacto limitado no segmento premium. Ainda assim, o fim de alguns incentivos fiscais, contribuiu para uma evolução do perfil do comprador que, agora, opta por se focar mais na qualidade de vida, na estabilidade e no valor patrimonial do investimento. Ao mesmo tempo, assis­timos a uma transformação do próprio conceito de luxo, com maior procura por imóveis sustentáveis, tecnologicamente avançados e orientados para o bem-estar.

Resumindo, 2025 foi um ano de con­solidação para o mercado imobiliário premium em Portugal e reforçou o seu posicionamento como mercado maduro, atractivo e alinhado com diversas tendências internacionais.

«2025 FOI UM ANO DE CONSOLIDAÇÃO PARA O MERCADO IMOBILIÁRIO PREMIUM EM PORTUGAL, REFORÇANDO O SEU POSICIONAMENTO COMO UM MERCADO MADURO, ATRACTIVO E ALINHADO COM AS TENDÊNCIAS INTERNACIONAIS»

O Shop system é uma imagem de marca desde 1996; qual o balanço da expansão de lojas físicas em Portugal o ano passado?

Continue a ler após a publicidade

Em 2025, a Engel & Völkers continuou a consolidar a sua presença no mercado português de forma estratégica, manten­do as suas operações e adaptando-se às dinâmicas locais. Foi inaugurada uma segunda loja em Tavira, reforçando a aposta em localizações que combinam atractividade turística e relevância para os clientes. Além disso, estamos a traba­lhar em novas inaugurações para 2026.

Como avalia o impacto da Academia Engel & Völkers na qualidade do serviço prestado pelos consultores em Portugal?

A Academia é uma plataforma de for­mação interna para toda a rede Engel & Völkers onde disponibilizamos diversas ferramentas que consideramos indispensáveis ao nosso trabalho e cursos para garantir a formação contínua dos colaboradores e onde transmitimos os principais valores e as melhores prá­ticas da marca.

Acredito que é uma ferramenta indispensável, seja em que mercado for, preci­samente pela partilha de conhecimento, que é tão importante na nossa profissão.

Quais os objectivos estratégicos prioritários para a Engel & Völkers Portugal em 2026?

Este ano, o nosso foco é, acima de tudo, dar resposta à crescente exigência e sofisticação do sector onde nos inserimos. Acredito que, em 2026, a procura manterá a sua tendência de crescimento sobretudo em zonas de referência e marcadamente costeiras e impulsionada, sobretudo, por investidores internacionais que valorizam a qualidade de vida, a segurança e o património.
Além disso, pretendemos continuar a investir na melhoria da experiência do cliente, combinando inovação digital com a proximidade e o factor humano que distinguem a Engel & Völkers.

O CEO do grupo, Jawed Barna, fala muito na inovação digital; que ferramentas tecnológicas inovadoras podemos esperar ver implementadas em Portugal este ano?

A inovação é um pilar estratégico para a Engel & Völkers, e Portugal acompa­nha essa visão. Neste caso, o nosso foco passa por utilizar a tecnologia como uma ferramenta que melhora não só a experiência do cliente como capacita os consultores. Ao longo de 2026, preten­demos continuar a reforçar as soluções que tornam os processos mais eficientes, transparentes e personalizados.

Sublinho ainda que a tecnologia não substitui o factor humano, muito menos numa profissão como a nossa, onde o contacto humano é tão fundamental. Posto isto, tendemos a focar a sua utiliza­ção para libertar tempo, para aumentar o rigor da informação e para elevar o nível de serviço que prestamos.

Existe algum plano de expansão para novas localizações ou distritos em Por­tugal onde a marca ainda não tenha uma presença forte?

Neste momento, a prioridade da Engel & Völkers passa, acima de tudo, por acompanhar de perto a evolução do mercado e da procura.

Em Portugal, temos assistido a uma maior valorização de projectos com uma boa localização e com características diferenciadoras, o que leva a marca a olhar o crescimento de forma criteriosa, rigorosa e faseada.

Qualquer decisão futura será sempre tomada com base na solidez do merca­do, na qualidade das localizações e no potencial de longo prazo, mais do que numa lógica de expansão rápida.

«PORTUGAL É DOS PAÍSES MAIS PROCURADOS POR INVESTIDORES ESTRANGEIROS. O ESTILO DE VIDA, O CLIMA, A PROXIMIDADE DO MAR E A SEGURANÇA SÃO FACTORES DETERMINANTES NAS DECISÕES DE INVESTIMENTO»

Como pretende a Engel & Völkers refor­çar a sua posição enquanto «plataforma­-líder» para consultores imobiliários, já este ano?

Queremos fortalecer a nossa posição através do investimento contínuo em formação, do aprimoramento da utili­zação das ferramentas digitais nas nossas operações e num modelo de suporte que permita aos consultores continuar a dar prioridade ao que é mais importante para nós: garantir o acompanhamento e aconselhamento de excelência de todos os nossos clientes.

De que forma a integração da gestão entre a Península Ibérica e a América do Sul poderá criar sinergias para o mercado português este ano?

Esta integração permite tanto a partilha de conhecimento, como a partilha de melhores práticas. Além disso, permite também o acesso a uma rede internacio­nal mais ampla, que reforça a captação de clientes e investidores internacionais para Portugal.

Quais são actualmente os segmentos mais procurados?

O segmento residencial premium ainda é o segmento de maior peso, em particular em zonas urbanas de referência e em zonas marcadamente costeiras.

Quais as previsões para a evolução dos preços nos próximos dois a cinco anos em Portugal?

Na Engel & Völkers acreditamos que os preços das habitações tenham uma valorização moderada e sustentada. Além disso, diria que esta valorização será mais intensa, sobretudo em localizações com oferta mais limitada e elevada procura.

De que forma a economia, as taxas de juro e a demografia podem alterar o mercado imobiliário português no curto e médio prazo?

Acredito que estes factores terão im­pacto, acima de tudo, em termos da selectividade e da exigência do mercado imobiliário português. Além disso, a estabilização das taxas de juro e a atracção de residentes e investidores inter­nacionais deverão continuar a sustentar a procura, mas com decisões mais pon­deradas e menos especulativas.

A Engel & Völkers está presente em mais de 35 geografias; como é que Portugal se posiciona no radar dos investidores internacionais da rede?

Portugal é um dos países mais procura­dos por investidores estrangeiros, isso é um facto. Entre as geografias onde estamos presentes, diria que é um dos primeiros a ser referido aquando da procura internacional.

O estilo de vida, o clima, a proximi­dade do mar e a segurança que Portugal oferece continuam a ser factores que pe­sam muito nas decisões dos investidores.

Como está a evoluir o investimento estrangeiro no imobiliário português e que efeitos tem no mercado interno?

Na nossa óptica, o investimento estrangeiro continua e vai continuar a desempenhar um papel muito relevante no imobiliário português, mesmo com um perfil cada vez mais selectivo e informado. A presença dos investidores estrangeiros tem contribuído não só para a valorização do mercado, mas também para a reabilitação urbana e para a qualificação da oferta, embora exija também um bom equilíbrio para garantir a sustentabili­dade do mercado interno.

Sente que a «exclusividade», um dos vossos valores centrais, continua a ser o factor principal para atrair o cliente estran­geiro para o mercado português?

Sem dúvida. Actualmente, os clientes dão cada vez mais importância à perso­nalização e à exclusividade. Procuramos transmitir aos consultores, desde o pri­meiro dia, que a exclusividade e o luxo podem ser características dos imóveis mas, acima de tudo, são qualidades que têm de estar presentes no atendimento que prestamos aos nossos clientes e isso faz toda a diferença.

Quais as grandes tendências que observa no imobiliário de luxo internacional e que chegarão a Portugal em breve?

As grandes tendências internacionais já se começam a sentir e a impactar o mercado nacional, nomeadamente o foco, cada vez maior, no bem-estar e na experiência que o imóvel oferece. Além disso, internacionalmente, verifica-se igualmente uma procura cada vez mais acentuada por imóveis que conciliam localização prime com sustentabilidade, tecnologia e flexibilidade de utilização.

Outra tendência que encontramos nou­tros países e que se começa a consolidar em Portugal é alteração do paradigma no conceito de luxo. Este deixou de ser apenas um sinónimo de «exclusividade» e de depender apenas do valor do imóvel, e passa a integrar factores como eficiên­cia energética, integração com a natu­reza, privacidade e qualidade de vida.

Diz que o principal activo de uma empre­sa é o capital humano; como é que aplica esta filosofia na gestão das equipas que dirige em Portugal e na América do Sul?

Sempre acreditei, e acreditarei, que o sucesso de uma organização depende directamente das pessoas que a integram e que a constroem todos os dias. Por isso, para mim, torna-se fundamental garantir um forte investimento em for­mação contínua, no desenvolvimento de competências de liderança e na criação de ambientes de trabalho baseados na confiança, autonomia e responsabili­dade. Seja em Portugal, Espanha ou na América do Sul, procuro acima de tudo garantir o bem-estar dos colaboradores, promover uma gestão próxima que va­lorize o talento, incentive o crescimento profissional e permita que cada pessoa se sinta parte activa da estratégia e dos resultados da empresa.

Afirma que o seu objectivo é conseguir resultados com «pessoas felizes»; como é que se consegue garantir que a rede de pessoas que dirige mantém essa cultura?

Como referi, anteriormente, acredito que bons resultados e resultados consis­tentes só são possíveis quando existe um equilíbrio perfeito entre desempenho, bem-estar e propósito, e acredito que na Engel & Völkers temos conseguido priorizar estes pilares através de uma comunicação clara e transparente, do reconhecimento do mérito, da promoção do equilíbrio entre vida profissional e pessoal e do sentimento de pertença. É por isso que me alegra imenso que a Engel & Völkers seja reconhecida nova­mente pela Best Workplaces como uma das melhores empresas para trabalhar em Portugal.

Sendo uma pessoa que se considera «inquieta» e com a «cabeça a dois mil», como é que o desporto (ciclismo) o ajuda na tomada de decisões estratégicas?

O desporto ajuda-me a ganhar distância. Na empresa, tal como no ciclismo, há mo­mentos de máxima intensidade e outros em que é melhor controlar, observar e pensar a longo prazo. Muitas decisões estratégicas não são tomadas numa reunião, mas sim quando a cabeça está organizada. E, para mim, esse espaço é proporcionado pelo desporto.

Disse que é preciso viver cada minuto com intensidade. Qual foi o momento mais intenso e desafiante da sua carrei-ra na Engel & Völkers desde que entrou em 2012?

Quando me juntei à empresa, a Engel & Völkers tinha um enorme potencial na Península Ibérica, mas o verdadeiro desafio era profissionalizar e crescer de forma sustentada num contexto econó­mico complexo. Houve decisões difíceis, mudanças estruturais e momentos de muita pressão. Olhando em retrospec­tiva, foi também o período que mais nos fez crescer como equipa e como empresa.

Como é que a sua experiência anterior na banca (com passagens pelo CaixaBank, BBVA e Citibank) impacta a forma como gere, hoje, o negócio imobiliário?

A minha passagem pelo sector bancário proporcionou-me uma base muito sólida no domínio da análise financeira, da gestão de risco e da visão global. Ac­tualmente, o sector imobiliário já não é apenas um produto; é estratégia, finan­ciamento, confiança e antecipação. Essa mentalidade ajuda-me a compreender o negócio de forma integral e a tomar de­cisões mais responsáveis e sustentáveis.

Como pai, como equilibra a gestão em dois continentes (Ibéria e América do Sul) com a vida familiar?

Gerir a Ibéria e a América do Sul implica viajar e muita dedicação, mas também uma grande disciplina pessoal. Tento ser muito consciente do tempo e, quando es­tou com a minha família, estar realmente presente. Eles são o meu principal pilar e também a minha maior fonte de ener­gia. Sem esse apoio, nada teria sentido.

Se pudesse dar um único conselho de liderança aos novos directores de loja em Portugal, baseado na sua «Bíblia Engel & Völkers», qual seria?

Que entendam que liderança não é mandar, mas sim dar o exemplo e servir, o que gosto de chamar de «liderança servidora». A excelência começa sempre pela coerência. Se conseguirem equipas comprometidas, formadas e orgulhosas da marca, o resultado virá por si só.

PERFIL

Juan-Galo Macià nasceu em Madrid em 1975. O seu percurso acadé­mico compreende uma licenciatura em Gestão, Marketing e Relações Públicas, e mestrados nas áreas de Gestão, Negócios e Consultoria Imobiliária, pela IESE Business School, ESIC e UB. Com mais de 30 anos de experiência em gestão empresarial e estratégia, começou a sua carreira na banca e ingressou na Engel & Völkers em 2012. Sob a sua liderança, a empresa duplicou o volume de negócios anual, implemen­tou o primeiro Market Center do mundo e expandiu a sua presença em mais de 20 mercados, como Madrid, Barcelona e Lisboa, tendo concluí­do 13.500 operações em 2024. Defensor de um modelo de liderança colaborativa e da formação contínua, é frequentemente convidado para participar em conferências e fóruns com o objectivo de promover o desenvolvimento de novos talentos no sector imobiliário.

Partilhar

Edição Impressa

Assinar

Newsletter

Subscreva e receba todas as novidades.

A sua informação está protegida. Leia a nossa política de privacidade.