Nova Rússia? Como o Kremlin está a transformar a Ucrânia ocupada

A Rússia está a investir 11,8 mil milhões de dólares para transformar os territórios ocupados da Ucrânia, com mais de 2.500 quilómetros de infraestruturas já construídos ou reabilitados desde 2022.

Patrícia Moura Pinto

A Rússia está a investir centenas de milhões de dólares na construção de infraestruturas de transporte e comércio nos territórios ucranianos ocupados, numa estratégia que visa consolidar o controlo sobre essas regiões e integrá-las de forma progressiva na sua economia. De acordo com a Reuters, este esforço inclui redes ferroviárias, estradas, portos e exploração de recursos naturais.

Mesmo com ataques de sabotagem por parte das forças ucranianas, a construção de uma extensa rede ferroviária continua a avançar. Militares no terreno admitem dificuldades em travar o projeto, dada a sua dimensão.

A chamada rede ferroviária “Novorossiya” inclui uma linha de cerca de 525 quilómetros que atravessa regiões estratégicas como Donetsk, Luhansk, Zaporizhzhia e Kherson. Paralelamente, está em desenvolvimento uma autoestrada de grande escala – o “Anel de Azov” – com cerca de 1.400 quilómetros, destinada a ligar estas áreas à Rússia e à Crimeia.

O Kremlin descreve estes territórios como parte de uma “Nova Rússia”, reforçando a narrativa histórica defendida por Vladimir Putin, que considera estas regiões como parte integrante do país.

A dimensão do investimento é significativa. De acordo com a Reuters, Moscovo destinou cerca de 11,8 mil milhões de dólares entre 2024 e 2026 para o desenvolvimento destas regiões – um valor muito superior ao atribuído a várias regiões dentro da própria Rússia.

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Este investimento inclui mais de 2.500 quilómetros de estradas e linhas ferroviárias construídas ou reabilitadas desde 2022, com base em análises de imagens de satélite e dados oficiais.

Especialistas consideram que este nível de compromisso demonstra que a Rússia não tem intenção de devolver os territórios ocupados à Ucrânia no âmbito de eventuais negociações de paz.

Portos e recursos naturais no centro da estratégia

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A reativação dos portos no Mar de Azov é outro pilar fundamental desta estratégia. Cidades como Mariupol e Berdiansk voltaram a operar sob controlo russo, com obras de modernização em curso.

Têm sido utilizados navios para o transporte de carvão e de cereais a partir destes portos para países como Turquia, Emirados Árabes Unidos e Índia, apesar das críticas de Kyiv.

Além disso, Moscovo está a leiloar ativos estratégicos nas regiões ocupadas, incluindo minas e terrenos agrícolas. Um dos exemplos mais relevantes é a venda dos direitos de exploração de uma mina de ouro em Luhansk, com reservas estimadas em cerca de 1,64 toneladas.

Para além do impacto económico, estas infraestruturas desempenham um papel crucial na logística militar russa. As novas ligações permitem contornar pontos vulneráveis, como a ponte da Crimeia, frequentemente alvo de ataques ucranianos.

Volodymyr Zelenskyy tem criticado estes investimentos, considerando-os uma fachada que serve sobretudo fins militares. Já autoridades ucranianas sublinham que a prioridade russa é garantir cadeias de abastecimento eficientes para sustentar o esforço de guerra.

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Um modelo inspirado na Crimeia

A estratégia segue um padrão semelhante ao adotado após a anexação da Crimeia em 2014, mas com maior rapidez e escala. Infraestruturas energéticas, rodoviárias e ferroviárias estão a ser implementadas num ritmo acelerado.

Segundo responsáveis ucranianos, a Rússia conseguiu em três anos nos territórios ocupados avanços comparáveis aos que demoraram uma década na Crimeia.

Este processo de integração económica e territorial poderá ter implicações profundas nas negociações futuras. Ao criar dependências económicas e logísticas, Moscovo reforça a sua posição e dificulta qualquer tentativa de reversão territorial.

Os especialistas alertam que a exploração de recursos naturais e o desenvolvimento industrial podem tornar a ocupação financeiramente vantajosa para a Rússia, alterando o equilíbrio do conflito.

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