Um jornalista do The Times of Israel foi alvo de ameaças de morte depois de publicar uma notícia sobre um alegado impacto de um míssil iraniano em território israelita, num caso que está a expor os riscos associados ao crescimento dos mercados de apostas online baseados em acontecimentos reais. O repórter Emanuel Fabian, de 28 anos, recebeu mensagens intimidatórias exigindo que alterasse o conteúdo da sua reportagem.
De acordo com o The Washington Post, tudo começou após Fabian noticiar que um míssil iraniano teria atingido uma área aberta perto de Beit Shemesh, nos arredores de Jerusalém, sem causar vítimas. A informação, aparentemente rotineira, acabou por ter impacto direto em apostas realizadas na plataforma Polymarket, onde utilizadores investiam milhões de dólares na previsão de um ataque naquele dia específico.
Nos dias seguintes à publicação, o jornalista começou a receber mensagens de desconhecidos a pedir que revisse a informação. Inicialmente, os pedidos surgiram em tom cordial, com utilizadores a questionarem a veracidade dos dados. No entanto, rapidamente evoluíram para ameaças diretas.
Numa das mensagens, um utilizador que se identificou como “Haim” afirmou que, caso perdesse uma aposta de cerca de 900 mil dólares, investiria “não menos do que isso para te eliminar”. Noutra comunicação, enviada via WhatsApp, o mesmo indivíduo deu um ultimato de 90 minutos para que Fabian alterasse a notícia, alegando conhecer a sua morada e a identidade dos seus familiares.
Perante a pressão, o jornalista admitiu ter ponderado ceder, reconhecendo que a alteração poderia parecer irrelevante à primeira vista. Ainda assim, acabou por recusar, temendo abrir precedentes para novas tentativas de manipulação. “Se o fizesse, iriam voltar a pedir outras alterações”, explicou.
Reportagem desencadeia disputa milionária
A controvérsia centra-se na definição do que constitui um “impacto” de míssil. Embora Fabian tenha relatado a explosão com base em informações de equipas de emergência e imagens de vídeo, alguns apostadores defenderam que poderia tratar-se de destroços de um míssil intercetado — o que, segundo as regras da aposta, não seria contabilizado como impacto.
O desacordo levou a uma escalada de apostas na Polymarket, com valores a ultrapassarem os sete milhões de dólares nos dias seguintes. Alguns utilizadores poderiam ganhar mais de um milhão de dólares dependendo da decisão final do mercado, que assenta num sistema de votação entre detentores de tokens digitais.
Plataformas condenam ameaças
A Polymarket condenou publicamente o comportamento dos utilizadores envolvidos, afirmando que as ameaças violam os termos de serviço da plataforma. A empresa garantiu ter banido as contas associadas ao caso e indicou que irá colaborar com as autoridades.
Num comunicado, a plataforma sublinhou que os mercados de previsão dependem da integridade do jornalismo independente e que qualquer tentativa de pressionar jornalistas compromete não só a informação, mas também o funcionamento destes sistemas.
O caso surge num contexto de crescente polémica em torno dos mercados de previsão, que permitem apostar em eventos como eleições, decisões políticas ou conflitos internacionais. Nos Estados Unidos, legisladores como Chris Murphy e Greg Casar preparam legislação para restringir este tipo de apostas, considerando que criam incentivos perigosos.
A proposta, conhecida como “BETS OFF Act”, pretende limitar apostas sobre acontecimentos sensíveis, incluindo operações militares, e reforçar a supervisão sobre plataformas que operam fora do território norte-americano.
Especialistas alertam para riscos crescentes
Para analistas do setor financeiro e regulatório, este episódio evidencia os perigos de transformar acontecimentos reais — sobretudo ligados a vida e morte — em ativos financeiros. Amanda Fischer considera que o caso demonstra a necessidade urgente de maior controlo, sublinhando o impacto potencial sobre jornalistas.
A especialista alerta que repórteres, especialmente em cenários de guerra, já enfrentam riscos elevados e não devem ser alvo adicional de pressões por parte de interesses financeiros. “A última coisa de que precisam é de pessoas com apostas em jogo a tentar forçar alterações nas notícias”, afirmou.
Jornalista denuncia caso para evitar repetição




