Uma nova sondagem internacional indica uma mudança significativa na perceção global do equilíbrio de poder entre os Estados Unidos e a China. De acordo com uma pesquisa divulgada pelo ‘POLITICO’, grandes segmentos da população no Canadá, Alemanha, França e Reino Unido mostram-se cada vez mais desiludidos com Washington e mais abertos a considerar Pequim como um parceiro mais fiável.
O estudo, realizado em parceria com a empresa de estudos de opinião ‘Public First’, sugere que a mudança de perceção está fortemente ligada às decisões de política externa do presidente americano Donald Trump. Muitos entrevistados afirmam que a aproximação à China não resulta necessariamente de uma maior confiança em Pequim, mas sim da perceção de que os Estados Unidos se tornaram um aliado menos previsível.
Nos quatro países analisados, uma parte significativa da população considera possível reduzir a dependência em relação aos EUA, enquanto vê como muito mais difícil diminuir a dependência da China. Este fator reflete o peso crescente da economia chinesa nas cadeias de abastecimento globais e levanta a possibilidade de um novo realinhamento no equilíbrio do poder internacional.
A política externa da administração Trump tem contribuído para essa perceção entre os aliados ocidentais. Entre os fatores citados estão o atraso na ajuda à Ucrânia, ameaças de sanções económicas a países da NATO, a retirada de organizações internacionais e medidas comerciais agressivas contra parceiros tradicionais.
A China, por seu lado, tem aproveitado o momento para reforçar os laços económicos com a Europa. Pequim organizou fóruns de investimento com países europeus e tem procurado apresentar a relação entre a União Europeia e a China como uma parceria económica, e não como uma rivalidade estratégica.
Alguns analistas acreditam que esta mudança de perceção já começa a refletir-se em decisões políticas concretas. O primeiro-ministro canadiano Mark Carney, por exemplo, anunciou recentemente uma “rutura” nas relações entre Ottawa e Washington e assinou um acordo comercial com Pequim pouco depois.
Também no Reino Unido foram anunciados novos acordos de exportação com a China, enquanto o presidente francês Emmanuel Macron e o chanceler alemão Friedrich Merz regressaram de encontros em Pequim com encomendas de produtos europeus por parte de empresas chinesas.
A pesquisa revela ainda diferenças geracionais importantes. Os jovens adultos entre os 18 e os 24 anos demonstram maior abertura a um relacionamento mais próximo com a China do que as gerações mais velhas. Estudos citados na análise indicam que muitos jovens europeus obtêm informação sobre a China sobretudo através das redes sociais e de plataformas de vídeo curto.
Outro fator que contribui para esta perceção é a convicção de que a China está a ganhar terreno na corrida tecnológica global. Entre os entrevistados na Europa e no Canadá existe um consenso significativo de que Pequim lidera áreas como baterias elétricas, robótica, veículos elétricos e energia solar.
O avanço tecnológico chinês também é visível no campo da inteligência artificial, onde o país tem investido fortemente em investigação e desenvolvimento. Muitos dos participantes na sondagem acreditam que a China poderá ser a primeira nação a desenvolver uma inteligência artificial super-inteligente.
Apesar desta perceção crescente entre aliados ocidentais, os cidadãos americanos continuam a ver o seu país como líder tecnológico global. A maioria dos entrevistados nos Estados Unidos acredita que a tecnologia americana continuará a superar a chinesa nos próximos anos.
A diferença de perceção é particularmente evidente quando se analisa o futuro da liderança mundial. Aproximadamente metade dos entrevistados na Europa e no Canadá considera que a China está a tornar-se rapidamente a potência global dominante. Nos Estados Unidos, pelo contrário, 63% dos inquiridos acreditam que o país continuará a liderar o sistema internacional dentro de uma década, segundo o ‘POLITICO’.
Alguns analistas alertam que a convicção crescente de que a ascensão chinesa é inevitável pode acabar por acelerar esse próprio processo. Se os aliados ocidentais assumirem que a China dominará o equilíbrio global de poder, poderão ajustar as suas políticas externas de forma a aproximar-se de Pequim, reforçando assim a sua influência internacional.




