Mais de 2.000 formigas na mala: o estranho caso que levou à detenção num aeroporto

Um cidadão chinês foi detido no principal aeroporto do Quénia suspeito de tentar contrabandear mais de 2.000 formigas-rainhas vivas para fora do país.

Pedro Gonçalves

Um cidadão chinês foi detido no principal aeroporto do Quénia suspeito de tentar contrabandear mais de 2.000 formigas-rainhas vivas para fora do país. O homem, identificado como Zhang Kequn, foi intercetado durante um controlo de segurança no Aeroporto Internacional Jomo Kenyatta, em Nairobi, depois de as autoridades descobrirem um grande carregamento de insetos vivos na sua bagagem com destino à China, segundo informações avançadas pela BBC.

As autoridades quenianas suspeitam que o detido poderá estar ligado a uma rede internacional de tráfico de formigas que foi desmantelada no país no ano passado. Até ao momento, Zhang Kequn ainda não respondeu formalmente às acusações, mas investigadores afirmaram em tribunal que existem indícios de que o homem terá desempenhado um papel central na operação ilegal.

Durante a inspeção da bagagem, os agentes descobriram centenas de formigas embaladas de forma meticulosa para transporte clandestino. Segundo o procurados do Estado, Allen Mulama, 1.948 formigas-rainhas estavam acondicionadas numa espécie de tubos de ensaio especializados, enquanto outras 300 encontravam-se escondidas em rolos de papel-higiénico, dentro da mesma mala.

O magistrado indicou que os insetos em causa estavam vivos e cuidadosamente preparados de forma a sobreviverem à viagem de avião. As autoridades quenianas consideram que o suspeito poderá estar ligado a uma rede internacional de tráfico de formigas que foi desmantelada no país no ano passado. Até ao momento, Zhang Kequn ainda não respondeu formalmente às acusações, mas investigadores afirmaram em tribunal que existem indícios de que o homem terá desempenhado um papel central na operação ilegal.

A acusação pediu ainda ao tribunal autorização para realizar uma análise forense aos dispositivos eletrónicos do suspeito, incluindo o telemóvel e o computador portátil que tinha consigo, com o objetivo de recolher meios de prova adicionais sobre possíveis contactos ou ligações a redes de tráfico de espécies animais.

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Investigação aponta para rede internacional
As autoridades ambientais quenianas acreditam que o caso poderá fazer parte de uma operação mais ampla de recolha e exportação ilegal de formigas. Duncan Juma, alto responsável do Kenya Wildlife Service (KWS), explicou que a investigação poderá levar a novas detenções à medida que os investigadores aprofundam as diligências em várias localidades do país onde há suspeitas de recolha sistemática destes insetos.

O responsável indicou que existem indícios de que a captura de formigas para venda no estrangeiro tem vindo a aumentar nos últimos anos, sobretudo devido à procura crescente por parte de colecionadores.

As formigas apreendidas pertencem à espécie Messor cephalotes, conhecida como formiga colhedora gigante africana. Estes insetos são considerados importantes para o equilíbrio ecológico, uma vez que contribuem para a fertilidade do solo e para a manutenção da biodiversidade.

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Apesar disso, têm vindo a ganhar popularidade entre colecionadores na Europa e na Ásia, onde algumas pessoas mantêm colónias de formigas como animais de estimação. Devido ao seu papel ecológico e ao risco de exploração excessiva, o comércio destas espécies é fortemente regulado por tratados internacionais de proteção da biodiversidade.

Caso semelhante levou a condenações no ano passado
O caso atual surge pouco tempo depois de um episódio semelhante ter sido julgado nos tribunais quenianos. Em maio do ano passado, quatro homens — dois cidadãos belgas, um vietnamita e um queniano — foram condenados por tentar contrabandear milhares de formigas rainha para fora do país.

Nesse processo, os suspeitos declararam-se culpados após terem sido detidos numa operação descrita pelas autoridades como uma ação coordenada baseada em informação de inteligência. O tribunal condenou os quatro arguidos a um ano de prisão ou ao pagamento de uma multa de 7.700 dólares (cerca de 7.100 euros).

Durante o julgamento, os dois cidadãos belgas afirmaram que estavam a recolher as formigas como hobby e alegaram não ter conhecimento de que a atividade era ilegal.

Os investigadores quenianos acreditam agora que Zhang Kequn poderá ser o cérebro por detrás dessa rede de tráfico de insetos. Segundo as autoridades, o suspeito terá conseguido abandonar o Quénia no ano passado utilizando um passaporte diferente, escapando à investigação inicial.

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Na audiência realizada esta semana, o tribunal autorizou a detenção preventiva do cidadão chinês por cinco dias, período durante o qual os investigadores poderão prosseguir as diligências e recolher mais provas.

Impacto ambiental preocupa autoridades
O Kenya Wildlife Service, organismo responsável pela proteção da fauna no país, sublinhou que a remoção destas formigas do seu habitat natural pode ter consequências ambientais relevantes.

Embora a instituição esteja mais habituada a proteger espécies emblemáticas como leões e elefantes, as autoridades recordam que insetos como as formigas colhedoras gigantes desempenham um papel essencial nos ecossistemas, contribuindo para a circulação de nutrientes no solo e para o equilíbrio da biodiversidade.

No processo anterior, o KWS chegou mesmo a classificar o julgamento como “um caso histórico”, sublinhando a importância de combater o tráfico ilegal de espécies menos mediáticas mas igualmente importantes para o funcionamento dos ecossistemas.

As autoridades acreditam que as formigas apreendidas neste caso tinham como destino final mercados de animais exóticos na Europa e na Ásia, onde colónias de formigas raras podem alcançar preços elevados entre colecionadores especializados.

Com a investigação ainda em curso, as autoridades quenianas não excluem novas detenções nas próximas semanas, à medida que tentam identificar todos os envolvidos numa rede internacional que poderá estar a explorar ilegalmente espécies de insetos protegidas.

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