Multimilionário aliado de Trump leva o Anticristo a Roma: conferências secretas geram polémica

Encontros serão realizados em formato fechado e apenas por convite, com regras rigorosas: os participantes não poderão usar telemóveis, gravar áudio ou vídeo nem tomar notas

Francisco Laranjeira

O multimilionário tecnológico Peter Thiel, cofundador da Palantir e figura influente no universo conservador americano, aliado de Donald Trump chega a Roma para realizar quatro seminários privados sobre o Anticristo e o Apocalipse entre 15 e 18 de março, numa iniciativa que já está a provocar polémica política e institucional em Itália, como relata a ‘Euronews’.

Os encontros serão realizados em formato fechado e apenas por convite, com regras rigorosas: os participantes não poderão usar telemóveis, gravar áudio ou vídeo nem tomar notas. O conteúdo concreto das conferências permanece envolto em secretismo, mas o próprio tema escolhido e o perfil controverso do empresário já desencadearam uma série de reações no país.

Universidade católica afasta-se das conferências

A Pontifícia Universidade São Tomás de Aquino, conhecida como Angelicum, apressou-se a distanciar-se do evento depois de surgirem informações iniciais que apontavam a instituição como possível local dos encontros.

Foi nesta universidade que Robert Prevost — atualmente Papa Leão XIV — concluiu a sua tese de doutoramento em Direito Canónico em 1987. No entanto, o reitor Thomas Joseph White esclareceu rapidamente que a instituição não tem qualquer ligação às conferências.

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“O evento não é organizado pela Universidade, não terá lugar no Angelicum e não faz parte de nenhuma das nossas iniciativas institucionais”, afirmou o responsável num comunicado.

Associação cultural organiza encontros com Thiel

Os seminários foram organizados pela associação cultural Vincenzo Gioberti, sediada em Brescia, em colaboração com a delegação romana da Catholic University of America, universidade privada com sede em Washington.

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Num comunicado citado pela Euronews, a associação descreve Peter Thiel como “o coração das trevas de Silicon Valley” e enquadra as conferências numa reflexão inspirada na tradição do pensamento clássico e cristão.

Segundo a organização, o tema central das palestras será o Anticristo, considerado pelos promotores como um assunto “dramaticamente importante”, numa época em que forças visíveis e invisíveis estariam, alegadamente, empenhadas em destruir o que resta da civilização ocidental.

A associação admite que algumas das posições defendidas por Thiel — como a ideia de que democracia e liberdade deixaram de ser compatíveis — podem parecer chocantes, mas sustenta que essas teses contêm “verdades” que merecem debate.

Oposição exige explicações ao governo Meloni

A visita do empresário pró-Trump não passou despercebida no panorama político italiano. Partidos da oposição exigem esclarecimentos ao governo liderado por Giorgia Meloni sobre eventuais contactos institucionais com o multimilionário.

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O Partido Democrático anunciou que irá apresentar uma interrogação parlamentar para saber se estão previstos encontros oficiais com membros do executivo italiano.

A deputada Elisabetta Piccolotti, da Aliança dos Verdes e da Esquerda, questionou publicamente o propósito da viagem do empresário.

Thiel é cofundador da Palantir, empresa frequentemente envolvida em polémicas devido ao uso das suas tecnologias de análise de dados por governos e agências de segurança. A mesma deputada questiona se a visita poderá estar relacionada com possíveis acordos ou contratos com instituições públicas italianas.

A visão de Thiel sobre o Anticristo moderno

O interesse de Peter Thiel pelo tema do Anticristo não é recente. Em setembro de 2025, o empresário organizou em São Francisco quatro seminários dedicados à figura bíblica.

Durante esses encontros, Thiel apresentou uma interpretação contemporânea da figura apocalíptica, associando-a a instituições e movimentos que, na sua visão, prometem estabilidade e paz, mas acabam por restringir a liberdade individual.

Entre esses exemplos incluem-se a regulamentação tecnológica, a governação global e as políticas de combate às alterações climáticas.

Segundo a Euronews, Thiel chegou mesmo a apontar a ativista climática sueca Greta Thunberg como um símbolo dessa dinâmica, acusando-a de contribuir para o declínio da civilização ocidental.

Quem é Peter Thiel

Nascido na Alemanha e naturalizado americano, Peter Thiel é uma das figuras mais influentes — e polémicas — do ecossistema tecnológico global.

Empresário multimilionário e investidor de risco, foi cofundador do PayPal e da Palantir, empresa especializada em análise de dados que presta serviços a forças armadas e agências governamentais de vários países.

Entre os clientes mais controversos encontra-se a agência de controlo fronteiriço dos Estados Unidos, ICE, frequentemente associada às políticas de imigração mais duras defendidas por Donald Trump.

Thiel destacou-se também como um dos primeiros grandes financiadores da campanha presidencial de Trump em 2016 e como mentor político do atual vice-presidente JD Vance, que anteriormente trabalhou numa empresa de investimento fundada pelo próprio empresário.

Nos últimos anos, o investidor tornou-se igualmente um dos ideólogos mais visíveis de correntes conservadoras e cristãs nos Estados Unidos, defendendo frequentemente visões pessimistas sobre o futuro do Ocidente e alimentando debates sobre o Apocalipse, a crise das democracias liberais e o papel da tecnologia na sociedade.

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