Muitos donos de cães oferecem ossos ou snacks duros aos seus animais acreditando tratar-se de uma opção saudável ou até benéfica para a higiene oral. No entanto, especialistas em medicina veterinária alertam que estes produtos podem provocar fraturas dentárias dolorosas e são uma das razões mais comuns para consultas veterinárias.
A experiência da jornalista Julia Ries Wexler, do Huffington Post, com o seu cão Ollie ilustra bem este risco. O animal, um cruzamento de Australian cattle dog com oito anos, estava habituado a receber regularmente vários tipos de snacks para mastigar. “Bully sticks, chifres de alce, ossos com tutano — o que fosse vendido na loja de animais da minha zona, provavelmente eu comprava”, recorda.
Tudo mudou em 2021, quando decidiu experimentar um snack dentário em forma de roedor, apresentado como uma espécie de “escova de dentes disfarçada” para cães.
Ollie passou vários dias a roer o produto com entusiasmo. Pouco depois de o terminar, porém, algo parecia errado. O cão deixou de comer a ração habitual, começou a rejeitar guloseimas e passou de um animal ativo e cheio de energia para um cão apático e sem interesse nas atividades habituais.
Inicialmente, a dona pensou tratar-se apenas de um sinal de envelhecimento. Tentou diferentes soluções: snacks mais caros e aromáticos e até intensificadores de sabor para a ração. Nada resultou.
Só quando decidiu levar o animal ao veterinário surgiu a explicação.
Após uma avaliação rápida, o médico encontrou uma fratura grave num molar. A lesão tinha sido provocada pelo snack duro que Ollie estivera a mastigar e era suficientemente dolorosa para o impedir de comer normalmente.
Um problema comum entre cães
Segundo o veterinário que avaliou o animal, o caso está longe de ser raro. As fraturas dentárias estão entre os motivos mais frequentes que levam cães ao veterinário e podem provocar dores significativas, dependendo da gravidade da lesão.
A médica veterinária Rebecca Greenstein, conselheira médica da plataforma Rover e veterinária-chefe do Kleinburg Veterinary Hospital, explica que os donos muitas vezes subestimam o desconforto que estas lesões provocam.
“Pense numa dor de dentes numa pessoa e começará a perceber o desconforto que os animais de estimação podem sentir”, afirmou. O conselho da especialista é direto: “Evite os ossos.”
Porque é que ossos duros são perigosos
De acordo com Maria Soltero-Rivera, professora assistente de dentisteria e cirurgia oral na Escola de Medicina Veterinária da Universidade da Califórnia em Davis, a força de mastigação dos cães é impressionante.
Estudos indicam que os maxilares destes animais conseguem exercer uma pressão enorme. Se o objeto que estão a roer não ceder a essa força, o dente pode partir.
Greenstein resume a situação como uma simples questão de física. “Quando um osso é mais duro do que a resistência do dente, o dente acabará inevitavelmente por partir ou sofrer danos durante o processo de mastigação.”
Segundo Soltero-Rivera, as fraturas dentárias são bastante comuns. Na sua prática clínica, estima que cerca de um quarto dos cães apresente este tipo de lesão.
As fraturas afetam normalmente os dentes mais importantes para a mastigação — como os molares posteriores ou os caninos.
Lesões muitas vezes passam despercebidas
Um dos problemas mais frequentes é que os donos raramente se apercebem imediatamente da lesão. Muitas vezes, os veterinários descobrem fraturas durante consultas de rotina.
“Encontramo-las frequentemente por acaso”, explica Greenstein. “Mas podem causar muito sofrimento aos animais, dependendo da gravidade da fratura e de haver exposição da polpa dentária ou irritação do nervo.”
Quando um dente parte, podem ficar expostos vasos sanguíneos ou terminações nervosas, provocando dor intensa. Além disso, pedaços de ossos podem lascar e transformar-se em fragmentos cortantes capazes de provocar feridas na boca ou até no trato digestivo.
Sinais de alerta para os donos
Os veterinários indicam vários sinais que podem revelar problemas dentários em cães:
o animal passa a esfregar o focinho no chão ou nos móveis
- leva frequentemente a pata à boca
- perda de apetite ou menor interesse em brincar
- preferência por alimentos ou brinquedos mais macios
- mastigação apenas de um lado da boca
Se surgir uma infeção, podem ainda aparecer sintomas como mau hálito intenso, inchaço na boca ou sinais gerais de doença.
Nestes casos, o veterinário poderá recorrer a radiografias para avaliar a extensão da lesão. Em situações graves, pode ser necessário extrair o dente ou realizar cirurgia.
Cães maiores correm mais riscos
As fraturas dentárias tendem a ocorrer com maior frequência em cães de grande porte, explica Greenstein. Estes animais são frequentemente classificados como “power chewers”, ou seja, mastigadores muito fortes.
Além disso, os donos de cães maiores têm tendência para lhes oferecer ossos mais resistentes para os manter ocupados, aumentando o risco de fraturas.
Animais com doença dentária pré-existente também são particularmente vulneráveis, uma vez que os dentes já estão fragilizados.
Para os especialistas, a forma mais eficaz de evitar fraturas dentárias é simples: não oferecer ossos extremamente duros aos animais, sejam cães ou gatos.
Escovar os dentes ou dar snacks dentários pode ajudar na higiene oral, mas não impede que um dente se parta ao mastigar algo demasiado rígido.
Ainda assim, a escovagem regular tem uma vantagem importante. Segundo Soltero-Rivera, permite aos donos detetar alterações na boca do animal mais cedo, “idealmente antes de se tornarem uma fonte de desconforto”.
Como escolher snacks mais seguros
Outro problema apontado pelos veterinários é a ausência de normas oficiais que regulem os ossos ou snacks para mastigar disponíveis no mercado.
“É uma situação infeliz, porque os donos podem ser levados a acreditar que um produto é bom para a saúde dentária quando, na realidade, pode facilmente provocar uma fratura”, alerta Soltero-Rivera.
Encontrar um produto que seja simultaneamente fácil de digerir e seguro para os dentes pode ser difícil. Na verdade, Greenstein admite que provavelmente não existe um osso perfeito.
Uma estratégia útil é observar os hábitos de mastigação do animal. Se o cão tem uma mandíbula muito forte e destrói rapidamente todos os brinquedos, quase nenhum objeto para roer será completamente seguro.
Para ajudar os donos a identificar produtos demasiado duros, os especialistas recomendam duas regras práticas.
Primeiro teste: o teste da unha.
Se conseguir pressionar a unha contra o objeto e deixar uma marca, significa que é suficientemente macio para o cão. Se não deixar marca, é melhor evitar.
Soltero-Rivera observa, no entanto, que há exceções, como os rawhides, que amolecem com a saliva. Mesmo assim, estes produtos também podem apresentar riscos. “Recomendo retirá-los quando ficam pequenos o suficiente para que o cão tente engoli-los e possa engasgar-se”, explica.
Segundo teste: a regra do joelho.
Se não estaria disposto a bater com o objeto no próprio joelho, então não o dê ao seu cão.
Os especialistas sublinham que o melhor caminho é sempre procurar aconselhamento profissional. Muitos veterinários têm marcas específicas que recomendam aos donos.
“Eles poderão ajudá-lo”, afirma Soltero-Rivera.
Caso suspeite de algum problema na boca do animal, o ideal é marcar rapidamente uma consulta. As fraturas dentárias nem sempre são visíveis, mas quando são diagnosticadas precocemente e tratadas rapidamente, os cães podem recuperar e voltar à sua rotina normal.














