Nem todos nasceram para madrugar: A moda de acordar às 5 da manhã pode ser um “erro biológico”, alertam especialistas

Durante vários anos, a ideia de que acordar às cinco da manhã é um dos segredos do sucesso pessoal e profissional ganhou popularidade em livros de desenvolvimento pessoal, redes sociais e discursos motivacionais.

Pedro Gonçalves

Durante vários anos, a ideia de que acordar às cinco da manhã é um dos segredos do sucesso pessoal e profissional ganhou popularidade em livros de desenvolvimento pessoal, redes sociais e discursos motivacionais. A chamada rotina do “clube das 5 da manhã” promove uma disciplina diária baseada em acordar antes do amanhecer para praticar exercício físico, meditar, tomar um pequeno-almoço saudável e iniciar o dia com vantagem.

Contudo, especialistas em cronobiologia e psicologia do sono alertam que essa fórmula, frequentemente apresentada como universal, pode não ser adequada para a maioria das pessoas. Segundo vários investigadores citados pela revista Focus, a tendência parte de uma premissa considerada incorreta: a ideia de que a disciplina e a força de vontade conseguem ultrapassar os limites da biologia humana.



De acordo com esses especialistas, os ritmos de sono são determinados por mecanismos biológicos internos que variam de pessoa para pessoa e não podem ser alterados simplesmente por motivação ou esforço. Além disso, insistem que impor horários de despertar muito precoces pode ter consequências comportamentais e emocionais. Entre os efeitos apontados está uma redução da empatia e um aumento da agressividade. “Faz-nos menos empáticos e mais agressivos”, referem os especialistas citados pela publicação.

Diferenças biológicas no ritmo de sono
Os investigadores explicam que os seres humanos apresentam diferentes cronótipos, isto é, padrões naturais de funcionamento do organismo ao longo do dia.

Entre esses perfis encontram-se as chamadas “cotovias”, pessoas que tendem a sentir-se mais alertas e produtivas durante a manhã. No extremo oposto estão os chamados “mochos”, indivíduos cujo rendimento atinge o pico durante a tarde ou a noite.

Entre estes dois grupos existe ainda um terceiro perfil intermédio, que representa aproximadamente metade da população.

Esta diversidade biológica significa que uma rotina baseada em acordar muito cedo pode funcionar para uma minoria de pessoas, mas não é necessariamente adequada para todos.

O impacto das horas de sono recomendadas
Outro ponto sublinhado pelos especialistas está relacionado com a quantidade de descanso considerada saudável.

Para a maioria dos adultos, a recomendação científica aponta para entre sete e nove horas de sono por noite. Para alguém que pretenda acordar às cinco da manhã sem comprometer essa recomendação, seria necessário deitar-se por volta das nove da noite.

Na prática, esse horário é considerado pouco realista para muitas pessoas devido às exigências profissionais, familiares e sociais do dia-a-dia.

O verdadeiro problema é dormir menos
Os especialistas sublinham que o problema não está necessariamente em acordar cedo, mas sim em reduzir o tempo de descanso para cumprir uma rotina rígida.

Dormir menos do que o necessário pode ter consequências significativas no funcionamento cognitivo e emocional. Entre os efeitos identificados estão uma diminuição da capacidade de memória, dificuldades na tomada de decisões, maior irritabilidade e uma sensibilidade acrescida à dor.

A longo prazo, a privação crónica de sono pode também aumentar o risco de diversos problemas de saúde, incluindo perturbações metabólicas, hipertensão arterial e diabetes.

Consequências também nas relações sociais
Os efeitos da falta de descanso não se limitam ao desempenho individual ou à saúde física. Segundo os especialistas citados pela revista Focus, a privação de sono pode afetar diretamente as relações sociais.

A fadiga tende a reduzir a capacidade de empatia e a aumentar comportamentos mais agressivos ou impulsivos, fatores que podem influenciar negativamente a convivência com outras pessoas.

A qualidade do sono é mais importante do que a hora de acordar
Perante este cenário, os especialistas defendem que a atenção deve estar menos centrada na hora exata de despertar e mais na qualidade global do sono.

Em vez de seguir rigidamente uma rotina de acordar muito cedo, recomendam que cada pessoa respeite os seus próprios ritmos biológicos e assegure um descanso adequado.

Para melhorar a qualidade do sono, apontam vários fatores fundamentais.

Um dos mais importantes é a escuridão no quarto, já que ambientes escuros ajudam o organismo a iniciar o processo de adormecimento.

Outro elemento essencial é o silêncio, uma vez que até ruídos ligeiros podem interferir com a qualidade do descanso.

A temperatura do ambiente também desempenha um papel relevante, sendo geralmente mais fácil adormecer em espaços frescos.

Por fim, os especialistas aconselham atenção aos horários das refeições, evitando jantar demasiado tarde, mas também não ir para a cama com fome.

Segundo os investigadores, respeitar estas condições e adaptar o horário de sono às necessidades biológicas individuais pode ser muito mais eficaz para garantir saúde, bem-estar e desempenho do que seguir rigidamente uma rotina que começa às cinco da manhã.

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