Portugal é um dos países europeus que mais tem apostado nas energias renováveis nas últimas décadas, mas continua sem qualquer central nuclear em funcionamento. Num momento em que a crise energética e a dependência externa voltam a dominar o debate na Europa, a ausência desta fonte no mix energético português levanta novas questões sobre se essa escolha poderá ter sido um erro estratégico.
A discussão ganhou novo fôlego após a presidente da Ursula von der Leyen afirmar que a Europa cometeu um erro ao afastar-se da energia nuclear. As declarações foram feitas durante uma cimeira dedicada ao setor, organizada por França e pela Agência Internacional da Energia Atómica em Paris, a 10 de março. Segundo a responsável, “a Europa cometeu um erro estratégico ao afastar-se de uma fonte de energia fiável, acessível e com baixas emissões”.
Na mesma ocasião, Von der Leyen anunciou a mobilização de 200 milhões de euros para o setor nuclear, numa altura em que aumentam as preocupações europeias com a dependência de importações de petróleo e gás, agravadas pelos recentes ataques dos Estados Unidos e de Israel ao Irão.
A evolução do peso do nuclear no sistema energético europeu é significativa. Nos anos 90, cerca de um terço da eletricidade produzida na União Europeia tinha origem nuclear, mas atualmente essa percentagem desceu para perto de 15%.
Portugal mantém aposta nas renováveis
Apesar do novo impulso europeu em torno da energia nuclear, Portugal continua a manter distância desta tecnologia. O país não possui qualquer reator nuclear nem produção elétrica deste tipo, apostando sobretudo em fontes renováveis como a eólica, solar e hídrica.
A ministra do Ambiente e Energia, Maria da Graça Carvalho, já tinha rejeitado a hipótese de desenvolver esta tecnologia no país. Em novembro do ano passado, afirmou que a energia nuclear “não é adequada para um país como Portugal”.
A governante argumentou ainda que, sem tecnologia própria para produzir este tipo de energia — como acontece em países como Espanha ou França —, os custos seriam muito elevados. Na sua perspetiva, a eletricidade proveniente de fontes renováveis continua a ser “mais simples e mais barata”.
Debate energético exige análise do sistema completo
Nem todos os especialistas concordam com esta visão. O físico Bruno Soares Gonçalves, presidente do Instituto de Plasmas e Fusão Nuclear, considera que antes de excluir qualquer tecnologia é necessário avaliar todas as opções disponíveis para garantir energia acessível no futuro. O investigador defendeu esta posição numa entrevista à Euronews.
Segundo o especialista, a discussão deve partir da análise das perspetivas de consumo energético nos próximos anos e da necessidade de assegurar eletricidade a baixo custo.
Comentando as declarações de Ursula von der Leyen, Bruno Soares Gonçalves sublinhou a importância do nuclear para garantir soberania energética e descarbonização, lamentando que tenha sido necessário chegar à atual situação para que a Europa reconhecesse o problema. “Foi preciso chegar ao ponto em que chegámos hoje para a Europa começar a reconhecer o erro estratégico de desinvestir repetidamente na energia nuclear ao longo dos anos”, afirmou.
O investigador alerta ainda que a redução do investimento no setor levou à perda de conhecimento e competências, ao mesmo tempo que países como a China avançaram rapidamente no desenvolvimento de tecnologias nucleares de nova geração.
Uma combinação de fontes pode ser a solução
Para Bruno Soares Gonçalves, a resposta ao desafio energético não passa necessariamente por uma única tecnologia. O especialista defende um portefólio diversificado de produção de eletricidade.
Entre os cenários possíveis, aponta combinações como renováveis com baterias e gás para garantir disponibilidade, ou renováveis complementadas por energia nuclear e barragens.
“O que é certo é que não existe uma solução única”, argumenta. Na sua perspetiva, as energias renováveis devem continuar a desempenhar um papel central, mas não podem ser a única fonte.
O investigador chama também a atenção para a forte dependência externa associada a algumas tecnologias renováveis, recordando que mais de 80% dos painéis solares são produzidos na China.
Para decidir o caminho a seguir, o especialista considera essencial a realização de um estudo abrangente sobre o sistema elétrico português.
A análise deverá avaliar o chamado “Total System Cost”, ou custo total do sistema, tendo em conta não apenas o preço de cada tecnologia, mas também fatores como infraestruturas de rede, manutenção e capacidade de reserva.
O secretário de Estado da Energia, Jean Barroca, já tinha anunciado em outubro do ano passado que esse estudo será realizado durante este ano.
Bruno Soares Gonçalves defende que olhar apenas para o custo de instalação de cada fonte pode ser enganador. “É importante ver o sistema como um todo e não apenas o valor unitário de integrar ou construir cada fonte de energia na rede”, explicou.
O peso atual da energia nuclear na União Europeia
Dados divulgados pela Eurostat indicam que 12 países da União Europeia com produção nuclear geraram 649.524 gigawatts-hora de eletricidade em 2024, um aumento de 4,8% face a 2023.
A energia nuclear representou 23,3% da produção total de eletricidade na União Europeia nesse ano.
Entre os Estados-membros, a França continua a ser o maior produtor nuclear do bloco. Já a Alemanha, que durante anos esteve entre os principais produtores, encerrou definitivamente os seus reatores em abril de 2023.
Uma das principais barreiras à expansão da energia nuclear é o elevado investimento inicial necessário.
Segundo Bruno Soares Gonçalves, caso o Governo português decidisse avançar com esta tecnologia, o processo seria longo e exigiria nova legislação, formação especializada e infraestruturas adequadas.
O físico recorda que nos Emirados Árabes Unidos demorou cerca de 12 anos a construir o primeiro reator nuclear, ilustrando a dimensão do investimento envolvido.
Além disso, o especialista sublinha que o chamado “levelised cost of electricity” — indicador frequentemente utilizado para comparar custos energéticos — não reflete todos os encargos do sistema, como reforço das redes elétricas ou necessidade de energia de reserva quando o vento não sopra ou o sol não brilha.
Diferenças na fiabilidade das fontes energéticas
Outro ponto destacado pelo investigador é a capacidade de produção constante das centrais nucleares.
Segundo explica, uma central nuclear produz eletricidade cerca de 90% do tempo, um indicador conhecido como fator de capacidade. Nas energias renováveis esse valor é significativamente inferior.
Em Portugal, refere, a energia eólica apresenta um fator de capacidade entre 22% e 24%, enquanto a energia solar ronda os 17%, uma vez que depende das condições meteorológicas e da alternância entre dia e noite.
A existência de fontes de energia estáveis pode ser determinante para garantir fornecimento contínuo, especialmente em momentos de crise energética ou falhas na rede.
Pequenos reatores nucleares ganham destaque
Durante a cimeira nuclear em Paris, Ursula von der Leyen anunciou também a intenção de estimular o desenvolvimento de pequenos reatores nucleares modulares, conhecidos como SMR (Small Modular Reactors).
De acordo com a responsável europeia, esta nova tecnologia deverá estar operacional no início da década de 2030.
Para Bruno Soares Gonçalves, estes reatores podem representar uma forma mais acessível de entrar no setor. Segundo explica, os SMR permitem construção mais rápida e custos de capital mais reduzidos, possibilitando investimentos progressivos.
Mesmo sem centrais, Portugal pode participar na indústria
Mesmo que Portugal opte por não produzir eletricidade nuclear, o especialista considera que o país pode beneficiar da indústria associada.
Entre as possibilidades está a produção de componentes industriais ou até de sal purificado utilizado em reatores de sal fundido, uma tecnologia que tem sido apontada como promissora.
Fusão nuclear: a energia do futuro?
A investigação em torno da fusão nuclear é vista por muitos cientistas como uma possível revolução energética.
Enquanto os reatores atuais funcionam por fissão nuclear, dividindo átomos pesados como urânio ou plutónio para libertar energia, a fusão baseia-se no processo inverso: a união de núcleos de átomos leves, como deutério e trítio.
O objetivo é reproduzir na Terra o mesmo processo que ocorre no interior do Sol, através do aquecimento de plasma a temperaturas que podem atingir 150 milhões de graus Celsius.
“O objetivo final é aquecer água para produzir vapor e rodar uma turbina. É uma forma muito elaborada de aquecer água”, comentou o investigador.
A Europa participa em vários projetos internacionais de fusão nuclear, incluindo o ITER — Reator Termonuclear Experimental Internacional, em construção no sul de França e previsto para ser inaugurado em 2034.
Este projeto pretende demonstrar que é possível produzir 10 a 20 vezes mais energia do que a consumida pelo reator, embora numa fase inicial ainda sem produção direta de eletricidade.
Paralelamente, Estados Unidos e China estão a investir fortemente nesta tecnologia. Segundo Bruno Soares Gonçalves, a China está a construir um novo grande reator experimental chamado BEST, destinado a testar componentes para futuros reatores de fusão.
Investimento português na investigação
Portugal participa no Programa Europeu de Fusão Nuclear, através do Instituto de Plasmas e Fusão Nuclear do Instituto Superior Técnico e do consórcio EUROfusion.
De acordo com Bruno Soares Gonçalves, a indústria portuguesa assinou 100 milhões de euros em contratos relacionados com o ITER no último ano, tornando o país o quinto maior fornecedor europeu do projeto.
“Somos o maior dos pequenos”, afirmou o investigador.
O debate sobre energia nuclear continua fortemente marcado por acidentes históricos como Acidente nuclear de Fukushima, ocorrido em 2011 no Japão, e o Desastre nuclear de Chernobyl, em 1986.
Segundo Bruno Soares Gonçalves, no caso de Fukushima as centrais pararam automaticamente após o terramoto, mas a catástrofe ocorreu porque o tsunami ultrapassou a altura do muro de proteção e inundou os geradores que mantinham o sistema de arrefecimento.
Já Chernobyl envolveu um reator sem edifício de contenção, algo que não corresponde às normas das centrais modernas.
A questão dos resíduos nucleares
Outro argumento frequentemente usado contra a energia nuclear é o problema dos resíduos radioativos.
O físico reconhece que se trata de resíduos perigosos, mas afirma que atualmente existem métodos conhecidos para a sua gestão segura.
Entre os mitos mais comuns, refere a ideia de que a quantidade de resíduos seria gigantesca. Segundo o investigador, se toda a eletricidade consumida por uma pessoa durante 80 anos fosse produzida por energia nuclear, os resíduos resultantes caberiam em cerca de um terço de uma lata de refrigerante.
Fusão nuclear ainda levará anos
Apesar das promessas da fusão nuclear, o especialista considera que a tecnologia ainda está a alguma distância da utilização comercial.
Na sua estimativa, os primeiros protótipos capazes de produzir eletricidade para a rede poderão surgir dentro de 10 a 20 anos.
Apesar da crescente discussão na Europa, o tema continua a gerar resistência política em Portugal. Segundo Bruno Soares Gonçalves, muitos governos evitam promover o debate devido ao impacto político do tema e ao facto de os resultados de investimentos nucleares ultrapassarem frequentemente um ciclo governativo.
“O que vemos sobretudo é investimento rápido, que possa ser inaugurado rapidamente”, criticou.
O especialista aguarda agora a divulgação do estudo prometido pelo Governo sobre os custos do sistema elétrico, embora admita que outras prioridades, como os danos provocados por tempestades recentes na rede elétrica, possam influenciar as decisões.








