Mais de seis anos depois do início da pandemia de Covid-19, a origem do vírus que desencadeou uma das maiores crises sanitárias globais continua a ser objeto de debate. Embora a maioria da comunidade científica tenha defendido desde o início uma origem zoonótica, isto é, transmitida de animais para humanos, persistiram teorias segundo as quais o vírus poderia ter sido criado ou manipulado num laboratório.
Um novo estudo científico publicado na revista Cell volta agora a reforçar a hipótese de origem natural do vírus SARS-CoV-2, sugerindo que não existem evidências genéticas que apontem para manipulação laboratorial antes do início do surto.
A investigação analisou vários surtos virais ocorridos ao longo de décadas, comparando padrões evolutivos de diferentes vírus para tentar determinar se o comportamento genético do SARS-CoV-2 se enquadra num processo natural de evolução.
Debate sobre a origem do vírus marcou os anos após a pandemia
Desde os primeiros meses da pandemia, uma das principais questões colocadas pela comunidade científica e pelos governos foi como surgiu o vírus responsável pela Covid-19.
Inicialmente, muitos investigadores apontaram para um mercado grossista de marisco e animais vivos na cidade chinesa de Wuhan como o ponto de partida da disseminação do vírus. No entanto, também se admitiu que a transmissão entre humanos poderia ter ocorrido antes de o vírus ser identificado nesse local.
A explicação mais amplamente aceite tem sido a de uma origem zoonótica, ou seja, a transmissão de um vírus presente em animais, possivelmente morcegos ou outros mamíferos, para seres humanos.
Apesar disso, nos anos que se seguiram ao início da pandemia multiplicaram-se teorias alternativas e especulações, algumas das quais sugeriam que o vírus poderia ter sido criado num laboratório ou libertado acidentalmente.
Entre as teorias mais divulgadas estava precisamente a hipótese de que o vírus teria sido desenvolvido num laboratório na China e depois teria escapado ou sido disseminado.
Algumas versões mais radicais chegaram mesmo a defender que a disseminação teria sido deliberada.
Estudo analisou vários surtos virais ao longo de décadas
A nova investigação procurou avaliar essas hipóteses comparando a evolução genética do SARS-CoV-2 com a de outros vírus responsáveis por grandes surtos ao longo da história recente.
Os investigadores analisaram sete surtos virais diferentes ocorridos ao longo de várias décadas. Entre os vírus incluídos no estudo estavam o Ebola, a gripe influenza, o vírus mpox (anteriormente conhecido como monkeypox) e o próprio SARS-CoV-2.
A equipa procurou identificar possíveis sinais genéticos que indicassem mudanças anormais antes do início dos surtos — algo que poderia sugerir manipulação ou adaptação artificial.
No entanto, os resultados não revelaram evidências desse tipo. Segundo os autores do estudo, não foram detetadas alterações genéticas invulgares imediatamente antes do início dos surtos analisados.
“Não encontramos evidências de uma mudança na intensidade da seleção imediatamente antes dos surtos em humanos quando comparada com a seleção típica nos hospedeiros reservatórios”, refere o estudo.
Os investigadores acrescentam ainda que a transmissão entre humanos não exige necessariamente uma adaptação extensa do vírus antes da passagem para a espécie humana.
“O processo de adaptação pré-zoonótica extensa não é necessário para a transmissão de vírus zoonóticos entre humanos”, conclui a investigação.
Comparação com outras pandemias reforça hipótese natural
A análise comparativa com outros vírus e pandemias permitiu aos investigadores chegar à conclusão de que o comportamento evolutivo do SARS-CoV-2 segue padrões semelhantes aos observados em outros vírus de origem animal.
Esse paralelismo reforça a ideia de que a Covid-19 teve uma origem zoonótica, em vez de resultar de manipulação laboratorial.
Segundo os autores do estudo, os dados disponíveis indicam que o vírus seguiu um processo evolutivo comum a muitos outros patógenos que acabam por saltar de animais para humanos.
“Foi apenas má sorte”, diz investigador
O principal autor do estudo, o virologista Joel Wertheim, da Universidade da Califórnia em San Diego, explicou ao New York Times que o surgimento da Covid-19 pode ter sido simplesmente resultado de circunstâncias fortuitas.
Segundo o investigador, o vírus demonstrou repetidamente uma capacidade natural para infetar humanos.
“Vemos, repetidamente, que o SARS-CoV-2 é coincidentemente bom a ser um vírus humano”, afirmou. Para Wertheim, esse facto ajuda a explicar por que razão o vírus conseguiu espalhar-se rapidamente entre pessoas sem necessidade de manipulação genética deliberada.
A declaração procura também contrariar as teorias que defendem que o vírus teria sido concebido artificialmente para infetar humanos.
Um caso histórico de possível acidente laboratorial
Apesar de a análise não ter encontrado indícios de manipulação no caso da Covid-19, os investigadores identificaram um exemplo histórico que poderá ter tido origem diferente.
A única exceção observada no estudo foi o reaparecimento do vírus influenza A H1N1 em 1977, frequentemente referido como “gripe russa”.
Nesse caso específico, os investigadores concluíram que o vírus apresentava características genéticas que indicavam ter evoluído antes do início da pandemia, o que levantou suspeitas de que poderia ter resultado de um incidente científico ou de laboratório.
Essa singularidade levou os investigadores a considerar que esse episódio poderia ter sido causado por um erro ou acidente durante atividades científicas.
No entanto, os cientistas sublinham que esse cenário não se aplica ao caso da Covid-19.
Origem da pandemia continua a ser tema sensível
Apesar das conclusões do novo estudo, o debate sobre a origem da pandemia continua a ser um tema sensível a nível internacional, envolvendo questões científicas, políticas e diplomáticas.
Desde 2020, diferentes investigações têm procurado esclarecer como surgiu o vírus, mas a ausência de dados definitivos sobre os primeiros momentos da transmissão tem alimentado especulações.
Ainda assim, a maioria dos estudos científicos publicados até agora aponta para uma origem natural do vírus, associada à transmissão de animais para humanos.
A nova investigação publicada na revista Cell reforça essa posição, sugerindo que o surgimento do SARS-CoV-2 segue padrões evolutivos semelhantes aos observados em outros vírus que deram origem a surtos e pandemias ao longo da história.




