A polémica em torno da entrada de influenciadores digitais em dezenas de escolas portuguesas levou o Governo a avançar com novas orientações destinadas aos diretores, num processo que está agora a ser acompanhado por um grupo de trabalho que reúne várias entidades do setor educativo. Em entrevista à Executive Digest, o presidente da Associação Nacional de Diretores de Agrupamentos e Escolas Públicas (ANDAEP), Filinto Lima, considera que as primeiras indicações enviadas pelo Ministério da Educação são relevantes e sublinha a necessidade de clarificar procedimentos para evitar episódios semelhantes no futuro.
O Ministério da Educação, Ciência e Inovação enviou recentemente às escolas um parecer da Inspeção-Geral da Educação e Ciência (IGEC) recordando que a utilização de instalações escolares apenas pode ser autorizada quando as atividades e os intervenientes respeitam a lei, os direitos fundamentais, o interesse público e os objetivos do sistema educativo. O documento surge na sequência da divulgação de que 79 escolas permitiram, nos dois últimos anos letivos, a presença de influenciadores associados a conteúdos de cariz sexual e misógino nas redes sociais.
Orientações consideradas necessárias pelos diretores
Para Filinto Lima, as orientações iniciais enviadas pelo Governo são justificadas perante o que aconteceu em algumas escolas do país. “São importantes e eu acho que aquilo que de facto aconteceu em algumas escolas do país, quer públicas quer privadas, tem que ser evitada”, afirma.
O responsável lembra que o sistema educativo atravessa uma fase de renovação nas lideranças escolares, com muitos diretores recém-eleitos após o limite de mandatos dos anteriores responsáveis. Segundo explica, “neste momento temos nas escolas públicas muitos diretores novos” que assumiram funções recentemente e que podem beneficiar de orientações mais claras sobre a gestão destas situações.
“Neste ano, no ano passado, em maio, junho, julho e agosto chegaram às escolas novos diretores, sem experiência”, explica, acrescentando que é necessário “apoiar esses novos diretores e relembrar aos outros que, entretanto, deixaram entrar nas escolas esses influenciadores”.
Na avaliação do presidente da ANDAEP, a presença destes criadores de conteúdos digitais nas escolas não trouxe qualquer benefício educativo. “É preciso lembrar que temos que ter cuidado quando recebemos e deixamos entrar pessoas de fora”, afirma, reconhecendo que em muitos casos a iniciativa partiu das associações de estudantes, mas sublinhando que a responsabilidade final cabe às direções escolares.
“Quem os levou para lá foram as associações de estudantes, mas o diretor é que é o responsável pela entrada nas escolas de pessoas estranhas”, refere.
“Influenciadores não acrescentaram nada à aprendizagem”
Filinto Lima considera que os episódios registados demonstram a necessidade de maior prudência na autorização de atividades externas nas escolas. Na sua opinião, os influenciadores que participaram em iniciativas escolares “não acrescentaram nada ao processo em si da aprendizagem”.
“É bom que se diga: estas pessoas, no caso concreto estes influenciadores, não acrescentaram nada ao processo de aprendizagem. Zero”, afirma de forma taxativa. “Pelo contrário, estão a dar problemas às escolas onde isso aconteceu.”
Apesar disso, o dirigente sublinha que não espera a criação de novas leis, mas sim orientações que possam ajudar os diretores a tomar decisões mais informadas. “Ninguém no Ministério irá legislar, tenho a certeza, mas recomenda essas orientações pelas quais os diretores se possam reger para o futuro e evitar este tipo de incómodos.”
Grupo de trabalho reúne diretores, pais e inspeção
Paralelamente às primeiras orientações enviadas às escolas, o Governo criou também um grupo de trabalho destinado a elaborar um documento mais completo com recomendações para o sistema educativo. O grupo foi formalizado através de um despacho publicado em Diário da República e integra representantes de várias entidades do setor.
Filinto Lima confirma que os diretores estão envolvidos diretamente neste processo. “Eu próprio faço parte do grupo de trabalho”, revela, acrescentando que já decorreram reuniões com o Ministério da Educação.
Segundo explica, trata-se de um grupo “muito heterogéneo”, que reúne representantes das direções escolares, da Inspeção-Geral da Educação e Ciência, da Confederação Nacional das Associações de Pais e também de entidades ligadas ao ensino privado.
“O grupo de trabalho é liderado pelo secretário de Estado, o doutor Alexandre Homem Cristo, e vai ouvir entidades e promover um documento final para que chegue às escolas como orientação”, explica.
De acordo com Filinto Lima, o objetivo do trabalho em curso não é acusar escolas ou diretores, mas antes clarificar procedimentos. “Não há aqui qualquer intuito acusatório, mas há um intuito informativo e de atenção”, sublinha.
O relatório final deverá ser produzido ainda durante o mês de março.
Expectativas de novas orientações para evitar episódios semelhantes
Questionado sobre as medidas concretas que poderão resultar deste processo, o presidente da ANDAEP prefere não antecipar conclusões, uma vez que o grupo de trabalho ainda está a discutir as propostas.
“As medidas estamos ainda a discuti-las”, explica, acrescentando que prefere “reservar a resposta para mais tarde”.
Ainda assim, considera que as orientações serão importantes para ajudar os diretores a lidar com uma realidade em rápida transformação, marcada pela influência crescente das redes sociais entre os jovens.
“Seguramente aqueles que deixaram entrar essas pessoas nas escolas não conheciam ou não tinham noção de quem eram”, refere.
Redes sociais vistas como desafio maior
Para Filinto Lima, a questão da presença de influenciadores nas escolas não pode ser analisada isoladamente, uma vez que o verdadeiro desafio está na forma como os jovens consomem conteúdos digitais fora do espaço escolar.
“O mundo hoje está transformado, as coisas mudam de um dia para o outro”, observa. “Os alunos mudam de ano para ano, crescem muito rapidamente e muitas vezes associados a essas redes sociais.”
Na sua opinião, o acesso precoce dos jovens a plataformas digitais pode representar um risco ainda maior do que episódios pontuais ocorridos dentro das escolas. “Se é verdade que no caso das escolas esses influenciadores entraram nas instalações, também é verdade que é mais perigoso os alunos em suas casas acederem a essas redes sociais e saberem quem é o ‘Zezinho’ ou outros influenciadores.” “Eu acho que isso é muito grave”, afirma.
Pais e adultos acusados de atraso digital
Na análise do dirigente da associação de diretores, muitos adultos não conseguem acompanhar a realidade digital em que os jovens estão inseridos.
“Acho que os adultos, e os pais em particular, estão muito aquém da capacitação digital em termos de redes sociais dos seus filhos”, afirma.
Segundo Filinto Lima, muitos pais desconhecem completamente os conteúdos a que os jovens têm acesso. “Não fazem a mínima ideia de conteúdos que essas redes sociais proporcionam aos seus filhos”, diz.
Essa situação pode resultar de vários fatores, desde falta de tempo até dificuldades tecnológicas. “Não é por maldade. Talvez seja por negligência, desinteresse ou porque estão ultrapassados tecnologicamente”, admite.
Apelo a maior literacia digital
Perante esta realidade, o presidente da ANDAEP defende um esforço coletivo para reforçar a literacia digital dos adultos, incluindo professores e pais.
“É importante todos nós termos cada vez mais capacitação digital”, afirma. “Os adultos não podem perder este momento do uso digital.”
Filinto Lima compara a atual revolução tecnológica com as mudanças ocorridas noutras gerações. “Nós aprendemos no papel e nas esferográficas, agora é no computador. Está tudo muito evoluído e nós não podemos perder o comboio.”
Caso contrário, alerta, os adultos correm o risco de ficar ultrapassados pelos próprios alunos. “Sob pena de sermos ultrapassados pelos nossos filhos e pelos nossos alunos.”
A fechar, Filinto Lima insiste que o acesso precoce a determinados conteúdos digitais representa um desafio educativo sério.
“Os nossos alunos nestas idades têm acesso a conteúdos que eu acho que não são adequados, tenho a certeza, para as idades deles”, afirma.
Por isso, defende uma resposta que envolva não apenas as escolas, mas também as famílias e a sociedade em geral. “Pode ter que haver mais atenção das escolas, confesso que sim, mas também muita maior atenção por parte dos pais e da própria sociedade.”




