A escalada do conflito no Irão está a aproximar a guerra do território europeu. O alcance de alguns mísseis e drones iranianos coloca várias cidades do sul e do centro da Europa dentro do raio potencial de ataque, um cenário que levanta uma questão inevitável: poderia Teerão atingir diretamente o continente europeu — e conseguiria a NATO travar esse ataque?
Uma análise publicada pela ‘Euronews’ explica que o arsenal de longo alcance do Irão inclui três tipos principais de armas capazes de alcançar partes da Europa: mísseis balísticos, drones de longo alcance e mísseis de cruzeiro.
O sistema mais destrutivo é o míssil balístico Khorramshahr, que pode transportar uma ogiva de até 1.800 quilos. Lançado a partir de bases subterrâneas fortificadas no noroeste do Irão, este míssil pode atingir alvos a cerca de 3.000 quilómetros de distância quando transporta cargas mais leves.
A essa distância, capitais como Atenas, Sófia e Bucareste entram no raio de alcance. Em cenários de alcance máximo, cidades como Viena, Roma ou até Berlim poderiam teoricamente ficar dentro do perímetro de ameaça.
Outro elemento central da estratégia militar iraniana são os drones. O modelo Shahed-136, utilizado extensivamente pela Rússia na guerra da Ucrânia, pode atingir alvos até cerca de 2.500 quilómetros de distância. Embora transporte ogivas relativamente pequenas — entre 30 e 50 quilos — é concebido para operar em enxames, com o objetivo de saturar as defesas aéreas e atacar infraestruturas críticas, como redes elétricas.
A terceira componente do arsenal é formada pelos mísseis de cruzeiro Soumar e variantes semelhantes, que podem alcançar entre 2.000 e 3.000 quilómetros. Ao contrário dos mísseis balísticos, estes voam a baixa altitude e seguem o relevo do terreno, o que os torna mais difíceis de detetar pelos radares convencionais e particularmente eficazes em ataques de precisão contra infraestruturas estratégicas.
Em conjunto, estes sistemas dão ao Irão uma capacidade de ataque de longo alcance que começa a sobrepor-se a parte do território europeu.
Como funcionaria a defesa da NATO
A NATO afirma estar preparada para lidar com esse tipo de ameaça. Em entrevista à ‘Euronews’, o coronel Martin L. O’Donnell, porta-voz do Quartel-General Supremo das Potências Aliadas na Europa (SHAPE), garantiu que a aliança dispõe dos meios necessários para proteger o território dos seus membros.
Segundo o responsável, o sistema de defesa antimíssil da NATO consegue detetar um lançamento, seguir a trajetória do projétil e destruí-lo em menos de 10 minutos.
O processo começa com sensores espaciais capazes de identificar o lançamento de um míssil. Depois, sistemas terrestres e marítimos acompanham o trajeto do projétil até ao momento da interceção.
O’Donnell destacou também recentes interceções de mísseis iranianos que se dirigiam ao espaço aéreo turco como prova de que o sistema funciona em condições reais e não apenas em simulações.
Apesar dessa capacidade, especialistas sublinham que os mísseis iranianos foram concebidos para dificultar a interceção. Algumas variantes podem reentrar na atmosfera a velocidades próximas de Mach 8 e alterar a trajetória durante a descida, o que reduz o tempo de reação das defesas.
Além disso, o Irão tende a combinar diferentes tipos de armas num mesmo ataque — mísseis balísticos, mísseis de cruzeiro e enxames de drones — precisamente para sobrecarregar os sistemas de defesa.
Drones representam novo desafio
Enquanto os mísseis balísticos são rápidos e poderosos, os drones representam um problema diferente para as defesas europeias.
Para responder a essa ameaça, a NATO está a implementar um novo sistema anti-drones chamado Merops na Polónia e na Roménia. O sistema utiliza pequenos drones intercetores que colidem com os aparelhos inimigos ou detonam perto deles.
Na Ucrânia, tecnologias semelhantes têm conseguido abater cerca de 40% dos drones Shahed que chegam ao território, podendo atingir taxas de interceção de até 80% quando combinadas com outras defesas.
Mesmo assim, uma parte dos drones consegue ultrapassar as defesas e atingir os seus alvos.
A ameaça pode ir além de mísseis
Especialistas alertam que um eventual confronto entre o Irão e a Europa não se limitaria necessariamente a ataques militares diretos.
Graig R. Klein, professor do Instituto de Segurança e Assuntos Globais da Universidade de Leiden, afirmou à ‘Euronews’ que Teerão tem um historial de recorrer a métodos indiretos, incluindo redes criminosas e células clandestinas, para realizar ataques na Europa.
Nos últimos anos, serviços de informação europeus identificaram vários planos ligados ao Irão que visavam dissidentes iranianos, jornalistas de língua persa, comunidades judaicas e cidadãos israelitas.
Essas operações são frequentemente executadas através de intermediários locais, o que dificulta a identificação direta dos responsáveis.
Além do terrorismo indireto, especialistas apontam também para outras formas de pressão, como ciberataques a infraestruturas críticas — incluindo sistemas de energia, água e saúde — ou sabotagem marítima.
Apesar destes riscos, analistas consideram improvável que o Irão tente ataques diretos em larga escala contra a população civil europeia.
A estratégia mais provável passaria por pressionar Governos europeus, atacar infraestruturas estratégicas e tentar provocar instabilidade política e social dentro das sociedades europeias.








